'Na África, voltei a ser cidadão', conta brasileiro exilado em 1964

  • 1 abril 2014
Professor Paulo Farias, em dezembro de 2013. Foto: cortesia Image copyright CORTESIA
Image caption Professor Paulo Farias deixou Brasil em 1964, perseguido antes do auge da repressão

Em agosto de 1964, após semanas de contínuas intimidações por parte da polícia, o professor Paulo Fernando de Moraes Farias, de 27 anos, deixou às pressas a sua cidade, Salvador, rumo ao interior da Bahia.

Com a ajuda de familiares, conseguiu sair do Estado para São Paulo, mas não se sentindo seguro lá, resolveu embarcar para a África, onde tinha intenção de passar dois anos em exílio, até que a situação política se acalmasse no Brasil.

Acabou ficando 18 anos sem pisar no país, e nunca mais fixou residência no Brasil. Ele mora há mais de quatro décadas na Grã-Bretanha, onde trabalha no departamento de Estudos Africanos e Antropologia da Universidade de Birmingham.

Farias fez parte da primeira onda de exilados – pessoas que foram perseguidas logo após o golpe de 1964, anos antes da luta armada se tornar uma ameaça ao governo. Sem nunca se envolver com qualquer esforço armado, foi perseguido e se exilou na África e depois na Europa.

Fuzis de madeira

Em 1963, formado em história pela Universidade Federal da Bahia, ele trabalhava no recém-criado Centro de Estudos Afro Orientais da instituição e como professor secundário no tradicional Colégio Central de Salvador.

Mas a atividade que mais chamou a atenção das autoridades após o golpe foi seu envolvimento com o centro popular de cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Farias ensinava analfabetos a ler e escrever com o método Paulo Freire, que combinava alfabetização com conscientização política. No regime militar, esse método foi reprimido no Brasil.

Além disso, Farias ajudou a ensaiar peças de teatro consideradas subversivas, como Os fuzis da Senhora Carrar, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

Até março de 1964, essas atividades eram possíveis, mas com a chegada dos militares ao poder, Farias passou a ser alvo de perseguições políticas. Teve sua casa invadida, sua biblioteca selada e foi convocado a depor diversas vezes.

"Eu vivi o dia do golpe e o dia seguinte ao golpe como uma súbita perda de cidadania, da noite para o dia. De repente não tínhamos mais direitos, podíamos ser presos a qualquer momento, e todas as nossas atividades – que até então eram atividades culturais – passaram a ser definidas na imprensa e na televisão como atividades criminosas e antibrasileiras."

Ele conta que a peça que ajudara a montar foi vítima de uma campanha na televisão da época.

"A peça Os Fuzis da Senhora Carrar usava fuzis de madeira. Mas houve um programa na televisão em que esses fuzis foram apresentados como armas russas que tinha sido apreendidas no centro popular de cultura, como se fossem armas perigosíssimas. E nós tínhamos que ver isso na televisão e não podíamos retrucar."

Image caption Farias morou em Gana durante a presidência do herói da independência Kwame Nkrumah

Com tantas intimidações, ele resolveu armar sua fuga de Salvador. Um tio emprestou um carro, que foi usado para chegar ao interior da Bahia, onde se refugiou na casa de familiares, de desconhecidos e até mesmo em uma tenda no meio do mato.

Quando sua então esposa se juntou a ele, ambos fugiram para São Paulo.

Lá, contou com a ajuda de intelectuais como Maurício Segall, Octavio Ianni e Francisco Weffort para fugir para a África, onde poderia continuar seus estudos de história e cultura africana.

'Primeira noite de pijama'

Aproveitando-se da falta de coordenação das informações entre as polícias da época, conseguiu emitir passaportes em São Paulo e seguir para a África.

"Só comecei a me sentir tranquilo quando o avião tinha passado do meio do caminho, pois dali eu sabia que ele não ia mais voltar", lembra.

"A primeira noite que passei na África foi talvez a mais deliciosa da minha vida, no fim de setembro. Desde 1º de abril de 1964 até esse dia, eu tinha sempre dormido todo vestido, pois há qualquer momento se houvesse alguma ameaça, eu procuraria escapar. Então foi a primeira vez que eu pude dormir de pijama. Foi uma noite tranquila em Dacar [no Senegal], ninguém sabia quem eu era, ninguém achava que eu era perigoso."

