Jogo a jogo: o que esperar das oitavas

Thomas Muller comemora gol contra os Estados Unidos Direito de imagem Getty
Image caption A Alemanha do artilheiro Thomas Muller foi a última campeã a se classificar, vencendo os EUA

Restam apenas 16 seleções na disputa da Copa do Mundo de 2014, e o grupo das equipes que jogam a segunda fase a partir deste sábado conta com tradicionais favoritos, participações históricas de equipes da África e da Concacaf e uma combinação que já garante uma presença inédita nas quartas de final.

Entre os campeões mundiais, Brasil, Uruguai, França, Argentina e Alemanha seguem firmes após passarem pelos respectivos grupos e assistirem às quedas de Espanha, Inglaterra e Itália.

A queda do trio europeu colabora ainda com a forte presença da América entre os 16 finalistas: são oito ao todo, maior número desde que o formato de oitavas de final após a fase de grupos foi implantado, em 1986.

Do Uruguai aos Estados Unidos, as equipes do continente venceram diversos duelos contra europeus, como no próprio Grupo C, quando Costa Rica e os uruguaios passaram por Inglaterra e Itália; no A, com o México vencendo a Croácia; e no G, com os EUA tirando Portugal no saldo de gols.

Tal cenário fez com que, pela primeira vez, as oitavas de final de uma Copa não tivessem um confronto de duas equipes do Velho Continente. Além disso, é a maior presença de times das Américas do Norte e Central na história, três ao todo.

Entre os africanos, apesar das polêmicas fora de campo envolvendo Gana e Camarões, a Copa já é histórica. Nunca duas seleções do continente haviam chegado juntas às oitavas de final, e agora Nigéria e Argélia representam a região no grupo dos 16 primeiros.

Além disso, a combinação da tabela já garante, antes da bola rolar, um sul-americano nas semifinais, que sairá de um minitorneio local entre Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai. E um time inédito nas quartas de final, já que Costa Rica e Grécia se enfrentam por uma vaga entre os oito melhores, lugar onde nunca estiveram.

Veja os detalhes de cada um dos oito confrontos eliminatórios da segunda fase com análise de Julio Gomes, editor da BBC Brasil:

Brasil x Chile, sábado, 13h, Belo Horizonte

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Image caption A seleção brasileira coloca o favoritismo em campo diante do bom time chileno ao abrir as oitavas

Nas três vezes que encontrou o Chile em Copas do Mundo, o Brasil venceu as três. Mas, apesar do retrospecto favorável, o time nacional tem respeitado muito o caminho do rival até a segunda fase, quando se classificou por antecedência vencendo a atual campeã Espanha.

"Para mim não foi surpresa, eu já esperava", disse David Luiz após a vitória sobre Camarões. "Eles têm um time muito rápido e que já está experimentado internacionalmente", completou Fred.

Pelo lado chileno, o lateral Isla lembrou em coletiva o jogo que garantiu a vaga. "Vamos entrar como contra a Espanha, que era a melhor do mundo". O técnico Jorge Sampaoli deve ter o mesmo time que venceu os espanhóis, ainda que o zagueiro Medel e o meia Vidal estejam em tratamento específico por problemas físicos.

Análise do Julio Gomes: Jogo muito mais complicado para a seleção do que a história faz parecer. Felipão deve fazer mudanças no meio, com entradas de Fernandinho e, talvez, Ramires, porque sabe que não pode deixar o Chile dominar completamente as ações por ali. O Chile tem como característica tomar conta da bola, ditar o ritmo do jogo e acionar os atacantes, rápidos, na frente. Mesmo jogando em casa, é possível que o Brasil se veja longos períodos sendo dominado. A chave para a vitória é aproveitar as chances que aparecerem quando a transição rápida for feita, roubando a bola e acionando Neymar. Uma ótima arma é a bola aérea contra uma zaga baixinha e ruim.

Colômbia x Uruguai, sábado, 17h, Rio de Janeiro

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Image caption A seleção colombiana não só venceu os três jogos como dançou bastante: foram 9 gols na 1ª fase

A Colômbia voltou a disputar uma Copa do Mundo depois de 16 anos e não decepcionou, com três vitórias e nove gols em três jogos. Agora, está a um jogo de finalmente chegar às quartas de final, lugar onde jamais esteve.

O início de Copa foi tão favorável - vitórias sobre Grécia e Costa do Marfim -, que o técnico José Pekerman se deu ao luxo de poupar oito titulares no jogo contra o Japão. Ainda assim, houve uma goleada de 4 a 1.

Já o Uruguai, depois de buscar uma classificação incrível vencendo a dupla de campeões mundiais Inglaterra e Itália, sofreu um duro golpe a dois dias da partida: Luis Suárez, grande nome da equipe, está fora da Copa após morder o italiano Chiellini e ser punido pela Fifa com nove jogos de suspensão e quatro meses de banimento do futebol.

