Trincheira em Cuiabá no dia 28 de maio de 2014 | Foto: Camilla Costa/BBC Brasil
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Ainda em obras, Cuiabá aposta em legado pós-Copa

A poucos dias da Copa do Mundo, o projeto ambicioso do governo do Mato Grosso para Cuiabá continua em construção. A preparação da capital, que sediará sua primeira partida - entre Chile e Austrália - no dia 13 de junho, foi marcada por atrasos e problemas nos projetos das obras.

Agora, o governo estadual e a prefeitura correm para conseguir entregar, pelo menos parcialmente, algumas das obras essenciais e intervenções de emergência que permitam o trânsito dos visitantes em meio aos canteiros de trabalho.

Apenas cerca de 35% das 56 obras do pacote de mobilidade urbana prometido pelo governo estadual foram concluídas até a última sexta-feira, segundo a Secretaria Extraordinária da Copa (Secopa) do Mato Grosso.

Em meio à corrida para entregar obras essenciais e diminuir o transtorno causado pelas cerca de 30 frentes de trabalho ainda abertas na cidade, o secretário da Secopa, Maurício Guimarães, afirma que todas as construções restantes serão finalizadas até o dia 31 de dezembro deste ano, quando termina o mandato do governo estadual.

"Sem dúvida são muitas obras, mas foi o momento de conseguir recursos para fazê-las", disse Guimarães, por e-mail, à BBC Brasil.

"Tivemos dificuldades que trouxeram atrasos, como mão de obra, ajustes de projetos, foi a primeira vez que passamos por um processo de desapropriação tão grande. Mas superamos esses problemas. Não iremos parar. As obras continuam e terminam até o final do ano."

Especialistas, no entanto, criticam o que dizem ser falta de planejamento e problemas na gestão das obras.

"Lá em novembro, quando fizemos os relatórios (da vistoria de algumas obras) que foram entregues em janeiro, nós já identificávamos que muitas das obras não iam ficar prontas", disse à BBC Brasil André Schuring, coordenador da câmara de engenharia civil do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) do Mato Grosso.

"Não adianta dizer que vai ficar pronto no final de dezembro, porque engenharia não é desejo. Se continuar neste ritmo, não vai", afirmou.

Desvios

A situação do aeroporto internacional Marechal Rondon, em Várzea Grande (cidade da região metropolitana de Cuiabá) é sintomática dos problemas enfrentados pela capital mato-grossense nos últimos anos. As obras de ampliação, que eram conduzidas pela Infraero, foram assumidas pelo governo estadual em 2011, sob a promessa de serem concluídas até a Copa, mas ainda estão em curso.

Na última semana, foram abertos os novos terminais de embarque e desembarque, que estão em fase de testes, mas a chegada à cidade ainda é marcada pelo barulho de operários trabalhando nas instalações internas do local.

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Image caption Obras da Copa em Cuiabá foram marcadas por atrasos e críticas de especialistas

Ao sair do aeroporto, os transtornos causados pelo trecho inicial da obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) na estrada que leva a Cuiabá também serão difíceis de contornar ou esconder. Para desviar do canteiro de obras, os motoristas precisam passar por dentro de bairros carentes de Várzea Grande e enfrentar engarrafamentos maiores do que o habitual nos horários de pico.

A obra do VLT atravessa algumas das principais avenidas da cidade. Nestes trechos, assim como nas demais obras em andamento, a prioridade agora é liberar vias de trânsito que foram obstruídas pelas escavações, encobrir trechos mais expostos das obras e replantar canteiros destruídos.

O VLT, que custará R$ 1,4 bilhão ao Estado, causou polêmica entre engenheiros e especialistas. O Ministério Público do Mato Grosso chegou a contestar judicialmente a escolha do modal em detrimento do BRT (sistema de ônibus rápidos), mas perdeu o recurso.

"Nós já havíamos feito um levantamento com técnicos de que essa obra não ficaria pronta para a Copa do Mundo. Isso era claro desde o início. E também questionávamos o volume de recursos que seriam aplicados nessa obra", disse o promotor de Justiça Carlos Eduardo Silva, membro do grupo de fiscalização das obras da Copa do Ministério Público do Mato Grosso, à BBC Brasil.

Dos 22 km de trilhos que deverão estar distribuídos pela cidade, apenas 300 metros foram implantados até o momento. O secretário da Secopa, Mauricio Guimarães, garante que o VLT será concluído no dia 31 de dezembro, quando termina o mandato do governo atual, assim como todas as outras obras.

"Ele (o VLT) não entrará em operação logo em seguida, porque há o período de testes, quando os trens andam sem usuários. Estão previstos entre 60 e 90 dias antes que seja utilizado de forma plena. Ou seja, no primeiro semestre do ano que vem esse novo modal das cidades de Cuiabá e Várzea Grande estará funcionando", disse Guimarães.

Projetos básicos

A trincheira Santa Rosa, em frente ao hotel onde a delegação da Fifa se hospedará na cidade, começou ainda em 2012, mas "surpresas" durante a execução da obra causaram atrasos. Durante as escavações, foi encontrada uma adutora de água de responsabilidade da CAB Cuiabá. A tubulação não estava discriminada no projeto inicial e teve que ser removida.

Segundo o promotor Carlos Eduardo Silva, problemas como este foram comuns nos projetos utilizados para a maioria das obras.

"A Secopa tentou aproveitar alguns projetos, alguns planos urbanísticos já existentes no planejamento do município de Cuiabá, como no caso das trincheiras em avenidas, mas esses projetos eram inconsistentes, não eram projetos bem acabados", afirma.

"Isso foi um problema sério e denota uma falta de planejamento. Mas durante a execução das obras houve problemas de gestão também. Eram muitas obras e houve um certo atropelo no acompanhamento delas."

A Secopa reconhece que algumas das obras foram licitadas ainda como projetos básicos e que isso atrapalhou o cumprimento dos cronogramas de trabalho. No entanto, o secretário Mauricio Guimarães afirma ter "orgulho" de um trabalho que pretende "recuperar 30 anos sem investimentos" com a ajuda do Mundial.

"Com certeza tivemos erros e acertos durante o processo. Mas uma coisa ficará. Cuiabá e o Estado de Mato Grosso estão prontos para sediar grandes eventos mundiais. Estamos dentro desse mapa de grandes eventos a partir de agora", afirmou.

Durante os jogos da primeira fase em Cuiabá, as obras serão interrompidas e devem ser retomadas a partir do dia 25 de junho.