OCDE aproveita Copa para promover 'PIB do bem-estar' no Brasil

  • 9 junho 2014
Evento da OCDE com Aldo Rebelo e Pelé (BBC Brasil) Image copyright BBC Brasil
Image caption Evento propôs reflexão sobre fatores considerados importantes para uma vida feliz

"Há mais coisas na vida do que futebol?" O slogan escolhido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para promover no Brasil seu índice de bem-estar e qualidade de vida, a poucos dias do início da Copa do Mundo, tinha como objetivo fazer os brasileiros pensarem sobre quais fatores consideram ser importantes para uma vida mais feliz e completa.

Mas em meio ao caos criado no trânsito de São Paulo pela greve do metrô, era difícil não pensar, durante o evento realizado para promover o indicador, na região da Avenida Paulista, que o futebol parece ainda não ser o centro das preocupações de muitos habitantes da cidade, apesar da proximidade do Mundial.

Participaram do evento, em um auditório da FGV, o ministro dos esportes, Aldo Rebelo, e o ex-jogador Pelé.

Na saída, Rebelo foi bombardeado com perguntas de jornalistas sobre a greve, mas evitou falar sobre qual seria o plano B para garantir transporte até o estádio Arena Corinthians, onde será realizado o jogo de abertura, nesta quinta-feira.

Os metroviários ameaçam parar todos os trens da cidade, inclusive os que vão para o estádio, caso o governo do Estado e o metrô não concordem com sua reivindicação de 12,2% de aumento salarial.

"Temos uma decisão da Justiça (que condenou a greve no domingo) e a tendência é que o trabalhador e o movimento sindical levem em conta essa decisão", disse Rebelo. "Não conheço aqui no Brasil uma greve que tenha persistido em desafiar uma decisão da Justiça."

Segundo Anthony Gooch, diretor de Comunicação da OCDE, divulgar a pesquisa às vésperas da Copa foi uma estratégia para aumentar seu impacto, já que nesse momento "a humanidade está olhando para o país".

Para ele, as greves e manifestações são um sinal de que "a sociedade civil" no Brasil está "descobrindo novos horizontes".

"Manifestações não são necessariamente algo negativo. Greves também são uma forma de as pessoas se expressarem, e elas se expressam mais quando a coisa vai melhor, em democracias mais maduras, porque acham que vale a pena sair às ruas", diz ele.

Indicador

O indicador da OCDE - chamado Índice para uma Vida Melhor - foi criado a partir da reflexão de que o PIB não pode ser a única forma de se medir o progresso de um país.

Ele começou a ser divulgado em 2011 e permite a comparação de dados de 34 países em 11 quesitos: moradia, renda, trabalho, comunidade, educação, meio ambiente, engajamento civil, saúde, satisfação de vida, segurança e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

O evento desta segunda-feira foi realizado para marcar o lançamento de uma ferramenta online em português que permita a qualquer um classificar esses 11 indicadores por ordem de importância - e em seguida comparar a posição do seu país em relação aos outros no índice que resulta dessa classificação.

Segundo Gooch, um dos seus objetivos é ajudar os formuladores de políticas públicas a identificar as prioridades da população e a buscar em outros lugares soluções para ampliar o bem-estar em seus países.

No caso dos indicadores para o Brasil, chama atenção o fato de os brasileiros declararem estar mais satisfeitos com sua vida do que a média da OCDE, apesar de os países do bloco terem indicadores muito mais positivos em áreas como educação, saúde e segurança.

No total, 80% dos brasileiros dizem ter mais experiências positivas em um dia normal do que negativas - sendo que a média da OCDE é de 76%.

Para Gooch, isso refletiria, primeiro, o fato de o Brasil ter feito grandes avanços na maior parte dos 11 quesitos nos últimos anos. Depois, também estaria ligado a fatores que não dependem tanto de políticas públicas, mas contribuiriam para tornar os brasileiros mais "felizes" - como a proximidade com amigos e família.

"Não é de hoje que as pesquisas têm registrado que o brasileiro é um povo que, mesmo em meio a dificuldades, ainda se mantém otimista e sustenta expectativas positivas em relação ao futuro - mas esse é um fenômeno que ainda precisa ser melhor estudado", opina Ruy Braga, sociólogo da USP.

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