Pouco depois, Farias desembarcou em Gana, país que vivia um clima de otimismo sob a Presidência de Kwame Nkrumah, heróis da independência, conquistada em 1957. Nesse ambiente, Farias redescobriu, em Acra, os prazeres das liberdades civis.

"Na África, eu voltei a ser cidadão. Era um cidadão estrangeiro, mas podia dizer o que quisesse, ler os livros que quisesse. Uma grande memória que eu tenho é a biblioteca da universidade de Gana. Durante meses o prazer de sentar em uma biblioteca e ler me tinha sido vedado. De repente eu podia me sentar naquela grande sala, de janelas abertas, uma brisa agradável entrando, luz tropical, como na Bahia, e lendo todos os livros, revistas e jornais que quisesse. Uma nova experiência de liberdade."

A experiência de liberdade durou dois anos. Em 1966, Nkrumah foi derrubado, e Farias e sua então esposa se viram novamente em um ambiente de repressão e fugiram - primeiro para o Senegal e depois para a Nigéria.

Em 1968, Farias planejou que voltaria para o Brasil, entusiasmado com as passeatas e protestos contra o regime militar que se intensificavam a cada semana. Mas o Ato Institucional 5, no final do ano, mudou tudo. O professor já havia até mesmo recusado uma proposta de trabalho em uma universidade nigeriana, convicto de que poderia voltar ao Brasil.

"De repente, me vi num mato sem cachorro. Não tinha mais contrato na Nigéria e não podia voltar ao Brasil. Foram três ou quatro meses de grande angústia, pois eu não teria mais emprego."

Neste período, ele se candidatou a diversos postos de trabalho pelo mundo. Quase foi parar na Jamaica, mas acabou sendo contratado pela Universidade de Birmingham, na Grã-Bretanha, onde trabalha até hoje.

Brincando, ele diz que "deve aos Estados Unidos" sua vaga atual na Inglaterra, já que o posto que ocupou só abriu depois que universidades americanas começaram a se interessar mais pela cultura africana, com o crescimento do movimento negro no país nos anos 1960. Seu antecessor em Birmingham tinha sido contratado nos Estados Unidos, abrindo a oportunidade para sua mudança para a Inglaterra.

"Eu digo que saí do Brasil em parte por causa dos americanos [que apoiaram o golpe de 1964], mas fui também salvo pelos americanos", brinca.

Estranhamento na volta

Image copyright REUTERS
Image caption Volta a Salvador foi uma experiência emocional e de estranhamento para Farias

No exílio, passou por momentos difíceis, como a morte do pai e de sua madrinha no Brasil, sem que pudesse revê-los. Na Europa, Farias separou-se da esposa brasileira que havia percorrido junto com ele o caminho do exílio, e se casou com uma britânica.

Com a abertura política no Brasil, pode voltar ao país como turista, mas nesse ponto de sua vida já tinha estabelecido sua carreira e família na Inglaterra.

Voltou pela primeira vez a Salvador em 1982, quando já havia o começo de uma abertura política, porém ainda sem democracia plena.

"A volta foi uma experiência emocional que até hoje não sei se cheguei a compreender", conta.

"Houve um elemento de estranhamento. O espaço geográfico – a topografia – da cidade de Salvador tinha mudado. Uma grande série de novas avenidas e túneis tinha sido construída. Todo o movimento em Salvador seguia agora padrões diferentes. O centro da cidade tinha mudado, com uma decadência, e que depois foi reabilitado. O mapa mental que eu tinha da cidade tinha mudado."

Farias não sabe dizer o que teria acontecido com ele caso tivesse ficado no Brasil, mas imagina que teria sofrido o mesmo destino de muitos amigos que ficaram e continuaram lutando contra o regime militar: o desaparecimento.

"Um amigo meu eu soube que foi jogado de avião no mar. Outro amigo de escola secundária foi assassinado em São Paulo. O levaram para um edifício em construção e o jogaram do alto no fosso do elevador."

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