Maduro justifica pressão contra oposição alegando 'golpe suave'

  • 27 março 2014
Tanques nas ruas da Venezuela (Reuters) Image copyright Reuters
Image caption Militares venezuelanos divulgaram comunicado reiterando união pelo país

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, justificou a pressão do governo contra a oposição alegando que um "golpe suave" está ocorrendo no país desde o início dos protestos, no dia 12 de fevereiro.

Na terça-feira, o presidente venezuelano anunciou a prisão de três generais da Força Aérea que supostamente tentavam dar um golpe de Estado e, no mesmo dia, a deputada venezuelana María Corina Machado, um dos rostos mais conhecidos da oposição, teve o cargo cassado.

Esta foi a primeira vez em 15 anos da chamada Revolução Bolivariana em que oficiais ativos de uma patente tão alta são acusados de crime contra a segurança do Estado - apesar de recorrentes denúncias prévias de supostas negociações militares para derrubar o governo.

Oficialmente não foram revelados os nomes dos generais presos, nem especificados seus cargos. Alega-se que o procedimento das prisões não cumpriu o protocolo, e críticos do governo descartam a importância de qualquer iniciativa em que os três poderiam estar envolvidos.

'Monolítica'

Mas o caso dos três generais é uma exceção. A Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) apresentou na quarta-feira um comunicado de apoio ao governo no qual, apesar de garantir que não há problemas internos, defende a tese de "golpe suave" defendida por Maduro.

"Frente a estes fatos a Força Armada Nacional Bolivariana se mantém monolítica e nada prejudica nossa convicção democrática nem a moral de quem, através de suas atuações, conseguiu consubstanciar-se com a realidade de nosso povo, pois, graças a nosso comandante supremo e eterno, Hugo Chávez, conseguimos compreender que a União Cívica e Militar nos faz mais fortes", afirmaram os militares em comunicado.

No documento, a FANB prossegue afirmando que sua união e opinião estão implícitas e foram demonstradas de forma consistente desde 12 de fevereiro, o começo dos protestos no país e o que tem sido chamado de "golpe de Estado suave".

Fontes venezuelanas que conhecem o setor militar do país e pediram anonimato disseram à BBC Mundo que há uma possibilidade de que a prisão dos três seja uma ação para dar o exemplo, na tentativa de sufocar qualquer irregularidade dentro das Forças Armadas.

Apesar de algumas dessas fontes terem afirmado que não acreditam na existência de condições e nem ânimo entre os militares para dar um golpe e assumir o governo, muitos reconheceram que a FANB é uma "caixa-preta" na qual é muito difícil saber exatamente o que se passa.

'Conspiração'

Na quarta-feira, Maduro indicou que os três generais foram presos por "conspirar para colocar a Força Aérea venezuelana contra o governo" e realizar um golpe de Estado.

Durante uma reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que discutia a situação na Venezuela, Maduro afirmou que os militares presos tinham "ligações diretas com setores da oposição e diziam que esta semana era decisiva".

Antes, o presidente venezuelano já havia acusado "setores de direita apoiados pelos Estados Unidos" de estimular os distúrbios que atingem o país há meses como parte de uma conspiração para um golpe.

Maduro enfrenta há quase dois meses protestos diários contra a inflação, a violência no país e o desabastecimento de produtos básicos em várias cidades. Até o momento 36 pessoas morreram nos confrontos, centenas ficaram feridas e outras centenas foram detidas.

Cassação

Image copyright AP
Image caption María Corina Machado teve seu cargo cassado na terça-feira

A deputada María Corina Machado, que se transformou no rosto internacionalmente mais visível da oposição venezuelana em meio à crise, foi cassada na terça-feira - em um procedimento polêmico que a tirou do Parlamento de forma definitiva sem nem mesmo uma acusação judicial registrada contra a oposicionista.

A imunidade de Machado não foi cancelada antes da cassação e a oposição qualificou a medida de inconstitucional.

O presidente da Assembleia Nacional, o governista Diosdado Cabello, justificou a medida argumentando que Machado aceitou um cargo temporário de um governo "hostil", do Panamá, que, na sexta-feira passada convidou a deputada a falar como parte de sua delegação em uma reunião do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em entrevista à BBC Mundo, Machado afirmou que o governo de Maduro está mais "fraco do que nunca".

"A repressão e a violência geraram uma indignação ainda ainda maior e ainda mais força para a mobilização dos cidadãos. A violência só convém ao governo e não é responsabilidade nem culpa dos protestos, é culpa da repressão que impõe Maduro, que passou dos limites", afirmou.

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