Amigos dizem que DG era 'guerreiro e trabalhador'

  • 23 abril 2014
Local da morte de dançarino na favela Pavão-Pavãozinho, no Rio (foto: AP) Image copyright AP
Image caption Amigos lembram do carisma de Daniel Rafael da Silva Pereira, o DG, morto a tiros

Um guerreiro. Um sujeito muito carismático, animado e trabalhador. É assim que três amigos moradores da Rocinha descrevem Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, de 26 anos, encontrado morto numa creche da favela Pavão-Pavãozinho na última terça-feira.

A morte gerou confrontos violentos que tomaram duas ruas do bairro de Copacabana e reacenderam o debate em torno das UPPs na capital fluminense. O Rio e seu bairro mais famoso viraram manchete em todo o mundo a menos de dois meses da Copa do Mundo.

Andrézinho, de 25 anos, cantava e dançava no grupo "Moleques Assanhados" quando falou pela primeira vez com DG, como o jovem era mais conhecido. "Ficamos amigos. Ele era de um grupo concorrente, o 'Bonde da Madrugada', mas criamos uma irmandade. Logo começamos a fazer shows juntos, viajar para São Paulo, trabalhar em projetos", conta.

Mais jovem, o DJ Geléia, de 19 anos, diz que teve pouco contato com DG, mas que sempre ouviu coisas boas a seu respeito e, até onde sabe, o jovem era "uma ótima pessoa".

Entristecido com a notícia, o grupo lembra que não é a primeira vez que um amigo dançarino é encontrado morto.

Em janeiro de 2012, Gualter Rocha, o Gambá, foi visto pela última vez num baile na comunidade Mandela, em Manguinhos.

Conhecido como "rei do passinho", Gambá é visto como um ídolo por Wallace, de 20 anos, que tenta trilhar trajetória parecida com a dele e a de DG.

"Os dois eram muito animados. O DG era um cara esforçado, tinha namorada, tinha uma filhinha de quatro anos. Trabalhava como mototáxi na comunidade e também como dançarino da TV Globo, no Esquenta. Ele não era bandido", diz.

Image caption Amigos de Daniel Pereira dizem que "DG" não é o primeiro dançarino assassinado na favela

UPPs

Andrézinho diz que as UPPs mudaram a rotina das comunidades cariocas, mas faz ressalvas.

"Houve melhoras, claro. Mas na época do tráfico todos tinham medo de quebrar as leis deles. Hoje em dia você é tratado com muito preconceito. Se tiver cabelo tingido de louro, usar boné e corrente, já vai ser revistado e tratado como criminoso pelos soldados", explica.

Para ele, DG foi confundido com traficantes e acabou sendo alvo da polícia. 'Até onde eu sei não houve troca de tiros nem confronto. Ele foi encontrado já morto, com marcas de violência", diz.

DG morreu devido a uma "hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax, derivada de ação pérfuro-contundente', de acordo com o laudo do IML (Instituto Médico Legal).

Para fontes da PM citadas pela mídia local, o laudo mostra que ele teria sido vítima de um tiro, já que aponta perfuração no tórax, mas as causas oficiais ainda não foram divulgadas e o caso segue permeado de dúvidas.

A mãe do dançarino, Maria de Fátima, diz que o corpo e os documentos do filho estavam molhados e que ouviu relatos de testemunhas apontando que ele teria sido alvo de tortura, confundido com traficantes durante operação da polícia.

"Não descarto (o envolvimento de policiais), absolutamente', disse José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. "Mas não podemos condená-los de antemão . Várias hipóteses estão sendo examinadas, precisamos de respostas técnicas, não entrar em uma guerra de informação."

'O que aconteceu com ele foi uma injustiça. É muito difícil, mas temos que seguir em frente. O funk, o passinho, a dança são coisas que mudam a vida de muitas pessoas. Minhas letras são uma maneira de eu me expressar, minhas coreografias também", diz Andrézinho.

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