Jules Rimet, a taça da Copa que foi roubada duas vezes

  • 9 maio 2014
Foto: BBC
Image caption Taça Jules Rimet foi roubada duas vezes e, na última delas, jamais foi encontrada

O ditado sugere que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a história da taça Jules Rimet está aí para desmenti-lo.

A estatueta tinha tudo para ser cobiçada – e não só pelas seleções de futebol: primeiro troféu da Copa do Mundo, era feita em ouro com uma base de pedras semipreciosas. Pesava 3,8 kg e media 35 cm.

Foi uma trajetória complicada para o troféu, criado em 1930 para a edição inaugural da Copa e roubado no Rio de Janeiro, em 1983, para nunca mais ser visto. Acredita-se que, após o furto, ladrões derreteram a estatueta.

Mas o roubo no Rio não foi o primeiro na história da Jules Rimet.

Era 20 de março de 1966, e a taça estava em exposição em Londres, quatro meses antes da Copa na Inglaterra. O troféu estava sob tutela do Brasil, campeão de 1962, que havia concordado em exibi-lo junto a uma exposição de selos.

A segurança era grande mas, mesmo assim, a taça sumiu.

Ao menos dois vigias estavam no local da exposição no momento do roubo, pela manhã, mas eles nada viram.

O mistério gerou "vários dias de ansiedade e frustração", segundo reportagem da BBC à época, que avaliou o troféu em £30 mil (R$ 114 mil). O desaparecimento levou a uma caçada em toda a Inglaterra envolvendo investigadores da Scotland Yard.

Pickles, o herói

Um pedido de resgate chegou a ser enviado por alguém que se identificou como Jackson, que ameaçou derreter a taça se a quantia de £15 mil não fosse paga – em notas de £1 e £5.

Um policial à paisana foi ao encontro de Jackson com uma maleta recheada de jornais, cobertos por uma camada de notas de £5.

Jackson, na verdade, era o ex-soldado Edward Betchley, de 46 anos, que ainda era interrogado pela polícia quando o troféu foi encontrado, sete dias após o seu roubo.

Image copyright Getty
Image caption Pelé abraça Ado após o Brasil derrotar a Itália por 4 x 1 em 1970 e conquistar a Jules Rimet definitivamente

Foi graças a um pequeno cachorro mestiço, Pickles, que a caça chegou ao fim: ele encontrou a taça embrulhada em papéis de jornal e escondida em um jardim num bairro no subúrbio de Londres.

O cachorro tornou-se um herói mundial: Pickles recebeu uma recompensa pela descoberta e diversas homenagens – inclusive ração canina por um ano, segundo o livro The Theft of the Jules Rimet Trophy.

Ele apareceu em vários programas de televisão, estrelou um filme e teve seu próprio agente, mas morreu um ano depois.

Já Betchley negou ter planejado o roubo e disse ter sido apenas um intermediário e que o verdadeiro ladrão era um homem chamado de "The Pole". Segundo o jornal The Guardian, não está claro se esse homem existiu de verdade. Betchley morreu em 1969 após passar dois anos preso por extorsão.

História turbulenta

A estatueta foi criada em 1930 para a primeira Copa do Mundo e tinha o nome de "Vitória". Foi renomeada Jules Rimet em 1946 em homenagem ao pai do torneio.

O Uruguai foi o primeiro país a ser premiado com a taça, seguido da Itália, campeã em 1934 e 1938.

Foi aí que a história turbulenta do troféu começou.

Em 1939, a Segunda Guerra Mundial eclodiu e, para impedir que forças nazistas tomassem a escultura, o então vice-presidente italiano da Fifa, Ottorino Barassi, removeu secretamente a taça do banco onde ela era mantida em Roma e a armazenou numa caixa de sapato sob sua cama.

Mas ela voltaria a sumir em 1966 ao ser roubada em Londres.

O regulamento da Fifa à época previa que qualquer país a vencer a Copa três vezes ficaria com o troféu definitivamente. O Brasil conquistou o tricampeonato em 1970 e levou a taça.

Mas ela desapareceria, novamente, em 1983 – e, desta vez, para sempre.

Image copyright Press Association
Image caption Capitão da Inglaterra Bobby Moore ergue a Jules Rimet após os ingleses conquistarem o troféu, em 1966

A taça estava em exposição na sala de troféus na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) no Rio de Janeiro, protegida por uma caixa feita de vidro à prova de bala e pendurada na parede por uma moldura de madeira, que foi arrombada por invasores.

Ironicamente, uma réplica do troféu era mantida num cofre, enquanto a original era exposta.

O roubo foi planejado por Sérgio Peralta, representante do Atlético-MG na CBF e que tinha grande conhecimento do prédio, e realizado por dois comparsas.

Chico Barbudo e Luiz Bigode renderam o vigia para assaltar o prédio e levar a taça, que teria sido derretida por um comerciante de ouro argentino.

Além da Jules, outros três troféus também foram roubados.

Quatro dos envolvidos foram condenados em 1988 mas passaram poucos anos presos.

Atualmente, uma réplica da Jules Rimet, criada após o roubo, é mantida pela CBF no Rio.

Troféu não é de ninguém

A Jules também teve boas marcas: foi erguida por Bellini, capitão da seleção campeã em 1958, num gesto que se tornaria emblemático nos anos seguintes.

Uma estátua de Bellini em frente ao estádio do Maracanã imortalizou o ex-capitão erguendo a Jules Rimet original com uma só mão.

Interessante que, quando o troféu foi roubado pela primeira vez em Londres, um assessor da confederação brasileira disse que este era um sacrilégio que jamais seria cometido no Brasil, onde até mesmo os ladrões eram apaixonados por futebol, segundo citação no livro Day of the Match.

Ele não poderia estar mais errado.

Nenhum país fica mais com a taça atual, lançada em 1974. Agora, os campeões são premiados com réplicas do troféu banhadas a ouro - igual ao modelo sendo oferecido este ano a quem conquistar o título no Brasil.

Notícias relacionadas