Análise do Julio Gomes: O efeito Suárez é a chave. Veremos um Uruguai despedaçado? Ou disposto a ganhar contra tudo e todos? Se a Colômbia, que tecnicamente é muito superior, encontrar um gol rápido, pode até golear. A chave para o Uruguai é carregar o 0 a 0 ao máximo, para enervar e trazer ansiedade a um time que é jovem e tem nas mãos uma chance única de fazer história.

Holanda x México, domingo, 13h, Fortaleza

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Image caption A Holanda, apesar do grupo complicado, avançou com nove pontos atropelando os atuais campeões

A Holanda jamais venceu uma Copa, mas de tempos em tempos impressiona ao chegar longe. Nesta edição, logo nos primeiros 90 minutos aplicou uma goleada por 5 a 1 sobre a Espanha e praticamente colocou um ponto final na era vitoriosa da Roja.

No último treino antes de viajar para Fortaleza, o técnico Louis Van Gaal demonstrou estar preocupado com a preparação física do elenco, poupando seis jogadores do treinamento, entre eles o motor do ataque, Robben.

Já os mexicanos, que têm como melhor colocação o fato de chegarem às quartas de final quando organizaram a Copa, em 1970 e 1986, somam cinco eliminações seguidas nas oitavas, de 1994 a 2010. "Temos confiança no que estamos fazendo coletiva e individualmente. Vamos para ganhar", afirmou o goleiro Ochoa, destaque do empate frente ao Brasil.

Análise do Julio Gomes: Se o México for inteligente, pode aprontar uma surpresa que poucos imaginam. A Holanda é um time de contra-ataque, que sofreu contra a pior de suas rivais, a Austrália. Se o México souber transferir para a Holanda a responsabilidade do jogo, pode complicar muito a seleção laranja. É marcar a bola longa para Robben, a grande arma rival, e aproveitar a torcida e o calor que estarão ao seu lado.

Costa Rica x Grécia, domingo, 17h, Recife

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Image caption A Costa Rica surpreendeu e saiu como líder isolada do difícil Grupo C, batendo Itália e Uruguai

O duelo menos estrelado das oitavas de final levará uma seleção de forma inédita às quartas de final da Copa.

Pelo lado da Costa Rica, o otimismo é total após uma das classificações mais surpreendentes da história das Copas, conquistada com uma rodada de antecipação depois de vencer Uruguai e Itália. "De todos, creio que era (a Grécia) quem a gente preferia enfrentar", afirmou Cristian Bolaños após a definição do rival.

Do lado grego, até o experiente meia Karagounis, que aos 37 anos é o jogador com mais partidas pela seleção, se mostrou ansioso pelo primeiro jogo da Grécia numa segunda fase de Copa.

"Não durmo direito antes de grandes jogos, e este é especial. Muitas seleções grandes estão fora, e a Grécia continua. Continua e pode continuar por mais tempo."

Análise do Julio Gomes: O jogo menos atraente de todos. A Costa Rica é um time técnico, intenso, mas não tem a competitividade da chatíssima Grécia. Os gregos não terão a menor vergonha em jogar para o rival a responsabilidade da vitória e podem se dar bem assim.

Nigéria x França, segunda, 13h, Brasília

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Image caption A França mostrou um ataque repleto de alternativas e marcou 8 gols nos dois primeiros jogos da Copa

A França atual nem de longe lembra a seleção de 2010, uma das mais tumultuadas da história, com jogador dispensado por ter xingado o treinador, greve do elenco em pleno treino aberto e briga entre preparador físico e atleta.

Pelo contrário, as duas vitórias nas duas primeiras rodadas, quando chegou a marcar oito gols seguidos sem sofrer nenhum (depois foi vazada pela Suíça no final do segundo jogo), mostraram que o time vive bom momento e tem grande repertório no ataque.

Agora, o rival é a Nigéria, que jamais venceu um europeu numa fase de mata-mata: nas duas vezes que foi às oitavas, caiu para seleções do Velho Continente.

"As equipes africanas são fortes, mas a França vai estar preparada. Sabemos que em cada jogo pode acontecer de tudo, será um jogo duro", comentou o goleiro francês Lloris.

Análise do Julio Gomes: A França é um time muito completo em todas as linhas, azeitado e chegou voando na Copa. A Nigéria deixa espaços, pode tomar um gol atrás do outro. Mas mostrou também, contra a Argentina, que pode machucar no ataque.

Alemanha x Argélia, segunda, 17h, Porto Alegre

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Image caption Muller, com quatro gols, comanda o ataque alemão, que já começou a Copa com 4 a 0 sobre Portugal

Uma das grandes favoritas da Copa, a Alemanha, enfrenta a seleção com a classificação mais dramática, a Argélia, que só avançou ao segurar o empate diante da Rússia num confronto direto pelo Grupo H.

