Com Copa no Brasil, futebol conquista EUA e movimenta milhões

  • 16 junho 2014
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Torcedores dos EUA na Arena das Dunas, em Natal | Crédito: Getty Image copyright Getty
Image caption Americanos foram os maiores compradores de ingressos para a Copa fora do Brasil

Os Estados Unidos fazem sua estreia na Copa do Mundo nesta segunda-feira contra Gana, às 19h de Brasília, mas desde a semana passada um grupo de torcedores tem razões de sobra para comemorar. São os empresários de futebol.

O esporte, que sempre permaneceu à sombra de outros, como o beisebol, o basquete ou o futebol americano, dá sinais de que conquistou o coração dos americanos – e os bolsos dos cartolas.

Na última sexta-feira, a rede de TV americana ESPN revelou que os índices de audiência para a partida entre Brasil e Croácia foram os melhores da história do país para um jogo de abertura da Copa do Mundo, e aumentaram em 52% frente ao mesmo período do ano passado.

A paixão dos americanos pelo futebol não é só comprovada pelo número de televisores ligados. Os Estados Unidos são o segundo país do mundo que mais comprou ingressos para o Mundial no Brasil.

Cerca de 150 mil ingressos foram vendidos no total, mais do que Inglaterra, França e Alemanha juntos, informou a liga professional americana, a MLS (Major League Soccer, na sigla em inglês) à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

O número de pagantes é maior inclusive do que na última Copa do Mundo, realizada na África do Sul, quando os americanos nem chegaram a figurar na lista dos dez países que mais compraram entradas, segundo informações da Viagogo, empresa que comercializa ingressos na Internet.

Dança dos milhões

No entanto, essa cifra é minúscula se comparada ao que as grandes redes de TV estão pagando pelos direitos de transmissão da Copa do Mundo.

A ESPN pagou cerca de US$ 100 milhões (R$ 220 milhões) pela retransmissão em inglês das Copas de 2010 e 2014 nos Estados Unidos, enquanto que o canal em espanhol Univisión, voltado para a comunidade hispânica, desembolsou US$ 325 milhões (R$ 726 milhões) pela exclusividade das imagens Mundial em espanhol, revelou a revista Forbes.

Trata-se de um crescimento considerável frente aos US$ 22 milhões (R$ 49 milhõe) que a ESPN pagou pelos direitos do Mundial da França em 1998, o primeiro transmitido em sua totalidade em território americano. E muito menos do que os US$ 425 milhões (R$ 950 milhões) que a Fox pagará pelo direito de transmitir os torneios de 2018 e 2022.

Mas em que se baseia a ‘dança dos milhões’? Para analistas, a quantidade de dinheiro envolvida na Copa do Mundo deste ano revela que o esporte deixou de ser uma mera curiosidade nos Estados Unidos para se tornar parte integrante de sua cultura esportiva, talvez uma das mais exuberantes do mundo.

As evidências estão por todos os lados. Em Doral, uma região residencial de Miami, crianças venezuelanas, colombianas, e argentinas se reúnem à frente de lojas e supermercados para trocar figurinhas do álbum do Mundial. Mas muitos poderiam argumentar que a febre da Copa do Mundo é apenas um reflexo da população cosmopolita do lugar.

O fenômeno é mais surpreendente em Jacksonville, cidade também da Flórida, em uma área mais conservadora e menos aberta à influência estrangeira do país. No dia 7 de junho, 52.033 pessoas lotaram o estádio de Everbank para ver a seleção americana jogar um amistoso contra a Nigéria.

Horário nobre

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Image caption Horário dos jogos vêm ajudando a incrementar audiência e arrebanhar novos espectadores

Os horários dos jogos também vêm ajudando a incrementar os índices de audiência e arrebanhar novos espectadores.

Pela primeira vez em 20 anos (a última vez foi em 1994, nos Estados Unidos), o Mundial acontece no Hemisfério Ocidental e as partidas são realizadas no horário nobre das TVs americanas.

Por causa disso, não surpreende que as principais emissoras do país tenham investido fortemente na cobertura da Copa do Mundo deste ano. Como lembra o jornal Miami Herald, há apenas oito anos, em 2006, a ESPN designou como seu principal comentarista um narrador de partidas de beisebol. Hoje, não poderia se dar o mesmo luxo.

Com uma audiência que deve superar amplamente os 110 milhões de espectadores, as grandes empresas de mídia também buscam satisfazer os fãs cada vez mais conhecedores das minúcias deste esporte. Ao todo, 22 jogadores da liga profissional do país participam da Copa do Mundo.

Futuro

Mas a batalha pela paixão pelo futebol está ganha neste país? Não totalmente, dizem os especialistas.

Um exemplo: a decisão de última hora do técnico americano Jurgen Klinsmann de excluir a estrela da equipe, Landon Donovan, baseando-se em seu baixo rendimento. Basta imaginar o cataclismo que seria causado na Argentina se Alejandro Sabella anunciasse no último momento que Messi não iria ao mundial. Ou que Luiz Felipe Scolari dissesse que Neymar não vestiria a camisa da seleção brasileira. Nos Estados Unidos, o corte de Donovan gerou polêmica.

Mas a liga profissional americana está otimista sobre o impacto que a Copa de 2014 terá sobre o futebol do país. A audiência para o mundial nos Estados Unidos hoje é "muito social, muito digital", disse a porta-voz da MLS Marisabel Muñoz.

"Em 2014, o papel das redes sociais mudou as regras do jogo, para o bem. Há mais pessoas acompanhando as partidas durante o dia, em seus trabalhos, acompanhando o futebol", afirma.

Para alguns, o caminho para o atual florescimento do futebol dos Estados Unidos começou em 1994, durante o Mundial que teve lugar neste país.

Um investimento que 20 anos depois não deixa de render frutos, para a felicidade dos empresários e dos apaixonados por futebol.