Lucas Mendes: Noites tristes

Oito horas de sono é um sonho.

Quando consigo sete horas, sinto vontade de sair da cama sapateando. Quase todas as noites, durmo com três homens: Jon Stewart, do Daily Show, Stephen Colbert, do Colbert Report - ambos no Comedy Central - e David Letterman, da CBS.

David Letterman vai ser substituído por Stephen Colbert. Para mim, é perda dupla. Bye, bye. Letterman vai se aposentar e Colbert vai aposentar o personagem Colbert, um apresentador egomaníaco, conservador radical, pró-arma, pró-petróleo, antiverde, Darwin, Papa, pobres, controle de natalidade, controles federais, anti-imigrantes, antiobamacare, enfim, anti toda a agenda liberal.

Um dos vários segredos do Colbert encarnado é parecer um radical decente. Não poupa nem convidados que pensam como ele. Quando um deputado ultraconservador propôs instalar os dez mandamentos nos tribunais e prédios públicos, Colbert perguntou a ele: "Quais são os 10 mandamentos?” E levantou as duas mãos fechadas para começar a contagem. O deputado só sabia não matar e não mentir.

A audiência, ao vivo e em casa, é cúmplice e participa dos projetos. Quando o governo húngaro lançou uma campanha para dar nome a uma nova ponte no rio Danúbio, Colbert sugeriu que lançassem o nome dele e recebeu 14 milhões de votos, muito mais do que o herói húngaro do século 16 que estava em primeiro lugar.

O embaixador da Hungria foi ao programa explicar que ele não ia ser nome de ponte porque era preciso estar morto. O embaixador levou a questão a sério.

O mais ativo dos negociadores de paz americano, Richard Holbrooke, foi ao programa resolver uma disputa sobre qual era o melhor sabor de sorvetes da Ben and Jerry. Kissinger foi decidir se Colbert era melhor guitarrista do que Sean Penn.

O show, cuja premissa já é um duplo sentido, tem o humor mais inteligente, provocante, imprevisível e improvisado da televisão americana.

A inspiração da encarnação num aprentador radical sugiu quando Colbert fazia um quadro no programa Daily Show, de Jon Stewart. Ele encarnava o mais detestável e mal informado dos correspondentes. Vestia a clássica capa de chuva com gola alta, era muito mais importante do que suas reportagens que só eram relevantes porque ele estava lá, em ação.

O personagem inspirador do show atual - The Colbert Report, com pronúncia afrancesada, "Colberrr" - é o campeão de audiência dos jornais da TV por assinatura, Bill O'Reilly, da rede Fox. Colbert se refere a ele como Papa Bear, Papai Urso. Ninguém na televisão americana desperta tanto ódio nos conservadores.

Quando foi escolhido para substituir Letterman, Rush Limbaugh, o campeão da audiência no rádio político, disse que “a CBS declarou guerra ao coração da América” .

Quando começou seu próprio programa, com apoio de Jon Stewart, a Comedy Central deu a Colbert um prazo de oito semanas para o show emplacar.

Bastou uma e, com dois meses no ar, recebeu quatro indicações para o Emmy, o prêmio mais importante da televisão americana.

Sua audiência é a mais jovem dos apresentadores da noite e pela pesquisa do Pew Center - especializado em mídia - a audiência é mais bem informada do que pessoas que se informam por jornais impressos, de TV ou de rádio.

Steve Colbert, caçula de uma família de 11 filhos, foi marcado por uma tragédia. Quando tinha dez anos, seu pai, um médico afluente, e dois irmãos morreram num desastre de avião.

Ele acha que só sentiu o impacto quando já estava na universidade em Virginia e estudava filosofia. Era viciado em ficção científica mas aluno ausente, antissocial e incerto sobre o que queria.

Pensou em ser poeta e deixou a barba crescer. De saco cheio com a faculdade, se mudou para Chicago e decidiu ser ator. Sério. ”Não queria fazer Hamlet. Queria ser Hamlet”, disse a um entrevistado.

Acabou no Second City, um dos maiores ninhos de comediantes americanos, gênios na improvisação. Já gerou Alan Arkin, Bill Murray, John Belushi, Tina Fey, entre milhares de outros.

Em pouco tempo, Colbert foi recrutado para o programa de Jon Stewart, que gerou seu próprio show e ninguém sabe quem será o Colbert da CBS, mas já avisou que será Stephen Colbert desencarnado.

Católico praticante, ensina catecismo aos domingos, músico e cantor amador, bom marido, bom pai de três filhos, bom vizinho, um boa praça que desencarna do papel quando entra no carro à noite a caminho de casa, em Nova Jersey.

Recusou a limusine porque quando dirige, sozinho, ouve música, canta e cai na real. Quando entra em casa, é pai e marido.

O Colbert que irá ao ar no lugar de Letterman é um dos grandes mistérios da televisão americana e um alivio para a direita conservadora. Para mim, uma noite sem graça.