Uruguai promete invasão 'Suárez' hoje no Maracanã

Suarez e sua filha na sacada de casa (AP) Direito de imagem AP
Image caption "Luis" vira opção óbvia de nome entre gestantes do país

Desde a notícia da suspensão do atacante Luis Suárez da Copa do Mundo, o Uruguai ficou diferente. E hoje espera-se uma grande manifestação de apoio da torcida ao jogador no Maracanã, na partida contra a Colômbia pelas oitavas de final da Copa.

Nos últimos dias, panelaços foram promovidos em diversas partes da capital Montevidéu, a população fez caravanas ao aeroporto e à casa do jogador e o atacante recebeu manifestações de apoio de todos os setores da sociedade, de celebridades a sindicatos.

Caracterizados pela discrição e pelo amplo debate, geralmente equilibrado e plural, dos mais mínimos assuntos, os conterrâneos de "Lucho", como Suárez é carinhosamente chamado em sua terra natal, aderiram em massa à defesa incondicional do jogador. Quem não é a favor está definitivamente contra.

Não se defende a mordida. Condena-se veementemente o grau de sanção determinado pela Fifa.

Um dos principais noticiários do horário nobre no Uruguai começou sua edição de ontem com uma espécie de clipe de homenagem ao atacante.

Minutos depois, o mesmo canal mostrava simpatizantes do jogador em um protesto organizado, na porta da emissora, contra a sanção dada pela Fifa.

Como se não fosse suficiente, na hora de informar sobre o clima, o "homem do tempo" do programa jornalístico colocou uma máscara de Suárez e anunciou as baixas temperaturas previstas para a tarde do jogo entre Uruguai e Colômbia, hoje.

O presidente José "Pepe" Mujica também não ficou alheio ao estado de espírito geral e se pronunciou diversas vezes sobre a punição. "Feriu-se não só um homem, mas um país", disse ontem em sua emissão de rádio semanal.

Registram-se recordes de vendas de bandeiras, uma grávida anuncia que o bebê que acalenta na barriga se chamará "Luis", e camisetas de Suárez com a inscrição "God save the king" - uma ironia com o mote inglês "Deus salve a rainha", acompanhada da imagem do jogador com uma coroa que foi popularizada depois da vitória do Uruguai sobre a Inglaterra, estão sendo vendidas como pãozinho quente, a 490 pesos uruguaios (cerca de R$ 47) cada uma.

Milhares de Suárez hoje, no Maracanã

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Image caption Jornal uruguaio convida leitores a imprimir e recortar uma máscara de Suárez

Outra das expressões de apoio e indignação que estão sendo organizadas é que todos os uruguaios presentes ao Maracanã hoje, para acompanhar o jogo entre o Uruguai e a Colômbia, cheguem ao estádio com algum elemento alusivo a "Lucho", seja um cartaz, uma camiseta, uma maquiagem ou uma máscara.

Um dos principais jornais uruguaios, "El Observador", vem convidando seus leitores pelas redes sociais a imprimir e recortar uma máscara de Suárez elaborada pela publicação originalmente para torcer pela seleção no início da Copa, mas que se tornou agora um instrumento de apoio ao atleta.

A comoção gerada pela expulsão do atacante da Copa parece não ter fim e instalou um sentimento generalizado de "a pátria de chuteiras".

Filho de uma família pobre oriunda da cidade de Salto, no norte do país, o "Matador" encarna a trajetória de um garoto pobre e com muitos fatores desfavoráveis que reverteu a sorte e se transformou em peça-chave do sucesso que a "Celeste" vem angariando nos últimos tempos

A separação dos pais, as privações econômicas e inclusive as limitações técnicas, já que ele nunca foi um jogador de máximo destaque enquanto esteve nas categorias juvenis do seu país, foram superadas e sua atuação é vista como importante para o time desde a conquista do quarto lugar na Copa da África do Sul, em 2010, quanto a vitória na Copa América, em 2011.

"O povo se identifica com ele", resume Mathías Cardacio, jogador de futebol e amigo de infância de "Lucho" convidado a um programa televisivo de variedades na noite de ontem para comentar... a sanção a Suárez.

Time está forte

Para o técnico da Celeste, Óscar Tabárez, o grupo que dirige está "ferido, mas com uma força incrível e com muita rebeldia" para o jogo de hoje.

O técnico considera que o "Pistoleiro", como o atacante também é chamado pelos uruguaios, é um "bode expiatório" com o qual a Fifa pretendeu realizar uma punição exemplar, movida por interesses extrafutebolísticos.

"Eles se esquecem de que o bode expiatório é uma pessoa, e que tem direitos", disse o Tabárez durante pronunciamento ontem, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Tabárez comunicou ainda sua renúncia ao cargo que ocupa na Comissão de Estratégia da federação internacional de futebol.

A noção de "bode expiatório" vai ao encontro da percepção também vigente entre a maioria da população, que começa a ver em Suárez, mais do que um ídolo dentro do campo, a maior vítima e o reflexo de um poder tão desmedido como arbitrário.

"Todos sabemos onde está o poder", disse Tabárez, referindo-se à Fifa. "Mas isso não quer dizer aceitar e não enfrentar o uso indiscriminado e tendencioso desse poder."

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