"Estamos indo em um caminho que não é tão fácil, mas estão conseguindo conquistas. Vamos ver o que temos de melhorar", disse Kross após a vitória sobre os Estados Unidos.

O jogo tem um componente histórico interessante. Em 1982, na Copa disputada na Espanha, a Alemanha fez com a Áustria o famoso "jogo de compadres", prejudicando a Argélia na classificação. Na ocasião, os alemães fizeram 1 a 0 com 10 minutos de jogo, resultado que classificava tanto eles quanto os austríacos; o duelo então entrou num ritmo morno, com os times tocando a bola e esperando o tempo passar, o que eliminou a Argélia.

Agora, 32 anos depois, as equipes se encontram depois da festa argelina ao conquistar a vaga contra a Rússia em Curitiba. "Temos uma alma forte. É um sonho não só para mim, como para toda a equipe", disse Slimani, autor do gol da classificação.

Análise do Julio Gomes: É o maior favoritismo das oitavas. Mas a Alemanha às vezes "Barceloniza" demais seu jogo e demora a machucar o adversário. Gosto mais do time com Klose, alguém no comando do ataque para dar a opção da jogada aérea, do rebote do goleiro, etc. A Argélia é muito, muito rápida no contra ataque. Vai se defender o tempo todo e tentar machucar assim.

Argentina x Suíça, terça, 13h, São Paulo

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Image caption A Argentina não brilhou, mas Messi mostrou estar estar com o pé calibrado: quatro gols em três jogos

A Argentina fez o que dela se esperava em termos matemáticos ao avançar à segunda fase com nove pontos, vencendo todos os jogos dentro do grupo. Mas com dificuldades.

Contra a Bósnia, o time demorou a engrenar; diante do Irã, um gol já no final do jogo garantiu a vitória magra; frente à Nigéria, por duas vezes a equipe cedeu o empate e só foi vencer quando conseguiu segurar o 3 a 2.

Ainda que Messi tenha correspondido com gols – são quatro, e por isso ele é um dos artilheiros da Copa ao lado de Neymar e Thomas Muller -, a seleção sabe que precisa evoluir e mantém cautela ao ser apontada como uma das favoritas ao título.

"Já está provado que nesta Copa não existe favoritismo. Veja o caso da Costa Rica, que passou em primeiro num grupo com três potências", afirmou o volante Gago ao ser questionado sobre um suposto caminho tranquilo dos argentinos na Copa, já que não cruzam com nenhum campeão mundial até a final.

Do lado suíço, o meia Mehmedi foi perguntado sobre o poder de decisão de Messi, que mostrou estar com a perna esquerda calibrada no Mundial. "É a Argentina, não só o Messi. Todos têm muita qualidade".

Análise do Julio Gomes: Jogo perigoso, porque a Suíça é um bom time, melhor que os que a Argentina enfrentou até agora. Uma belíssima retranca de Hitzfeld pode complicar a Argentina. Vai depender muito da postura suíça. Sem Aguero, com Lavezzi, a Argentina ganha amplitute, um jogador que estica o campo e permite melhores deslocamentos de Higuaín e, consequentemente, metros para Messi trabalhar.

Bélgica x EUA, terça, 17h, Salvador

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Image caption A Bélgica passou com 100% de aproveitamento e agora tem rival mais complicado, os EUA

A tal da ótima geração belga não encantou. Mas fez o bastante para vencer os três jogos do Grupo H e avançar em primeiro lugar do grupo. E quem não está nem um pouco preocupado com o futebol apresentado é o técnico Marc Wilmots.

"O que é jogar bonito? Eu vi Brasil e Croácia e não achei que a seleção brasileira foi excepcional. O que importa para mim é vencer. Estamos aqui para jogar com as melhores seleções do mundo. Temos 23 excelentes jogadores e podemos surpreender outras equipes", afirmou após o último jogo, quando a Bélgica venceu a Coreia do Sul.

Diferente dos belgas, os norte-americanos tiveram uma rotina mais intensa, vencendo Gana com gol no fim; virando um jogo e depois cedendo o empate para Portugal; e desafiando a Alemanha debaixo de muita chuva (derrota por 1 a 0).

"Com a Bélgica estamos familiarizados, com a Argélia seria diferente", chegou a dizer o técnico dos EUA, Jurgen Klinsmann, antes da definição do rival. "Precisamos de algumas coisas. Demos um passo muito grande e estamos nas oitavas. Precisamos ter um pouco mais de posse de bola e melhorar para o próximo jogo", concluiu.

Análise do Julio Gomes: É em Salvador, promessa de muitos gols, portanto. Se a Bélgica jogar o que jogou até agora, o risco de decepção é enorme, pois os americanos são competitivos e impõem um jogo de velocidade, com armas variadas. A Bélgica é superior individualmente, mas parece jogar com uma preguiça notável. Precisa acelerar mais o jogo e criar um contra um para Hazard de um lado, Mertens do outro.