Como o Timor Leste virou recordista mundial de homens fumantes

  • 8 junho 2014
Timor Leste (GETTY) Image copyright Getty
Image caption Fumo entre os mais jovens vem aumentando ano a ano no país, dizem especialistas

Quase dois terços dos homens de Timor Leste são viciados em cigarros - uma das mais altas taxas de fumantes do mundo.

Mas como essa nação pobre no sudeste asiático chegou a esse ponto?

O tabaco é hoje parte da estrutura social do Timor Leste. Tanto que, caminhando por ruelas escuras em torno de um mercado, respira-se um ar doce vindo do produto à venda nas barracas, ao lado de pilhas de tomates, abóboras e feijão.

Um maço de cigarro custa menos que US$ 1. Eles ficam amontoados sob guarda-sóis que estampam o nome de marcas, como LA e Vinte e Tres.

Todos contêm advertências sobre os efeitos para a saúde, mas ela têm pouco significado na prática para os fumantes – cerca de metade da população não sabe ler.

Na capital Dili, o icônico caubói do Marlboro ainda cavalga nos pôsters acima das lojas, apesar de já ter descido do cavalo na maioria dos outros países, onde os anúncios foram proibidos ou restringidos.

Problema sério

Image caption No Timor Leste, é comum ver propagandas tabagistas proibidas em outros países

Segundo dados da publicação científica Journal of the American Medical Association, 33% da população do Timor Leste fuma todos os dias. Entre os homens, a taxa é de 61% - a mais alta do mundo.

"A cada ano, os jovens estão fumando mais, especialmente os meninos," diz o Dr Jorge Luna, representante local da Organização Mundial de Saúde. "É um problema muito sério."

O consumo que aumenta especialmente entre os jovens que compram cigarros avulsos.

"Um cigarro custa $ 10 centavos. Se você comprar dois, sai por 20 centavos. Se forem quatro, paga-se 25 centavos", diz Luna.

O tabaco cultivado por pequenos agricultores para cigarros de enrolar (fumo de rolo) é ainda mais barato do que as marcas famosas, muitas vezes importadas do país vizinho, a Indonésia.

Nas escolas

As escolas de Timor Leste não adotam nenhuma política de saúde para combater o tabagismo. "Testemunhei professores que fumando enquanto ensinavam", conta Luc Sabot, diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Socorro do Timor Leste.

"O sistema escolar não tem nenhuma regulamentação sobre o consumo de tabaco nas escolas."

Perto de uma escola, vejo um homem jovem, cigarro na mão, montado em uma moto com a marca da Marlboro, conversando casualmente com uma jovem.

A cena se assemelha à uma polêmica propaganda da marca Vinte e Tres que foi ao ar no ano passado e mostrando um belo jovem, vestido de preto, em uma moto.

O slogan dizia "Orgulhoso de si mesmo". Inicialmente, o pôster não continha nenhum alerta sobre os problemas de saúde relacionados ao fumo.

Após ONGs protestarem, eles foram tirados de circulação - e depois voltaram com um pequeno alerta. Mas, depois que a campanha chegou ao fim, eles foram usados como coberturas de barracos.

Permitido fumar

Em todo o país, fumar é permitido em qualquer parte. A atmosfera em bares, restaurantes, hoteis, cafés está invariavelmente carregada de fumaça.

Há apenas uma exceção: um shopping novinho em folha cujo proprietário é um ferrenho anti-tabagista.

Até mesmo o primeiro-ministro é um fumante inveterado. Xanana Gusmão foi um dos líderes da guerrilha que lutou contra a Indonésia após o país ter anexado o Timor, em 1975, e antes de se tornar independente, em 2002

Image caption Polêmica propaganda de marca de cigarro com slogan 'Orgulho de si mesmo' foi banida

Ele foi capturado e sentenciado à prisão perpétua, mas foi libertado pouco antes da independência.

Xanana costuma dizer que o cigarro ajudou a ele e a seus companheiros na luta quando eles decidiram combater em meio a florestas. Ele afirma que receber uma bala indonésia era bem mais arriscado do que fumar.

Xanana admite ser viciado e diz ter tentado parar de fumar três vezes. Quando questionado quanto a banir a propaganda de cigarros, ele repete o discurso da indústria tabagista.

"Banir isso ou aquilo não terá efeito. É necessário educar. Isso leva tempo, mas acredito que, quanto mais pessoas estiverem cientes das doenças que o fumo pode causar, mais gente será capaz de parar por conta própria."

Jovens na mira

Mas a primeira-dama Kirsty Sword Gusmao, que é australiana, está comprometida com a campanha anti-câncer.

Ela teve câncer de mama, e está preocupada com o aumento de fumantes entre os mais jovens.

"Empresas de tabaco na Indonésia e em outras partes do mundo miram em pessoas muitos jovens, que se preocupam com suas imagens corporais e querem parecer decoladas", ela diz.

Alguns, Kirsty afirma, começam a fumar com 10 ou 11 anos de idade.

No entanto, a indústria tabagista nega veementemente fazer propaganda para crianças.

Por enquanto, os hospitais do Timor Leste não estão lotados com pacientes que sofrem de doenças relacionadas ao fumo já que os mais jovens ainda não fumam a tempo suficiente para desenvolvê-las.

Atualmente, o maior motivo de mortes é a tuberculose, mas Dan Murphy, um canadense que gerencia um hospital local em Dili há 20 anos, está preocupado com o futuro.

Cerca de 80% dos fumantes do mundo morem em países em desenvolvimento e "os jovens estão aprendendo que precisam fumar para serem como os cidadãos de países ocidentais mais desenvolvidos".

"Temos de mudar sua forma de pensar e passar a nos preocupar com o amanhã. Tenho medo que seja necessário passar por esta fase e aprender uma dura lição."

Ele não está convencido de que o governo lida seriamente com o problema - o lobby do tabaco, diz Murphy, é poderoso.

"Eles fazem parecer que fumar é prazeroso, algo que torna sua vida melhor, dá significado a ela. Lutamos contra uma máquina de propaganda. Essa é uma batalha dura."

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