Por que os chineses não querem falar ‘iPad’?

Cliente passe em frente a uma loja da Apple na China (Foto: AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Uso de palavras em inglês já se tornou comum em conversas na China, mas gera polêmica

Hoje em dia, se você escutar conversas telefônicas entre os chineses, é comum ouvir expressões em inglês aparecendo aqui e ali, como "Ok", "Cool" e "Bye bye".

Nas publicações chinesas, abreviaturas e siglas em inglês também aparecem com freqüência, sem qualquer tradução: PIB, OMC, Wifi, CEO, MBA e VIP estão entre as mais populares.

Este fenômeno, chamado de "tradução zero", vem provocando um grande debate no país, com o jornal oficial do Partido Comunista Chinês, Diário do Povo, sendo o último a entrar na briga.

"Por que a tradução de zero é tão comum?", grita a manchete de artigo recente, citando como "mau exemplo" o texto abaixo sobre tecnologia, que considera os méritos de plataformas de código aberto.

"采用了基于OpenEdX开源平台,开发了HTML5视频播放器,不再依赖国外课程播放首选的YouTube,解决了国内用户无法访问国外edX平台问题。"

"Por que temos traduções para Nokia e Motorola, mas não para o iPhone ou iPad?", questiona os autores.

Eles se irritam com o fato de que esses termos estrangeiros são encontrados não só em jornais e na internet, como também em respeitadas revistas científicas.

Os autores alegam que tais práticas podem prejudicar a integridade e a harmonia da língua chinesa, diluir a riqueza de sua cultura e dificultar a compreensão.

"Quantas pessoas podem entender estas palavras?", perguntam.

Razões

Para colocar isso em contexto, é preciso observar que a língua chinesa tem absorvido ao longo dos anos muitos termos estrangeiros, especialmente palavras inglesas. Adoções iniciais incluem雷达( leida ) para "radar" ,坦克( tanke ) para "tanque", e巧克力( qiaokeli ) para "chocolate" .

Coca-Cola, cuja versão chinesa可口可乐 (Kekou Kele) literalmente significa "saboroso e alegre", transmite uma sensação de euforia que é muitas vezes apontada como a melhor tradução da marca.

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Image caption Tradução chinesa de coca-cola significa 'saboroso e alegre'

Ao contrário do "mau exemplo de texto" citado acima, essas palavras e muitas outras ganharam caracteres chineses para que se misturem à língua chinesa.

O problema agora, afirmam os autores do artigo, é que as palavras em inglês têm sido utilizadas diretamente junto com chinesas, sem qualquer tradução. E há muitas razões para isso.

Cada vez mais os chineses falam inglês e gostam de alternar entre chinês e inglês em uma conversa ou quando escrevem. A internet ajudou a espalhar o inglês, especialmente nas áreas de inovação e tecnologia, enquanto os filmes americanos e britânicos e dramas de TV também desempenharam um papel neste fenômeno.

Os três autores do texto do Diário do Povo também citam o culto à cultura e tecnologia ocidentais, a escassez de bons tradutores e preguiça como possíveis causas.

E esta não é a primeira vez que as tentativas de purificar a língua chinesa provocaram debate nacional.

Polêmica

O basquete dos Estados Unidos é muito popular na China e, durante muitos anos, o termo "NBA " foi usado na TV chinesa. Mas, em 2010, as autoridades decidiram bani-lo, em favor da versão chinesa美 职 篮( mei zhi lan), que significa, literalmente," basquete profissional norte americano".

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Image caption A palavra NBA, símbolo do basquete americano, chegou a ser banida

A decisão provocou grande polêmica. Em 2012, o Dicionário Chinês Moderno, considerado a maior referência no uso da língua, incluiu NBA e mais de 200 outras palavras estrangeiras em sua nova edição, e o "NBA" fez seu caminho de volta à TV.

Pouco tempo depois, cerca de 100 acadêmicos escreveram uma carta aberta às autoridades nacionais do setor, acusando os editores do dicionário de violarem as leis e regulamentos chineses.

Eles argumentaram que a inclusão de tais termos e abreviaturas em inglês no dicionário chinês traria danos a longo prazo para o idioma.

Mas nem todo mundo concorda. A agência de notícias oficial Xinhua publicou artigo assinado por Zhang Kuixing que questiona como o uso de vocábulos em inglês pode ser contra a lei se a língua era legal na China.

O autor argumenta que um dicionário deve refletir o uso da língua e, uma vez que termos como NBA já tinham caído na boca do povo, a inclusão no dicionário simplesmente refletiria a realidade.

Outros disseram que o principal objetivo da língua é a comunicação e que, portanto, não deve-se calar as palavras estrangeiras. Um dicionário, argumentaram, deve fornecer referências para o uso da língua e ajudar os leitores.

Falta de orgulho?

Dois anos depois, a questão da língua chinesa volta a ser motivo para um debate político. O Diário do Povo culpa "a falta de orgulho e confiança em sua própria língua e cultura, o que leva pessoas a adorarem cegamente qualquer coisa ocidental".

A ideia é que todas as palavras estrangeiras tenham traduções chinesas adequadas: especialistas poderiam apresentar suas sugestões de tradução para consulta pública antes de se tornarem oficiais. As pessoas ainda poderiam votar em suas traduções favoritas.

As reações chegaram às redes sociais. Alguns publicaram passagens prolixas em chinês para mostrar como seria incoveniente dispensar o inglês.

Outros questionam qual é a vantagem de se aprender uma língua estrangeira se não podem praticá-la.

Houve até mesmo uma sugestão de que o nome da televisão estatal chinesa, CCTV, seja trocado. Trata-se, afinal, da abreviatura em inglês para a palavra Closed-circuit television (circuito fechado de TV, ou câmeras de segurança, em português).

Este parece ser o início de uma longa batalha.

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