Qual é a real força dos republicanos na Espanha?

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Image caption Espanhóis foram às ruas em diversas cidades em favor de um referendo sobre o regime de governo do país

Em Madri, Barcelona, Valência, Bilbao e outras cidades espanholas, milhares de pessoas foram às ruas para se manifestar a favor de um referendo sobre o futuro da monarquia no país, horas depois que o rei Juan Carlos abdicar do trono em favor do seu filho Felipe.

"Uma nova geração cobra com bons motivos seu papel como protagonista", disse o rei em seu pronunciamento oficial, transmitido ao vivo em todos os canais da TV espanhola.

"Meu filho representa a estabilidade e tem maturidade e preparo necessários."

Mas nem todos na Espanha estão de acordo com uma sucessão do trono sem que ocorra antes um referendo.

Com a renúncia, novas portas foram abertas para um debate político há muito latente: continuidade ou mudança, monarquia ou república.

As manifestações mostram que muitos querem a república, mas qual é o apoio real que este regime tem na sociedade espanhola?

Monarquia em crise

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Image caption Escândalos abalam a monarquia espanhola

Até 2004, a monarquia era a instituição mais valorizada pelos espanhóis, segundo o Centro de Investigação Sociológica (CIS).

Mas uma série de escândalos, especialmente aqueles que envolvem a filha do rei, Cristina, e seu marido, afetaram a imagem da monarquia espanhola nos últimos anos.

Em 2006, a instituição tinha 5,19 dos 10 pontos possíveis na escola do CIS. Em abril de 2014, já havia caído para 3,72.

O rei Juan Carlos foi seriamente questionado depois ser fotografado em uma expedição de caça a elefantes em Botsuana.

Muitos viram a viagem como uma ostentação em tempos de plena crise econômica, e o rei teve de pedir desculpas publicamente por seu comportamento.

Enquanto a imagem da monarquia se deteriorava, a república como sistema de governo foi ganhando força, segundo algumas pesquisas.

Segundo uma pesquisa encomendada pelo jornal El País, a monarquia tinha uma vantagem de 53 pontos percentuais sobre a república na preferência popular. Em 2012, a diferença havia caído para 16 pontos.

E, pela primeira vez em quase 40 anos do reinado de Juan Carlos, o debate entre monarquia e república - que até então era uma questão menor - se transformou num tema de debate social.

Nova oportunidade

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Image caption Apoio à república vêm crescendo na Espanha

Apesar das várias manifestações de apoio à monarquia, nas ruas e em redes sociais, feitas após a renúncia, a república tem sido até o momento uma aspiração de grupos minoritários, sobretudo de partidos de esquerda.

As duas legendas majoritárias, o Partido Popular e o Partido Socialista Trabalhador Espanhol, têm se posicionado até o momento contra este debate e reiteraram seu apoio à monarquia.

"Espero que em breve o atual príncipe possa ser proclamado rei", disse o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy. "Nós, os espanhóis, saberemos conduzir este momento em um clima sereno, com tranquilidade e gratidão ao rei."

Mesmo assim, a decisão de Juan Carlos foi levou outros partidos - como o grupos de esquerda Podemos e Esquerda Unida - a convocar as manifestações e a demandar um referendo que permita aos cidadãos decidir pela monarquia ou pela república.

"É o momento de dar uma oportunidade ao país", disse o deputado Alberto Garzón.

Mesmo que estes grupos sejam minoritários do ponto de vista eleitoral, os resultados das últimas eleições europeias - em que pela primeira vez os dois maiores partidos não obtiveram mais de 50% dos votos - levaram analistas políticos a falar de um desgaste do bipartidarismo.

Na votação realizada em 25 de maio, os partidos que apóiam o sistema republicano obtiveram entre 20% e 25% dos votos, o dobro que obtiveram nas eleições gerais de 2011.

Neste sentido, um real debate sobre o futuro da monarquia talvez dependa de um aprofundamento deste desgaste do bipartidarismo e de um avanço dos partidos que defendem a bandeira da república nas próximas eleições gerais, em 2016.

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