Criticado por 'autoritarismo', premiê turco sai fortalecido de eleições

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Image caption Em discurso após as eleições de domingo, Erdogan atacou seus opositores

O governo do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, acusado de autoritarismo e que, no ano passado, enfrentava ondas de protesto no país, demonstrou, nas urnas, que ainda goza de grande força e respaldo político.

Mesmo ações como a imposição de um bloqueio ao Twitter - após denúncias de suposta corrupção em seu governo -, promessas de "aniquilar" a rede de microblog e relatos de que Erdogan estaria tentando bloquear o acesso ao YouTube, não foram suficientes para impedir uma vitória esmagadora nas eleições municipais de domingo.

Com 80% dos votos contados, o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) do primeiro-ministro obtinha 46% dos votos e uma vantagem de quase 20 pontos percentuais sobre o principal partido de oposição.

Muitos pensavam que nessas eleições os eleitores fossem expressar em massa o seu descontentamento. A votação foi vista como um referendo sobre seu mandato e seu partido.

Ainda em dezembro, milhares de pessoas tinham ido às ruas pedir a renúncia do primeiro-ministro, depois que ele "transferiu" centenas de policiais, juízes e promotores, obstruindo uma investigação sobre suposta corrupção no governo.

Base de apoio

Segundo o jornalista do serviço turco da BBC Seref Isler, o resultado da eleição "não é tão surpreendente, considerando que os que normalmente votam em Erdogan não têm interesse em Twitter ou YouTube e nas proibições de acesso a eles".

"Esses resultados são certamente uma vitória pessoal extraordinário para Erdogan", diz Isler. "Mas para seus oponentes são um golpe muito duro para o país, com um medo crescente de que Erdogan seja cada vez mais autoritário".

"Na Turquia costumava haver respeito entre as pessoas, agora há uma grande tensão e nervosismo e um tremendo ódio entre o eleitorado", afirma.

"Eu nunca vi em meus 31 anos tantas divisões e ódio entre as pessoas. Pessoalmente, eu acho que nós estamos caminhando para algo irreparável."

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Image caption É a sexta vitória nacional consecutiva do AKP

"E quem forma sua base de apoio? É difícil dizer em um país como a Turquia, onde os partidos políticos não são definidos por classes sociais como em outros países", diz Isler. "O AKP é um partido de centro-direita e sua base de apoio são aqueles que conseguiram algo graças ao partido: empresários, conservadores e alguns intelectuais".

"Nós não podemos dizer que é um único setor que o apoia porque dentro de cada setor muitos são adeptos e muitos se opõem ao AKP e Erdogan. Também não podemos dizer que a elite liberal e secular é contra, porque ele (Erdogan) também tem simpatizantes nesses setores", acrescenta.

Segundo Isler, o resultado das votação de domingo não indica necessariamente que Erdogan conta com o apoio da maioria dos turcos. "Erdogan obteve 46% dos votos, e isso nos diz que 54% do eleitorado não apoiam o governo e, entre eles, há um enorme descontentamento. O problema é que não há uma oposição suficientemente forte e unida para enfrentá-lo".

"Nesta eleição, ficou claro que os três principais blocos oposição no Parlamento não conseguiram formar um movimento antigoverno crível", nota.

Força nas urnas

Desde que seu partido AKP chegou ao poder, em novembro de 2002, Erdogan conseguiu manter um extraordinário sucesso nas urnas. Com o pleito deste domingo, o partido ganhou seis eleições nacionais consecutivas.

Com exceção das eleições locais em 2009, em que obteve 38% dos votos, o partido sempre conseguiu levar em torno de 50%, como em 2011.

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Image caption Erdogan pode se canditar à presidência em agosto

Agora, ao receber mais de 40% dos votos e conseguindo manter prefeituras importantes como as de Ancara e Istanbul, muitos na Turquia dizem que o premiê obteve uma mensagem clara de apoio a suas políticas drásticas.

O governo patrocinou novas leis para que tenha mais controle sobre o sistema judiciário, os serviços de segurança e a internet - e possa impor restrições aos meios de comunicação.

Sua resposta a qualquer manifestação de oposição também tem sido forte. Em junho passado, protestos contra a construção de uma mesquita e um centro comercial num parque em Istambul tornaram-se manifestações nacionais contra o que os manifestantes classificaram de crescente autoritarismo de Erdogan. A resposta foi uma violenta repressão policial contra os manifestantes.

O próprio Erdogan, disse em discurso pró-eleitoral que "este é o apoio para os ideais da Turquia, para suas políticas, seu partido e seu primeiro-ministro".

Ele advertiu que agora entraria "no covil do inimigo", que o tinha acusado de corrupção e "vazado segredos de Estado", e disse que este "inimigo" agora iria "pagar por isso".

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