Balanço da Copa: bom futebol e 'fantastic people' contrastam com falhas nas arenas

  • 17 junho 2014
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fila no estádio de Brasília | AP Image copyright AP
Image caption Enormes filas se formaram em frente ao estádio Mané Garrinha, no final de semana

Nem tanto ao céu, como os organizadores esperavam, nem tanto ao inferno, como muitos pessimistas previam. A Copa do Mundo do Brasil começou com um certo ceticismo por parte da mídia nacional e internacional, principalmente por conta dos atrasos nas preparações e da iminência de greves e protestos. Cinco dias após o início da competição, a primeira rodada fluiu com alguns problemas de organização, mas sem que o maior espetáculo do futebol fosse afetado.

Com todos os estádios "estreados", já foi possível perceber algumas dificuldades em comum. A primeira delas sendo um velho problema brasileiro, principalmente em lugares com uma grande concentração de pessoas: a internet e o sinal de 3G. Antes da Copa, o "padrão" nas arquibancadas do Brasil era não se conseguir utilizar o 3G pela maior parte em que elas estavam povoadas. Durante o Mundial, a melhora foi nítida, e os torcedores até têm conseguido mandar as famosas selfies para as redes sociais - mas a instabilidade do sinal ainda é notável.

Para os jornalistas, em algumas arenas, a conexão wifi já tem sido suficiente para trabalhar. Nas em que o sinal de internet sem fio era instável, restou apelar para a rede cabeada, que tem funcionado muito bem nos 12 estádios, segundo apurou a BBC Brasil.

O segundo grande desafio desta Copa do Mundo no Brasil tem sido enfrentar o trânsito em algumas das cidades-sede. Em capitais onde o congestionamento já é frequente, como Salvador e Manaus, por exemplo, os dias de jogos foram um pouco caóticos, e os torcedores que tentavam ir de carro à Fonte Nova e à Arena Amazônia, respectivamente, sentiram na pele os problemas de mobilidade urbana das duas cidades.

Já dentro do estádio, a grande reclamação é com relação aos voluntários. Todos muito elogiados pela educação e prestatividade, mas criticados principalmente por não saberem passar informações básicas - localização de banheiros, bares, assentos, etc. Se a pergunta vem em inglês, é ainda mais difícil conseguir uma resposta - os voluntários bilíngues ainda são uma raridade nas arenas.

Alguns desses problemas são explicados pela demora na entrega dos estádios. Segundo a Fifa, em coletiva de imprensa realizada um dia depois da abertura do Mundial, a entidade está preparada para lidar com esses desafios, que tendem a ser maiores nos estádios que estão sendo utilizados para valer pela primeira vez durante a Copa - as seis arenas já testadas na Copa das Confederações já não teriam os mesmos problemas.

Protestos

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Image caption Protesto teve alguns confrontos com a polícia em São Paulo no dia da abertura

Os incidentes mais preocupantes mesmo neste início de Copa dizem respeito aos enfrentamentos entre manifestantes e policiais, que têm aplicado mão dura contra os protestos - apesar de estarem ocorrendo em números bem menores do que os de junho do ano passado. No primeiro deles durante o Mundial, na manhã da abertura do torneio, em São Paulo, duas jornalistas da CNN foram feridas pelo estilhaço de uma bomba de efeito moral disparada pela polícia militar. A manifestação tinha pouco mais de 200 pessoas e ficou longe de se aproximar das dependências da Arena Corinthians, em Itaquera.

Em outra manifestação, desta vez no Rio de Janeiro, no último domingo, houve mais confronto entre manifestantes e PMs, que usaram bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar os cerca de 150 que estavam protestando nas ruas próximas ao Maracanã. O que mais chamou a atenção foi que um policial chegou a descer do carro e dar tiros para o alto com uma arma de fogo - ele estava passando pelo local quando viu a manifestação e decidiu agir.

Segundo a Polícia do Rio, o próprio oficial se apresentou voluntariamente admitindo o uso da arma e agora será aberta uma sindicância para determinar se houve irregularidade na situação.

O que deu errado

O grande teste brasileiro de organização nesta Copa começou no dia 12 de junho, com a abertura no estádio popularmente conhecido como Itaquerão, em São Paulo. Lá houve falha dos geradores de energia no primeiro tempo do jogo, mas nada que afetasse efetivamente o bom andamento do jogo. A grande reclamação ficou por conta da falta de comida nos restaurantes e bares.

