Temendo ação solitária, governo terá 1,8 mil agentes contra terror na Copa

Militares em estado de alerta para a Copa do Mundo (foto: Tereza Sobreira/Ministério da Defesa 08/06/2014) Direito de imagem Tereza Sobreira I Ministerio da Defesa
Image caption Forças especiais do Exército, da Marinha e da Polícia Federal formam unidade contraterrorista do Brasil

Um eventual atentado provocado por um ou mais extremistas não ligados a organizações conhecidas é a principal preocupação do governo brasileiro em termos de prevenção ao terrorismo durante a Copa do Mundo.

As estratégias de defesa se baseiam principalmente em ações de inteligência envolvendo agências internacionais e uma força especial de reação composta por 1.850 agentes, entre militares e policiais, e 36 helicópteros.

O esquema, porém é de caráter preventivo, segundo disse à BBC Brasil o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

"Eu não creio que o Brasil seja alvo de nenhuma ação extremista. Em primeiro lugar, nós não temos um histórico de atos terroristas no Brasil, nunca tivemos".

"Em segundo lugar, nossos serviços de inteligência nunca detectaram núcleos ou situações que pudessem efetivamente representar um tipo de risco nessa área (do terrorismo)".

Porém, segundo ele, o país está preparado para lidar com qualquer "eventualidade".

Cenários

De acordo com o general de brigada Julio César de Arruda, responsável pela força-tarefa contraterrorista que atuará no mundial, diversos cenários hipotéticos de ataques foram traçados. "O pior deles é uma bomba suja, uma bomba associada a substância química, biológica ou radioativa”, afirmou.

Para lidar com ele, o Exército comprou equipamentos modernos e formou uma força de 750 homens especializada em atender e descontaminar vítimas afetadas pelo eventual atentado. Essa força pôde ser vista com certa frequência nos últimos meses em trajes que lembram filmes de ficção científica treinando próximo a estádios que receberão jogos do mundial.

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Image caption Eventual ataque com "bomba suja" é cenário mais perigoso durante a Copa, segundo militares

Segundo Arruda, integrantes dessa unidade – conhecida no meio militar pela sigla DQBN (Defesa Química, Biológica e Nuclear) – treinaram com órgãos internacionais para se preparar para a Copa, incluindo o MI5, o serviço de segurança doméstico da Grã-Bretanha.

Contudo, um ataque dessa natureza não é o mais provável dos cenários envolvendo atentados extremistas no Brasil na Copa, diz o general.

Uma ameaça um pouco mais plausível seria um ataque a bomba convencional cometido por um "lobo solitário" – um extremista ou um pequeno grupo não ligado a grandes organizações terroristas e interessado na visibilidade mundial de um eventual atentado no Brasil durante a Copa do Mundo.

A tática do "lobo solitário" se tornou uma preocupação global no meio da segurança após o atentado contra a Maratona de Boston, em abril de 2013. Na ocasião, dois extremistas independentes detonaram duas bombas que mataram três pessoas e feriram 260.

"Esse tipo de ação é o maior perigo atualmente. Os lobos solitários são difíceis de rastrear e capturar em qualquer lugar do mundo porque eles não têm ligação com ninguém. Pode ser alguém que pega uma arma e vai causar uma catástrofe em um estádio", observa o especialista em segurança Hugo Tisaka, da consultoria NSA Brasil.

Tanto o consultor como o general afirmaram que uma das formas mais eficazes de impedir as ações de lobos solitários é contar com o apoio de toda a população para identificar ameaças. Ou seja, criar a cultura nos cidadãos e servidores de reportar aos órgãos adequados quando notarem objetos ou comportamentos suspeitos.

Segundo Arruda, já foram realizadas diversas palestras com os membros das diferentes forças de segurança que atuarão no evento com o intuito de criar essa cultura em todos os servidores.

Mas, segundo Tisaka, esse comportamento ainda não foi incorporado pela população em geral. "Normalmente quando percebem algo suspeito as pessoas se afastam e não fazem nada".

Prevenção e reação

De acordo com o general, o foco do governo no combate a eventuais ações terroristas está na tentativa de prevenção. Estão envolvidas especificamente na força-tarefa encarregada do setor o Departamento de Contra Terrorismo da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o Departamento Antiterrorismo da Polícia Federal e a Brigada de Operações Especiais do Exército.

Esses órgãos são alimentados com informações de agências de inteligência internacionais - de acordo com o ministro Cardozo, o Brasil está em contato constante com agências de inteligência de cerca de 25 países – e também por órgãos das polícias e dos sistemas penitenciários estaduais.

"Mas na minha opinião ainda não existe uma integração do nível desejado entre todos esses grupos de inteligência", afirmou Tisaka. Segundo ele, a cultura de compartilhamento de informações de inteligência existe, mas não está completamente disseminada entre todos os órgãos, o que resultaria no isolamento de determinados dados que podem ser importantes em ações de prevenção.

Por outro lado, segundo ele, em termos táticos de reação a ameaças, o Brasil está bem integrado. O governo chegou a criar até centros integrados de comando das forças de segurança em todas das 12 cidades sede da Copa para lidar com a maioria das situações de segurança pública e defesa civil.

Mas a reação armada a ações extremistas ficará a cargo de uma força de 1,1 mil policiais federais e militares de unidades especiais das Forças Armadas.

Entre essas unidades estão o Comando de Operações Táticas, da Polícia Federal, a Brigada de Operações Especiais, uma das quatro principais forças de elite do Exército, os MEC (Mergulhadores de Combate, semelhantes aos Seals americanos) e os fuzileiros do Batalhão Tonelero – a elite da Marinha.

Segundo Arruda, essa força tarefa terá cerca de 250 policiais locais à sua disposição em cada uma das doze cidades sede. Mas a força especial em si ficará baseada no Rio de Janeiro, em São Paulo e Brasília. Ela terá capacidade para se deslocar em aeronaves rapidamente para as demais cidades.

Esse efetivo, somado aos 750 homens da unidade de Defesa Química, Biológica e Nuclear, fará a segurança de delegações internacionais em hotéis, centros de treinamento, estádios e nos itinerários de deslocamento de jogadores e autoridades.

De acordo com Arruda, em uma situação extrema, a força contraterrorista pode até ser usada em distúrbios da ordem provocados por manifestações.

Ele disse ainda que há ainda planos de emergência envolvendo os serviços de saúde para atender vítimas de eventual atentado ou catástrofe ocorridos na Copa do Mundo.

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