#SalaSocial: "Jogaram meu pai 'oco' numa cova", diz filha de enterrado como indigente

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Image caption A taxista Maria Cecília mostra foto do casamento do pai, enterrado como indigente em Perus (SP)

A taxista Maria Cecilia Leão Correa teve pai e sogro enterrados como indigentes no cemitério de Perus após passarem pelo Serviço de Verificação de Óbitos de São Paulo, alvo de investigação do Ministério Público.

Ela tentou transferir o corpo para o jazigo da família, em Itapecirica da Serra, região metropolitana de SP. "O coveiro disse que não valia a pena. Falou que ele foi enterrado sem nenhum órgão, totalmente irreconhecível. Simplesmente 'tacaram' ele oco numa cova", diz.

"Meu pai saiu de casa de manhã. Ele era aposentado, totalmente lúcido. Mesmo assim, eu tinha feito um crachazinho com seu nome e endereço. Ficava tudo no bolso, junto com RG e CPF. Ele costumava voltar à noite, mas dessa vez não voltou", conta Cecília.

Começou aí sua peregrinação em busca do paradeiro do pai, Edson Araujo Leão, morto aos 64 anos. Depois de fazer boletim de ocorrência na polícia e descobrir que o pai havia ficado internado durante nove dias num hospital público, ela encontrou a resposta definitiva no SVO.

"Me disseram que o corpo dele ficou 72 horas lá dentro e que, como ninguém foi buscar, foi enterrado em vala comum."

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Questionado pela reportagem, o diretor do SVO, Ferraz da Silva, disse que não avaliou "cada caso isoladamente". Ao pedido de verificação sobre este óbito, ele respondeu que não teria "como checar e verificar o caso específico" do pai de Cecília.

"O meu pai estava identificado e eles não fizeram nenhum esforço para me avisar. Tinha B.O., era só dar um clique no computador", diz Cecília. "Como é que eu ia adivinhar que ele estava nesse SVO?".

Foi lá que ela diz ter descoberto que o pai havia sido enterrado no cemitério de Perus. "Estava lá o nome dele no livro dos falecidos", diz.

Cecília conta ainda que, procurando o nome do pai no livro de óbitos do cemitério, encontrou "sem querer" também o sogro. "Ele estava enterrado três túmulos depois do meu pai."

"Ele era afastado da família, morava numa pensão no centro. A gente nem sabia que ele tinha morrido. Depois eu soube que ele passou mal cedinho, morreu, foi para o SVO e veio parar em Perus. Ele também andava com a documentação em dia, mas não adianta", disse.

Segundo a promotora Eliana Vendramini, o caso de Cecília é simbólico porque mostra a dificuldade das famílias em identificar o paradeiro de parentes desaparecidos. "Pouca gente conhece ou sabe para que serve o SVO. Eles também não divulgam o serviço. É por isso que os corpos não são reclamados a tempo."

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Image caption As valas comuns no cemitério de Perus são marcadas apenas por números (Foto: Ricardo Senra/BBC Brasil)

Perus

A BBC Brasil acompanhou a equipe do Ministério Público em uma visita ao cemitério de Perus na quarta-feira da semana passada. Dos 22 cemitérios da cidade de São Paulo, apenas este, o de Vila Formosa e o São Luis, na zona Sul, sepultam corpos de indigentes --ou corpos não reclamados por familiares e amigos.

A ala dos indigentes fica na parte mais baixa do terreno acidentado, depois dos jazigos familiares e túmulos de pessoas identificadas. Todas as valas comuns são marcadas apenas por números.

Na primeira tentativa de conversa, um dos sepultadores afirmou que "recebeu ordens há uma semana para não falar com ninguém".

Outra funcionária do cemitério, que não quis se identificar, disse que em média quatro corpos classificados como indigentes são encaminhados do SVO para lá todos os dias. "As famílias só ficam sabendo que eles estão aqui muito tempo depois. Isso se souberem", disse.

A reportagem acompanhou a chegada de corpos vindos do Instituto Médico Legal (IML), que realiza autópsias e sepultamentos em casos de mortes violentas.

Empilhados, os cadáveres nus são retirados de uma caminhonete e colocados em caixões de compensado antes de serem enterrados. Para cada um deles, o processo não leva mais que 20 minutos.

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Image caption Caixões utilizados para o enterro de indigentes, em Perus (Foto: Ricardo Senra/BBC Brasil)

Em meio ao mar de valas comuns, sinalizadas apenas por números e terra vermelha remexida, algumas covas enfeitadas com flores e com placas de identificação se destacavam. "Esses são de pessoas que foram identificadas pelos familiares depois do enterro", disse a administradora.

"Aí eles consertam tudo, ajeitam para dar mais dignidade ao morto", afirmou.

Petição online

No último dia 14, Cecília criou uma petição online pelo site Change. Endereçada ao SVO com o título "Parem de enterrar pessoas com identificação como indigentes!", a petição já atingiu quase 40.000 assinaturas.

"Vamos pressionar o SVO (Serviço de Verificação de Óbitos da Capital) e o governo de São Paulo a não enterrar mais ninguém que tenha identificação como indigente, e obrigar estes órgãos a avisar as famílias sempre que o falecido estiver identificado", diz o texto da petição.

A publicação foi respondida oficialmente por Ferraz da Silva, em nome do SVO, que afirmou que "diversas das medidas no sentido de propor soluções aos problemas apontados já foram implantadas e encontram-se em vigor desde o dia 24 de abril de 2014 e que outras vêm sendo buscadas para aprimorar o serviço à nossa comunidade."

No texto de resposta, o médico reitera que o prazo oficial de 72 horas para sepultamento foi ampliado para 10 dias, "garantindo tempo hábil para buscas e identificação".