Revolução em categorias de base explica 'geração de ouro' belga

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Image caption Equipe belga tem talentos internacionais e alguns apostam até em título inédito

O técnico belga, Marc Wilmots, gosta de brincar que aceitou o emprego em 2012 porque estava cansado de comentar a Copa do Mundo sem ter uma equipe por quem torcer.

Isto é passado em um país que assiste hoje a uma "geração de ouro".

A equipe que faz sua primeira partida da Copa contra a Argélia, nesta terça-feira – seu primeiro jogo em um Mundial em 12 anos –, é a favorita para liderar um grupo composto também por Rússia e Coreia do Sul.

Algumas casas de apostas registram inclusive palpites de que a Bélgica seja o azarão que levantará o troféu ao fim do torneio.

O renascimento do futebol belga é atribuído a vários fatores: pura sorte, um momento propício e imigração, para citar alguns.

Mas o ex-diretor técnico belga Michel Sablon disse à BBC que existem outras razões.

"Tive a ideia de mudar a forma como fazíamos tudo. Precisávamos recomeçar", disse Sablon à BBC. "No começo, não gostaram muito de mim, mas naquela época nem éramos mais lembrados como uma nação futebolística."

Sablon viu a primeira onda de brilho do futebol belga, nos anos 1980. Integrou a equipe técnica belga na era de Enzo Scifo, Franky Vercauteren e Jan Celeumans.

O grupo atingiu as semifinais de 1986, quando foi derrotado pela Argentina de Diego Maradona – campeã daquele ano.

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Image caption O ex-diretor técnico da Bélgica, Michael Sablon, que revolucionou o futebol de base belga

No mundial de 2002, a Bélgica alcançou as oitavas de final. Mas em 1998, na França, e na Eurocopa de 2000, quando foi país-sede, não passou da fase de grupos.

"As pessoas estavam começando a questionar o time", disse. "Depois da Eurocopa de 2000 veio um sentimento de vergonha."

Revolução de base

Foi em setembro de 2006 que Sablon começou a detalhar o plano que revolucionaria o futebol belga.

Inspirado por pesquisas de campo nos melhores centros de treinamento na França, Alemanha e Holanda, ele determinou que todas as equipes jovens no país jogassem um 4-3-3 fluido e flexível, que se adequava ao estilo da equipe nacional.

Essas equipes de base passaram a não se focar tanto em ganhar, e sim em desenvolver jogadores. Sablon inclusive fez questão de eliminar os campeonatos para crianças abaixo de sete e oito anos de idade.

Ele diz que "não foi fácil mandar as pessoas pararem de fazer o que vinham fazendo há anos".

"Fui atacado pessoalmente na imprensa e por muitos belgas", afirma.

Outra medida foi proibir jogadores que tivessem passado a outras categorias de base – por exemplo, sub-17 para sub-19 – voltassem à categoria inicial. Nem sequer para jogos importantes.

"Uma vez que eles tivessem dado esse passo adiante, achávamos que os jogadores tinham de melhorar no nível avançado, e não voltar atrás", explica Sablon.

'Qualquer coisa' possível

Então, em 2009, algo estranho aconteceu. Três anos depois da adoção do plano, os resultados das equipes nacionais de base começaram a melhorar.

As equipes sub-17 e sub-19, normalmente entre a 20ª e 30ª posição nos rankings, passaram a frequentar os dez primeiros lugares da tabela.

"Sabe por quê? Simplesmente por causa desse plano de desenvolvimento", defende Sablon. "Estávamos criando jogadores melhores. O objetivo não era subir nos rankings, mas o resultado de ter um sistema melhor levou inevitavelmente a isso."

Os jovens mais promissores treinavam juntos em oito escolas centralizadas e mantidas pelo governo. Os melhores treinavam com os melhores – e então voltavam para os seus clubes, disseminando as novas ideias.

O sistema produziu os atacantes do Nápoli, Dries Mertens, e do Zenit de São Petersburgo, Axel Witsel; o meio-campo do Tottenham Mousa Dembele e o goleiro do Liverpool, Simon Mignolet.

Mignolet disse que reunir todos estes jovens para jogar desde cedo foi muito importante. "Agora você olha para nosso time e tantos jogam nos grandes campeonatos e nos grandes clubes. Isto nos dá confiança de que podemos alcançar qualquer coisa."

Equipe de alto nível

A ascensão belga implicou a saída de muitos de seus jogadores para clubes de outros países. A equipe que entra em campo na Copa do Mundo inclui talentos como os atacantes Adnan Januzaj, do Manchester United, e Romelu Lukaku, do Chelsea.

Equipes inglesas e espanholas hoje em dia são mais abertas a dar oportunidades para jogadores belgas do que nunca, crê Mignolet.

O ex-técnico da Bélgica Georges Leekens, hoje no comando da Tunísia, acredita que um dos destaques do selecionado belga nesta Copa do Mundo será o meia do Chelsea Eden Hazard.

"Aos 19 anos, ele era o melhor jogador da França jogando pelo Lille. Mas eu achava que ele podia mais, muito mais. Fui muito duro com ele", disse o ex-técnico, que comandou a Bélgica entre 2010 e 2012.

"Agora ele tomou a responsabilidade e isto é talvez o mais importante. Ele é um grande jogador, um grande homem e um grande ser humano", afirma. "E pode fazer um grande diferença para a vitória no Brasil."

No papel, o time da Bélgica tem qualidade para competir com os melhores. Mas o desempenho da equipe em um campeonato do nível da Copa do Mundo continua sendo território desconhecido.

Marc Wilmots, o técnico atual, diz que está concentrado na fase de grupos. "Temos tudo a perder até o fim da primeira fase", afirma. "Depois, não temos nada a perder."

Wilmots não precisa mais assistir a Copas do Mundo sem a participação do seu país. A responsabilidade agora é outra: garantir que a geração de ouro do futebol belga realize todo o seu potencial.

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