Mafiosos italianos usam redes sociais para cometer crimes

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Image caption Domenico Palazzotto é preso em Palermo na 'operação Apocalipse'

Uma operação da polícia italiana na Sicília está trazendo à tona o uso das redes sociais por parte de facções criminosas.

A megaoperação Apocalipse, que prendeu 93 pessoas por associação criminosa, extorsão e lavagem de dinheiro em Palermo na segunda-feira, voltou a chamar atenção para atos ilegais realizados neste universo.

De acordo com os investigadores, os detidos fazem parte da máfia siciliana Cosa Nostra e teriam cometidor extorsões contra empresas de construção civil e estabelecimentos comerciais locais.

De acordo com o jornal Corriere della Sera, o suposto chefe do grupo, Gregorio Palazzotto, que estava preso há meses, mantinha uma conta no Facebook em conjunto com sua esposa, de onde mandava mensagens contra seus delatores.

"Não tenho medo das algemas, mas de quem, para abri-las, começa a cantar", escreveu Palazzotto, empregando o termo coloquial usado para se referir às revelações.

O detido também teria usado a sua conta no Facebook para reivindicar melhores condições nas prisões italianas.

Através de contas falsas no Facebook, ou até usando o nome verdadeiro, muitos suspeitos de crimes relacionados com a máfia - inclusive criminosos já condenados e foragidos -, se comunicam com amigos e parentes e terminam por serem descobertos.

"A atividade criminal na rede não é organizada. O que ocorre são ações individuais como fraudes, extorsões ou divulgação de mensagens racistas ou facistas", disse à BBC Brasil Alessandra Belardini, vice-superintendente da Polícia das Telecomunicações e Informática e diretora do Comissariado de Polícia Online.

Ainda assim, mesmo os criminosos mais atentos às vezes cometem erros que permitem a intervenção da polícia, disse ela.

"É como acontecia antigamente na Sicília, quando as investigações tradicionais eram realizadas principalmente durante o enterro de familiares de mafiosos, ocasião em que fugitivos compareciam sem tomar muito cuidado em se esconder."

Vaidade

Um destes deslizes foi noticiado pela imprensa italiana em 2011, quando um integrante da Camorra napolitana, considerado um dos foragidos mais perigosos, foi descoberto em Marbella, na Espanha, graças às fotografias publicadas por sua namorada no Facebook.

No mesmo ano, um líder da "Ndrangheta" calabresa que vivia na Suíça foi preso após ter comentado em sua página na rede social que participaria de um encontro de motoqueiros na Sardenha. A polícia prendeu o acusado no porto de Gênova, quando tentava embarcar para a ilha italiana.

Em 2012, um jovem da cidade de Castellammare di Stabia, suspeito de chefiar a máfia local, foi ferido a tiros por dois motoqueiros. Do hospital, depois de usar a rede social para tranquilizar amigos e parentes sobre seu estado de saúde, o jovem enviou mensagens a seus seguidores.

"Olho por olho, dente por dente. Jamais tenha piedade de quem te fez mal", escreveu em sua página no Facebook, repleta de imagens de metralhadoras, e recebendo centenas de "curtidas".

No ano seguinte, um mafioso da Cosa Nostra foi preso na Tailândia, após os investigadores terem acompanhado por meses as suas diferentes contas no Facebook, todas com nomes falsos.

Simpatizantes

Também não faltam na rede contas falsas de mafiosos italianos, seguidas por milhares de simpatizantes. Como as páginas com o nome de Salvatore "Totó" Riina, o corleonense chefe da Cosa Nostra preso em 1993 e condenado a 13 prisões perpétuas por 150 assassinatos, 40 deles executados pessoalmente.

Uma destas páginas conta com quase 30 mil "curtidas". Outros prisioneiros mundialmente famosos com páginas falsas e seguidores no Facebook são Bernardo Provenzano, Raffaele Cutolo e Matteo Messina Denaro.

De acordo com Belardini, a colaboração dos provedores e dos gestores das redes socias é positiva.

"As páginas com conteúdos racistas ou mensagens de apologia a crimes são removidas rapidamente. No caso de substituição de identidade ou criação de falsos perfis o procedimento é mais complexo, pois as investigações devem partir da denúncia dos interessados."

"Desde outubro do ano passado temos um serviço ativo 24 horas por dia, que recebe denúncias de abusos e de uso indevido de páginas e sites na internet", disse.

Segundo Belardini não é preciso demonizar o uso da rede, mas ensinar aos jovens a navegarem na internet de modo seguro.

"Com apoio de empresas como Facebook, Google, Youtube, Apple e Microsoft, entre outras, estamos realizando uma campanha itinerante que já percorreu escolas de 40 cidades italianas. Durante os encontros com estudantes, tratamos de temas como direitos de autor, violação de privacidade, divulgação de conteúdo inapropriado e comportamentos e perigosos para si e para os demais."

Como no mundo real, a prevenção é a melhor aliada contra o crime.

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