Ucrânia: solução diplomática 'mais longe do que nunca'

Tropas ucranianas perto de onde edifícios foram tomados por militantes pró-Rússia(AP) Direito de imagem AP
Image caption Escalada na crise pode criar desculpa para avanço russo contra tropas ucranianas

A crise na Ucrânia entra agora em uma fase nova e mais perigosa.

A tomada de prédios públicos em diversas cidades do leste do país por ativistas descritos como pró-Rússia levanta a possibilidade de que o governo em Kiev responda duramente.

E isso, por sua vez, daria à Rússia o pretexto perfeito para avançar com sua força militar contra a Ucrânia.

Existe a possibilidade de que isso seja apenas teatro político, para assustar o governo interino ucraniano e tentar aniquilar o diálogo envolvendo Ucrânia, Rússia, Estados Unidos e União Europeia planejado para esta semana.

Ou Moscou pode estar apenas tentando controlar o contexto em que esse diálogo vai acontecer. De qualquer forma, a temperatura está se elevando, e uma solução diplomática à crise parece mais longe do que nunca.

Marcas registradas

Então, o que concluir sobre a afirmação, de fontes da Otan e de líderes ocidentais, de que o Exército russo já está realizando operações secretas no leste ucraniano?

Há indícios, obtidos nas redes sociais, mostrando que grupos de homens fortemente armados e equipados estão se envolvendo em diversas ocupações de edifícios públicos em cidades do leste da Ucrânia.

Para Roger McDermott, pesquisador sênior de estudos de Eurásia na Fundação Jameston, é um observador de longa data do Exército russo.

Ele acredita que essa uniformização - e o uso de armamento parecido - sugere que "'militantes' organizados têm todas as marcas registradas das forças especiais russas, ou para ser mais exato, da força militar de inteligência (chamada) Spetsnaz".

Ainda assim, ele adverte que esta parece ser apenas uma reprise parcial da operação inicial russa, na Crimeia.

"Na Crimeia, as forças russas realizaram basicamente uma operação sem resistência, para tomar locais estratégicos e explorar a fraqueza do governo interino em Kiev", diz McDermott, agregando que a situação é diferente no leste ucraniano.

"Com apoio local, as forças especiais (russas) podem obter o controle de edifícios estratégicos e rotas-chave, mas se as forças ucranianas responderem, haverá uma escalada que envolverá as tropas convencionais russas - incluindo uma ofensiva aérea ou unidades terrestres", prossegue ele.

Kier Giles, outro veterano analista militar russo do Conflict Studies Research Centre, afirma estar "deprimido, mas não surpreso" pela escalada das tensões nos últimos dias.

Questionado se o atual momento pode ser um prelúdio de uma ação militar de Moscou, ele diz achar perfeitamente plausível.

"Isso se encaixaria não apenas na narrativa de longo prazo da Rússia, de garantir a segurança de cidadãos russos no exterior, mas também na imperativa doutrinante de garantir a estabilidade nas fronteiras russas", afirma.

'Choque estratégico'

Ambos os analistas acreditam que a crise entrou em uma fase nova e talvez mais crítica. Questionam-se também se os alvos da Rússia estão claros. Não é uma aposta enorme avançar contra a Ucrânia?

"Os riscos são de que as tropas ucranianas imponham uma resistência maior do que a esperada por Moscou e (o enfrentamento) se estenda em algo longo e complicado", opina McDermott.

No entanto, "se Kiev sucumbir ou fracasse em responder rapidamente, Moscou teria uma grande vantagem para colocar na mesa de negociação e para garantir seus objetivos nesta crise: que o Ocidente reconheça um Estado ucraniano desmembrado ou que se promova a ideia de um meio-termo envolvendo uma nova Constituição - com um Estado federal ucraniano mais fraco e suscetível ao Kremlin."

Sob essa visão, as demandas de Moscou são claras: a federalização da Ucrânia e garantias legais de que o país jamais se unirá à Otan.

"O Kremlin está apostando alto e acredita que pode ganhar", diz McDermott.

Em contraste, a Otan e o Ocidente parecem ter menos opções para influenciar os desdobramentos em terra. McDermott afirma que os países ocidentais receberam uma espécie de "choque estratégico".

Ele argumenta que a crise revelou fraquezas na avaliação de inteligência sobre a Rússia e sobre sua ameaça em potencial ao Leste Europeu.

"Tanto analistas ocidentais quanto governos estão perdidos tentando explicar formas como impedir que a Rússia alcance seus objetivos estratégicos na Ucrânia", diz ele.

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