Tim Vickery: A dificuldade dos brasileiros em aceitar críticas

Turistas tiram fotos do topo do Edifício Itália, no centro de São Paulo Direito de imagem Reuters
Image caption Brasileiros terão que conviver com as opiniões de estrangeiros sobre o país após a Copa

Um dos destaques da TV aberta no Brasil atualmente é um programa chamado O Mundo Segundo os Brasileiros. Toda semana, o programa explora algum lugar do mundo do ponto de vista dos brasileiros que estão vivendo por lá. Ali eles têm a chance de contar suas histórias.

O programa é uma oportunidade para aprender muitas coisas sobre as atrações turísticas do lugar e sobre como é o dia a dia por lá, enquanto também revela muito sobre a perspectiva daqueles brasileiros que estão apresentando o local.

Em menos de dois meses, o processo irá se reverter. Pessoas de 31 nacionalidades diferentes (além de inúmeros outros "neutros") estarão acompanhando suas seleções pelo país como parte de uma experiência gigantesca e fascinante.

O produto final - assim como o troféu levantado no Maracanã no dia 13 de julho, após a final - será um O Brasil segundo o mundo - um programa que não será transmitido de uma vez em termos definitivos, mas que será transmitido nas TVs, nas rádios, nas mídias sociais e nas conversas por um sem-número de bares, cafés, restaurantes, de Sidney a Seul.

O resultado será inevitavelmente diverso, porque as pessoas que estarão fazendo o julgamento são diferentes. Esse, com certeza, é o momento apropriado para acabar com as visões infantis de um mundo "dualizado", dividido entre os "brasileiros daqui" e os "gringos de fora".

Todos os tipos da diversidade humana estarão nas ruas de 12 cidades brasileiras. É o tempo de abraçá-las. Mas abraçá-las significa aceitar uma ampla gama de opiniões diversas, e não apenas o que soar mais confortável aos ouvidos.

Os ataques e abusos recentes contra o jornalista dinamarquês Mikkel Jensen não são um sinal promissor. Ele desistiu de cobrir a Copa do Mundo depois de aprender português, viver um tempo no país e chegar à conclusão de que ele não se sentia mais confortável para fazer parte do evento.

Ele decidiu que a Copa de 2014 não estava cumprindo seu potencial social - talvez ele pensou que o torneio estava até piorando a situação nesse aspecto - e então ele foi embora para casa.

Nós podemos não concordar totalmente com a conclusão que ele tirou e com a atitude que ele tomou - apesar de eu pensar que muitos de nós que têm algum contato com esses megaeventos acabam ficando com um peso na consciência de alguma forma.

Mas o que é indiscutível é que ele tem o direito de ter sua opinião - especialmente, no caso dele, depois do tempo que ele passou observando, aprendendo e ponderando.

Jensen parece ter o melhor interesse da maioria da população brasileira no coração - seu post de despedida no Facebook fala sobre o contato que ele teve com crianças de rua em Fortaleza.

E ainda assim, muitos por aqui tentaram apresentá-lo como um "inimigo do Brasil", outra voz arrogante do rico colonialismo europeu olhando de nariz empinado para o Terceiro Mundo.

Mas há alguns pontos a serem considerados aqui. O primeiro é óbvio: as pessoas não são necessariamente ou mesmo geralmente, meros porta-vozes de sua terra nativa.

Segundo, o grande império dinamarquês não passou para a história como um dos mais tiranos e tem pouca relevância para qualquer debate sobre o Brasil.

E terceiro, milhões de brasileiros são eles próprios descendentes de europeus. Então eles também carregam consigo os pecados do colonialismo do passado? Ou nós estaríamos vendo, na verdade, o exagero de uma perversa "cultura da vítima".

Muitos brasileiros por si só parecem ter chegado à conclusão de que eles prefeririam não sediar a Copa do Mundo, que o evento está fazendo mais mal do que bem. Por que um jornalista dinamarquês não pode ter a mesma opinião?

O caso de Mikkel Jensen é um dos primeiros de muitos. Nos próximos meses, visitantes de muitos outros lugares diferentes formarão suas opiniões a respeito do Brasil - muitos deles sem investirem o mesmo tempo e fazerem o mesmo esforço que Jensen fez.

Algumas dessas opiniões podem não valer nada. Outras merecerão pelo menos uma reflexão. Algumas podem ser bastante ofensivas. Todas fazem parte do processo pelo qual o Brasil escolheu passar: o de ser anfitrião para o mundo inteiro.

Os 20 anos que passei aqui me levaram à concluir que a única relação madura possível com o Brasil é uma de amor e ódio.

Conforme o planeta começa a conhecer o país melhor como conseqüência da Copa, parece-me que alguns dos simples mitos sobre o Brasil, tanto os bons quanto os ruins, podem dar lugar a visões mais elaboradas sobre os pontos positivos e negativos do país.

Seria legal se as muitas versões do Brasil Segundo o Mundo pudessem homenagear a capacidade dos brasileiros a tolerar opiniões de pessoas que têm perspectivas diferentes, mesmo que ouvi-las pode às vezes machucá-los por dentro.