Separatistas russos fazem referendo na Ucrânia à revelia de Kiev

  • 11 maio 2014
Referendo na Ucrânia | Crédito: AFP Direito de imagem AFP
Image caption Kiev e potências ocidentais condenaram votação deste domingo e acusaram Moscou de estar por trás da iniciativa

Separatistas pró-Rússia na região leste da Ucrânia deram início neste domingo a um polêmico referendo, que vem sendo condenado por Kiev e por diversas potências ocidentais.

Os autodeclarados líderes das regiões de Donetsk e Luhansk decidiram levar a cabo à votação, mesmo após um pedido do presidente russo, Vladimir Putin, para que ela fosse adiada.

Horas antes de os locais de votação fecharem, autoridades separatistas afirmaram que a participação eleitoral chegou a 70% - mas não há, por enquanto, confirmação sobre independência.

Um segundo turno do referendo está planejado para a semana que vem, sobre se as duas regiões querem se juntar à Rússia. Responsáveis pela votação também afirmaram que vão boicotar as eleições presidenciais da Ucrânia, no próximo dia 25 de maio.

Um líder separatista entrevistado por uma agência de notícias russa disse que, tão logo os resultados forem anunciados, as tropas ucranianas que atuam em Donetsk e Luhansk seriam consideradas "forças de ocupação".

Para líderes ucranianos, no entanto, o referendo pode resultar na "autodestruição" das duas regiões. Eles também chamaram o sufrágio de "uma farsa criminal" organizada pela Rússia.

Em diversas cidades, separatistas armados entraram em choque com a polícia ucraniana.

Uma pessoa teria morrido por um disparo em Krasnoarmeisk, na região de Donetsk, depois de soldados leais ao governo de Kiev fecharem à força um local de votação. O tiro teria partido dos militares.

Cenas caóticas vêm sendo observadas em alguns locais de votação, onde não há urnas ou mesmo registro eleitoral. Em alguns deles, multidões fazem longas filas à espera do momento de votar.

Um homem entrevistado pela BBC afirmou que conseguiu votar em Donetsk apenas fornecendo o seu nome e seu número da carteira de identidade, mesmo sem ter o título eleitoral na cidade.

Também houve conflitos na madrugada em locais próximos à cidade de Sloviansk, que permanece cercada por tropas do governo conduzindo o que Kiev descreve como uma "operação contra o terrorismo".

Na cidade portuária de Mariupol, também em Donetsk, ao menos sete pessoas foram mortas e outras 39 ficaram feridas durante um confronto entre os dois lados na sexta-feira, de acordo com autoridades locais.

Os organizadores do referendo disseram que a maioria dos pontos de votação seria controlada por ativistas pró-Rússia.

Milhões de cédulas foram impressas. Nelas, há apenas uma questão – formulada tanto em ucraniano como em russo: "Você apoia o ato do estado autogovernado da República Popular de Donetsk e da República Popular de Luhansk?"

Os organizadores indicaram que vão fazer um segundo turno do referendo, dessa vez sobre a anexação à Rússia. Eles também disseram que vão boicotar as eleições presidenciais ucraniana, em 25 de maio.

'Rumo ao abismo'

No sábado, o presidente interino da Ucrânia, Olexandr Turchynov admitiu que muitas regiões no leste da Ucrânia apoiam os militantes pró-Rússia, mas classificou os referendos como "um passo em direção ao abismo".

A votação também recebeu duras críticas das potências ocidentais. Os Estados Unidos e a União Europeia condenaram o referendo, em meio a temores de que a Ucrânia possa estar caminhando para uma guerra civil.

Uma pesquisa realizada pelo Pew Research Centre, nos Estados Unidos, revelou que a maioria dos ucranianos, mesmo aqueles que vivem no leste do país, querem permanecer em um país unido, embora não apoiem o atual governo.

A tensão na região se intensificou desde que o forças apoiadas pelo Kremlin tomaram o controle da Crimeia, que em seguida votou, em março, para se unir à Rússia, em um referendo que Kiev e o Ocidente consideram ilegal.

Bill Taylor, ex-embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia, afirmou que os resultados do referendo deste domingo devem ser observados com cautela depois do que aconteceu na Crimeia.

"As primeiras informações às quais tivemos acesso sobre o referendo na Crimeia mostram que houve uma abstenção de 80% e 97% votaram pelo sim. Mas dias depois, segundo um site do governo russo, a abstenção não foi de 80%, foi apenas de 30%, e a votação pelo sim não foi de 97%, mas de apenas 50%", afirmou Taylor à BBC.

Estimativas preliminares apontam que a Rússia mantém 40 mil militares perto da fronteira com a Ucrânia, mas por enquanto não há indicações de uma possível invasão.

Moscou alega que as tropas recuaram, mas a Otan nega.

No sábado, líderes da União Europeia, como François Hollande, da França, e Angela Merkel, da Alemanha, ameaçaram a Rússia com novas sanções caso o país interfira nas eleições presidenciais da Ucrânia, no fim deste mês.

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Image caption Locais de votação tiveram longas filas
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Image caption No mês passado, a Rússia anexou a península ucraniana da Crimeia, alimentando outras iniciativas de desmembramento
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Image caption Em alguns locais de votação, não há cabines ou comprovantes
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