Inventor busca recursos para testes de 'máquina do prazer'

  • 31 março 2014
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Image caption Há décadas o homem tenta manipular emoções através de dispositivos

O Orgasmatron é uma pequena caixa que, conectada à coluna vertebral, é capaz de causar orgasmos com o simples toque de um botão.

Patenteada pelo americano Stuart Meloy, esta tecnologia tem uma história estranha e fascinante - e tem causado sensação nos meios de comunicação mundo afora.

"Você é o sexto ou sétimo jornalista que me liga, e eu me pergunto o que está acontecendo", me disse Meloy surpreso. Sua confusão é justificada.

Notícias recentes baseiam-se exclusivamente em um artigo publicado há 13 anos na revista New Scientist, que apareceu recentemente no site Reddit, em que usuários podem colocar links para conteúdos que acham interessante.

Durante todos esses anos, Meloy tentou atrair interesse de investidores para o dispositivo, mas não teve sucesso.

Meloy é médico e cofundador da Advanced Interventional Pain Management, uma clínica que trata pacientes que sofrem de dores crônicas.

Foi lá que Meloy começou a trabalhar com implantes eletrônicos que, conectados aos nervos da coluna, enviam leves impulsos para aliviar uma dor crônica.

Em uma determinada ocasião, depois de receber o implante, um paciente disse que havia sentido um efeito colateral inesperado: o dispositivo havia emitido sensações de prazer.

Meloy percebeu que tinha em suas mãos uma poderosa tecnologia que poderia ser usada no tratamento de homens e mulheres com disfunção sexual.

Engavetado

Isso ocorreu há mais de uma década e, embora Meloy tenha desfrutado de uma carreira de sucesso como médico, o desenvolvimento do Orgasmatron ficou estagnado.

Um dos obstáculos para a comercialização do produto são os materiais necessários, como por exemplo o gerador, que custa cerca de US$ 25 mil (cerca de R$ 56,300).

Meloy acredita que o Orgasmatron poderia funcionar com uma fonte de energia muito menor, suficiente para suportar uma hora de uso diário.

Ele não obteve sucesso nas tentativas de convencer um laboratório a projetar uma alternativa apropriada.

Apesar de centenas de dispositivos para o tratamento de dores terem sido implantados em pacientes de Meloy - e alguns terem se beneficiado de seus efeitos colaterais secundários - implantá-los para tratar a disfunção sexual seria uma violação das regras.

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Image caption O Orgasmetron envia impulsos elétricos ao cérebro do paciente

Mesmo com toda a atenção gerada em torno do aparelho na internet, ainda não foi provado que o dispositivo seja um tratamento eficaz para a disfunção sexual, e qualquer um que pense em fingir sentir dores na coluna para receber um corre o risco de ficar desapontado.

Para que a Agência de Controle de Alimentos e Medicamentos (FDA, na sigla em inglês) aprove o dispositivo, teriam que ser realizados testes clínicos. E esses testes custariam cerca de US$ 6 milhões (R$ 13,5 milhões). "E esse dinheiro eu não tenho agora", ele diz.

Centro de prazer

Meloy não é o primeiro a ter a idéia de implantar "botões" de prazer em seres humanos.

Na década de 50, outro médico americano, Robert Galbraith Heath, que tratava distúrbios psicológicos no departamento de Psiquiatria e Neurologia da Universidade de Tulane, em Nova Orleans, criou uma técnica, a eletroterapia, que consistia na inserção de eletrodos em pequenos buracos abertos com brocas de dentista nos crânios de seus pacientes. Através desse eletrodos, era possível administrar impulsos elétricos diretamente ao cérebro.

Heath descobriu que, quando ativada, a área septal poderia induzir uma onda de prazer que suprimia o comportamento violento de alguns de seus pacientes. Em seguida, ao dar-lhes um interruptor para acionar a "onda de prazer", os pacientes eram capazes de alterar o seu humor por conta própria.

Dizem que o botão do prazer de Heath lhe rendeu uma visita da CIA. Os agentes queriam saber se a tecnologia poderia ser usada para infligir dor durante interrogatórios ou até mesmo controlar a mente de seus inimigos. Heath os colocou para fora do laboratório.

"Se eu quisesse ser um espião, eu seria", disse ele em entrevista ao New York Times. "Eu queria ser médico e praticar medicina."

O especialista e o touro

O médico espanhol José Manuel Rodriguez Delgado foi outro pesquisador que tentou manipular as sensações de prazer no cérebro.

Rodriguez conectou estimuladores cerebrais elétricos a transmissores de ondas de rádio, colocando o paciente efetivamente sob controle remoto.

Este especialista confiava tanto em sua tecnologia que fez um teste com touros. Ele participou de uma tourada e foi capaz de parar o touro antes que este o atacasse. Ele o fez também rugir e andar em círculos com apenas um toque em seu controle remoto.

Mas Rodriguez não pode controlar algo mais poderoso: a opinião pública. Em 1969, o especialista publicou seu livro, Physical Control of the Mind: Toward a Psychocivilized Society (Controle Físico da Mente: Em Direção a uma Sociedade Psicocivilizada, em tradução livre), no qual relata experiências com implantes cerebrais.

No livro ele, ingenuamente, encoraja as pessoas a aceitar essa tecnologia. "Se todos nós concordarmos em receber implantes para controlar nosso temperamento e nossos traumas, o mundo seria um lugar melhor", argumentou.

Um ano depois, no auge dos movimentos civis nos Estados Unidos, a polêmica foi reacendida quando dois de seus colegas sugeriram que os dispositivos poderiam ser usados para apaziguar os cidadãos afroamericanos que participavam de protestos em várias cidades.

Os recursos de financiamento de projetos desapareceram, e com o advento de medicamentos eficazes para tratar doenças mentais, a estimulação elétrica do cérebro foi desaparecendo e com ela as caixas de felicidade.

Segunda chance

Enquanto Meloy está entusiasmado com os potenciais benefícios de seus dispositivos, usá-los como um meio de controle social "não é algo que nós apoiamos". No entanto, com este renovado interesse, ele espera que o Orgasmatron tenha uma segunda chance de se tornar realidade.

Se isso acontecer, será que veríamos botões de prazer saindo dos corpos das pessoas?

"Não tão rápido", diz Petra Boynton, pesquisadora de sexo na University College London.

"Eu nunca vi um dispositivo, medicamento ou produto que ofereça resultados significativamente melhores do que placebos no tratamento de problemas sexuais", diz ela.

"Me preocupa a ideia de se oferecer cirurgias em casos que poderiam ser tratados com terapia, ou com informações sobre formas de se obter prazer e sobre o funcionamento do nosso corpo."

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