Na sequência, o jogo em Natal entre México e Camarões: estava tudo pronto para o pontapé inicial, com exceção do próprio estádio, que finalizou seus 10 mil assentos temporários (arquibancadas móveis) em cima da hora, sem que os bombeiros conseguissem emitir o alvará que liberaria os lugares para serem utilizados. Segundo o COL (Comitê Organizador Local), 100 cadeiras acabaram interditadas por questões de segurança, e os torcedores tiveram que ser realocados.

Além disso, a chuva forte que castigou Natal nos últimos dias deixou a cidade em estado de calamidade pública e dificultou o acesso à arena - o próprio entorno dela ficou envolto em uma grande poça de água no primeiro jogo. Na última segunda-feira, porém, Gana e Estados Unidos jogaram por lá em condições climáticas bem mais favoráveis.

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Image caption Apesar de alguns problemas de organização, torcedores estrangeiros estão animados

Salvador recebeu dois dos melhores jogos de futebol da Copa até aqui: Espanha 1 x 5 Holanda e Alemanha 4 x 0 Portugal. O grande problema da cidade, no entanto, foi para chegar ao estádio. Sem feriados decretados, o trânsito de Salvador ficou caótico nos dias dos dois jogos e torcedores relataram que demoraram 1h30 para chegar do Rio Vermelho (região mais turística da cidade) até a Fonte Nova.

Outra cidade que sofreu com o trânsito foi Manaus, onde Itália e Inglaterra fizeram outro jogo de grande interesse no sábado. Uma das equipes da BBC que chegava para o jogo com três horas de antecedência, precisou desviar do caminho principal para a Arena da Amazônia, percorrendo 2 km em 40 minutos na tentativa de fugir do congestionamento. Houve muita gente que foi desistindo no caminho para ir a pé.

Em Brasília, o problema foi na logística da entrada do estádio. Muitas filas se acumularam na revista e na checagem dos ingressos e, faltando menos de 10 minutos para o início do jogo, o correspondente da BBC Brasil João Fellet relata que viu milhares de pessoas ainda esperando para entrar. Muitos deles só conseguiram se acomodar no Mané Garrincha quando o jogo entre Suíça e Equador já havia começado.

Os inconvenientes comuns a alguns dos estádios foram com relação à conexão de internet e ao serviço dos voluntários. No Maracanã (RJ), Mané Garrincha (DF), Itaquerão (SP) e Arena da Baixada (PR), houve reclamações quanto a oscilações do 3G e do wifi fornecido para a imprensa. Já em Recife, Manaus, Belo Horizonte e de novo São Paulo, houve críticas aos voluntários, por não saberem dar informações corretamente e/ou não falarem inglês.

A primeira grande "gafe" da Copa ficou para Porto Alegre. Uma falha técnica impediu a execução dos hinos de França e Honduras no Beira-Rio, e o secretário da Fifa, Jérôme Valcke, chegou a emitir um comunicado às federações dos dois países com um pedido de desculpas formal.

O melhor até agora

Image caption Povo de Manaus conquistou os ingleses e os italianos com ruas decoradas e muita festa

Se fora dos gramados ainda há problemas a serem resolvidos, dentro deles o espetáculo tem sido garantido. A primeira rodada da Copa do Mundo chega ao fim nesta terça-feira após jogos emocionantes, muitas goleadas e, por enquanto, somente um 0 a 0, entre Irã e Nigéria.

Com direito a uma goleada surpreendente de 5 a 1 da Holanda sobre a Espanha, na reedição da final do Mundial passado, e a um jogo de tirar o fôlego entre Itália e Inglaterra - com os italianos vencendo por 2 a 1 -, passando por uma vitória inesperada da Costa Rica por 3 a 1 sobre os bicampeões mundiais uruguaios e um resultado conquistado no último segundo do cronômetro pela Suíça contra o Equador (2 a 1) - já está se falando que a "Copa das Copas" prometida pelos governantes brasileiros está acontecendo mesmo dentro das quatro linhas.

Fora delas, a hospitalidade dos brasileiros tem garantido a satisfação dos turistas, que estão aproveitando para viver uma "grande festa" na Copa do Mundo no Brasil. A BBC Brasil conversou com croatas, ingleses, mexicanos, argentinos e tantos outros estrangeiros - quando perguntados se estavam gostando do Brasil, a respostas tinha sempre algo em comum: "Fantastic people" (povo fantástico).