FMI vê necessidade de mais 'aperto' no Brasil

  • 8 abril 2014
Christine Lagard, do FMI. Foto: AFP Image copyright AFP
Image caption FMI prevê que o Brasil vai crescer 1,8% neste ano e 2,7% no próximo

No contexto de uma recuperação econômica mundial puxada pelas economias avançadas – em especial a dos Estados Unidos –, o Fundo Monetário Internacional (FMI) recomendou ao Brasil mais ortodoxia para compensar uma possível redução no apetite dos investidores estrangeiros por riscos.

Em um relatório macroeconômico divulgado nesta terça-feira, o Fundo avalia que a economia americana se encontra "livre de freios" para crescer e que as do núcleo da zona do euro estão "sólidas" e "em boa forma".

O raciocínio é que esta recuperação nas economias avançadas atraia recursos de investidores que hoje estão localizados nos países emergentes, como o Brasil. Para manter sua competitividade, o país precisa fazer o que o Fundo convencionalmente chama de "botar a casa em ordem".

"No Brasil, há a necessidade de dar continuidade às medidas de aperto. Apesar dos aumentos substanciais das taxas de juros, a inflação continua no teto da banda", diz o Panorama Econômico Mundial, divulgado na semana em que o FMI e o Banco Mundial realizam suas reuniões anuais de primavera (no hemisfério norte).

"Intervenções no câmbio devem ser mais seletivas, usadas primordialmente para controlar a volatilidade e evitar condições de mercado desordenadas. A consolidação fiscal ajudaria a conter a pressão da demanda doméstica e os desequilíbrios externos, ao mesmo tempo que contribuiria para reduzir a proporção relativamente elevada da dívida em relação ao PIB. Os gargalos de oferta precisam ser resolvidos."

'Freios relaxados'

A lista de recomendações do FMI não difere substancialmente dos alertas que o Fundo vem fazendo mesmo antes de o Federal Reserve, o Banco Central americano, começar a retirada gradual de estímulos à economia do país – uma espécie de "marco oficial" do início da retomada.

A autoridade monetária arrefeceu seu programa de injeção de dólares no mercado através da redução das compras de títulos americanos para US$ 55 bilhões por mês (contra US$ 85 bilhões no início do ano). E as expectativas são de que as taxas de juros comecem a subir em 2015.

A avaliação é de que a economia americana já não necessita de muletas para andar: o FMI prevê que o país cresça 2,8% neste ano e 3% no próximo.

Esse bom desempenho impulsionará a expansão das economias avançadas, que será de 2,2% em 2014 e de 2,3% em 2015, nas projeções do Fundo.

O diretor de Pesquisa do FMI, Olivier Blanchard, disse que a economia mundial está se recuperando porque "os freios que antes estavam bloqueando a recuperação estão sendo relaxados".

Nos Estados Unidos, onde esse processo é mais visível, segundo Blanchard, "a maioria dos freios já foi retirada".

"As pessoas podem contrair empréstimos a taxas baixas, a consolidação fiscal é um risco menor, as taxas de juros permanecem baixas", listou Blanchard. "A economia americana é a mais forte no mundo industrializado, e de certa forma está puxando o resto do mundo."

Blanchard definiu a recuperação nos principais países europeus e no Reino Unido como mais modesta, porém "sólida". Nas economias na periferia da zona do euro, "os números de crescimento são positivos, o que é uma boa notícia", avaliou o especialista. "Mas não é hora de relaxar."

Brasil

O crescimento da economia global foi projetado para 3,6% neste ano e 3,9% no ano que vem.

Já para a economia brasileira o Fundo rebaixou as previsões neste ano e no próximo, realinhando as suas projeções com o mercado. Os técnicos calculam que o país vai crescer 1,8% em 2014 e 2,7% em 2015 – redução em relação à projeção de janeiro de meio ponto percentual e 0,2 ponto percentual, respectivamente.

As apostas do mercado, segundo o boletim Focus, do Banco Central brasileiro, são de 1,63% para este ano e 2% para o ano que vem.

O crescimento será inferior à media dos países emergentes calculado pelo FMI: 4,9% em 2014 e 5,3% em 2015.

"A atividade (econômica) no Brasil continua lenta. A demanda está sendo apoiada pela recente desvalorização do real e pelo aumento da renda e do consumo, que ainda continua. Mas o investimento privado permanece fraco, refletindo parcialmente a baixa confiança dos empresários", descreveram os técnicos do FMI.

Apesar deste cenário, o país tem poucas escolhas além de apertar os cintos para combater a inflação, avalia o FMI. As projeções de aumento de preços para este ano são de 5,9% - um pouco abaixo dos 6,2% registrados em 2013 – e para o ano que vem, 5,5%.

No boletim Focus, os analistas do mercado esperam um IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 6,34% neste ano e de 5,84% em 2015.

Nos últimos meses, o mix brasileiro de políticas anti-inflacionárias "tendeu a se voltar para um aperto monetário", disse o Fundo, mas medidas de ortodoxia fiscal poderiam ajudar a retirar dinheiro de circulação, reduzir o endividamento do país e criar um ambiente econômico mais sustentável.

Emergentes

A avaliação do FMI sobre os emergentes em geral é cautelosa, porque estes, embora ainda respondam por cerca de 70% do crescimento mundial, se encontram diante de uma faca de dois gumes com a recuperação nos países avançados.

Se a recuperação nos mercados ricos reforça a demanda para os produtos exportados pelos emergentes, esta vantagem é contida pelos preços mais baixos das commodities – o que explica a projeção modesta de crescimento para a América Latina neste ano (2,5%).

Por outro lado, com a normalização das políticas monetárias, em especial nos Estados Unidos, pode complicar ainda mais a sustentabilidade de economias que continuam registrando déficits fiscais em geral acima dos níveis de antes da crise.

Neste cenário, "os investidores serão menos complacentes, e as debilidades macroeconômicas sairão mais caras", disse Blanchard.

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