O Boko Haram é uma ameaça para o Ocidente?

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Image caption Sequestro de estudantes na Nigéria causou comoção internacional

Há dois meses, quase ninguém fora da Nigéria e partes do oeste da África tinha ouvido falar do Boko Haram.

Hoje, por todas as razões erradas, o grupo militante islâmico tornou-se um nome internacionalmente conhecido.

A súbita notoriedade surpreendeu até mesmo seus líderes, segundo relatos, que se encontram, agora, numa posição forte na negociação com o governo nigeriano.

Para condenação universal, o Boko Haram continua a manter como reféns mais de 200 estudantes adolescentes que foram raptadas de seus dormitórios numa noite em abril.

Uma campanha global para a libertação delas, incluindo um apelo da primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, não conseguiu libertar uma única refém.

Mas este sequestro em massa é apenas um aspecto da campanha cada vez mais violenta do Boko Haram para forçar suas demandas no Estado nigeriano, através de uma sucessão de explosões, tiroteios, seqüestros e extorsão.

Em seus esforços para recrutar novos membros, o grupo tem sido amplamente ajudado pelos abusos aos direitos humanos alegadamente cometidos pelas autoridades nigerianas.

"A escala de atrocidades realizadas pelo Boko Haram é verdadeiramente chocante, criando um clima de medo e insegurança", disse a Anistia Internacional.

"Mas isso não pode ser usado para justificar a brutalidade da resposta que está claramente sendo usada pelas forças de segurança nigerianas".

Ameaça?

A rivalidade do Boko Haram é principalmente com o governo nigeriano. Mas o grupo também defende uma agenda anti-cristã e anti-Ocidente. Seu nome, uma abreviatura de seu título completo, significa "educação ocidental é pecaminosa".

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Image caption O líder do Boko Haram Abubakar Shekau ameaçou tratar as meninas como escravas

Seus integrantes e seus afiliados jihadistas em um grupo chamado Ansaru têm sequestrado, exigido resgate e às vezes assassinado reféns ocidentais. Em 2011, eles explodiram a sede regional da ONU em Abuja com um carro-bomba, usando técnicas que teriam sido aprendidas com a Al-Qaeda.

Em um extenso novo relatório sobre o Boko Haram publicado pelo Centro de Combate ao Terrorismo da Academia Militar dos EUA em West Point, o autor Jacob Zenn argumenta que a intervenção militar francesa no ano passado em Mali pode ter indiretamente fortalecido o Boko Haram.

O relatório cita uma avaliação de inteligência do Serviço de Segurança do Estado da Nigéria de que "cerca de 200 pessoas suspeitas de serem de origem nigeriana concluíram com êxito sua formação em um acampamento no Mali".

Mas qual é exatamente a extensão do alcance internacional do Boko Haram? O grupo poderia, como alguns temem, tornar-se uma ameaça à segurança da Nigéria e de suas fronteiras com os vizinhos Camarões e Níger? Poderia até mesmo, ameaçar nações ocidentais no futuro, como foi sugerido?

Há ampla evidência da presença do Boko Haram em países vizinhos.

Por exemplo, o norte de Camarões - apesar do recente anúncio do envio de tropas ao longo da fronteira - parece ter se tornado uma espécie de porto seguro para os militantes se reagruparem após realizaram ataques dentro da Nigéria.

De acordo com o Africom, o comando do Pentágono para a África, há também evidências de ligações ocasionais entre o Boko Haram e a franquia regional da al-Qaeda - a AQMI ou al-Qaeda no Magreb Islâmico.

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Image caption Forças de segurança nigerianas têm tido dificuldades em derrotar a insurgência

Acredita-se que um pequeno número de combatentes do Boko Haram teria viajado até a República Centro-Africana e até mesmo à Somália para juntar-se com o al-Shabab.

O relatório de Jacob Zenn conclui ainda que o "Boko Haram provavelmente irá expandir seu foco para além do norte da Nigéria" e que sua ideologia "se tornará menos centrada na Nigéria e mais regionalizada, para atrair um novo espaço de recrutamento no Saara".

Finalmente, Zenn diz que o "Boko Haram pode se preparar para retaliar contra alvos ocidentais no sul da Nigéria ou no exterior e tirar partido das suas redes no Sudão e, possivelmente, no Reino Unido, se uma coligação regional ou internacional colaborar com a Nigéria para lançar uma guerra total contra o Boko Haram ou resgatar as estudantes de Chibok".

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