"Simpáticos e carismáticos", alemães ganham jogo e público na Bahia

Muller comemora terceiro gol (Reuters) Direito de imagem REUTERS
Image caption Após os três gols em cima de Portugal, Muller é o atacante da Copa

"Sorria, você está na Bahia". A frase, tão conhecida por todos no Brasil, representa muito mais do que uma "dica", é um convite, um lema do Estado. Pois foi na Bahia que aconteceram, por enquanto, as duas goleadas mais marcantes da Copa do Mundo, que arrancaram sorrisos de todos, exceto os derrotados.

Curiosamente, os alemães e holandeses, norte europeus, "sisudos" na visão de alguns, atropelaram portugueses e espanhóis, ibéricos, "sangue latino". Jogadores alemães e holandeses foram os que mais sorriram até agora não só dentro de campo, mas também fora, adotando uma postura de interação com o público brasileiro.

A Alemanha revolucionou a pequena vila de Santo André, em Santa Cruz Cabrália, no litoral sul da Bahia. A construção do campo de treinamento e a própria locomoção dos alemães pela região causaram transtornos aos moradores - que os jogadores tentam compensar criando uma relação próxima com os locais. A Federação Alemã realiza ações sociais que deixarão um legado importante para a comunidade, o time já recebeu visita de índios pataxós, dançou o lepo lepo com moradores e um vídeo mostrou o goleiro Neuer e o meia Schweinteiger entoando o famoso "Bora Bahêa" junto com torcedores do Bahia.

"O baiano presta muita atenção no que faz o estrangeiro que vem para cá. Nós assistimos na televisão a simpatia deles com a classe baixa, os alemães estão fazendo muita coisa por lá, estão mostrando muito carisma. Portugal fez o quê? Chegou aqui e foi para o hotel. Eu estou com a humildade, vou torcer pela humildade. Estamos divididos por aqui e eu acho que a favela está com a Alemanha", comentou o pescador Ricardo Mário, em frente à Fonte Nova, na noite anterior ao jogo.

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Image caption O atacante Lukas Podolski postou uma selfie com a premiê Angela Merkel dentro do vestiário do time

De fato, o que se viu ao longo da partida desta segunda-feira foi um público dividido, quase neutro. A tática evitou que a Alemanha jogasse fora de casa contra Portugal, uma seleção com afinidade histórica com o Brasil e o time de Cristiano Ronaldo, idolatrado no mundo todo. "É importante ter as pessoas junto com você. A maioria dos torcedores estavam conosco hoje e isso é muito legal. Nós sentimos o apoio de todos, as pessoas estão felizes, são amigáveis", comentou o atacante Lukas Podolski, que após a partida postou uma selfie com a premiê Angela Merkel dentro do vestiário do time.

"Lá no Campo Bahia estamos tentando deixar as pessoas felizes. Elas são muito amigáveis, sorriem muito e queremos retribuir. Estamos felizes e nos divertindo, até dançando com eles", contou Thomas Muller, atacante da Copa do Mundo após os três gols marcados em cima de Portugal.

O goleiro Manuel Neuer, um dos protagonistas do "Bora Bahêa" que viralizou nas redes sociais, voltou a lembrar do amigo Dante, companheiro de Bayern de Munique. "Dante é um grande amigo e estamos felizes de jogar na cidade dele. A Bahia é linda, é muito legal encontrar as pessoas daqui, do interior do Estado. Vou escrever para ele agora", disse. Questionado sobre os repórteres sobre qual seria o teor da mensagem, Neuer apenas sorriu: "Top secret". Segredo.

Quem não faz segredo é a Holanda, que saiu da Bahia feliz e relaxada pelos 5 a 1 em cima da Espanha, na última sexta-feira. O hotel escolhido pela equipe já deixa claro que não há nenhuma intenção de se esconder do público: a concentração é em plena praia de Ipanema, rota óbvia do turismo no Rio de Janeiro.

Além disso, o jornal holandês De Telegraaf informou na semana passada que o trio Kuyt, De Jong e Sneijder se empolgou na balada na noite da última segunda-feira e chegou no hotel apenas às 11h de terça. A interação com a população local rendeu até um pequeno acidente: durante uma folga na praia, Van Persie e Janmaat foram atingidos por um kitesurfista.

Após a goleada, o técnico Louis Van Gaal disse que um dos motivos da boa atuação era a presença de esposas, namoradas e filhos dos atletas na véspera. "Acredito que isso torna os jogadores mais felizes".

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Image caption Alemães fizeram camisetas com os nomes "abrasileirados", finalizados em "inho"

Ao longo do fim de semana em Salvador, dias posteriores à goleada holandesa e prévios à alemã, turistas com as camisas dos dois países circulavam pela cidade sem incidentes. As duas bandeiras eram as mais vistas nas sacadas em torno do Pelourinho, principal ponto turístico da cidade. Apesar de dificuldades com o idioma em áreas de serviço, a reportagem da BBC Brasil não presenciou nenhuma reclamação. "Estamos nos sentindo muito bem aqui. Já nos sentimos locais", brincou Hans Gescher. Ele e outros amigos de Hamburgo fizeram camisetas com os próprios nomes "abrasileirados", sempre finalizados em "inho". Gerscher virou Gerscherminho. E assim por diante.

Antes do início do Mundial, alguns especialistas consideravam que a Alemanha e a Holanda estavam "relaxadas demais" no período de treinamentos no Brasil. Pelo menos na Bahia, as duas seleções mostraram que a tática, a mesma adotada por seus torcedores, vai dando certo.

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