‘Privilegiada’, comunidade perto do Maracanã vê Copa ‘em outro mundo’

  • 28 junho 2014

Tão perto, tão longe. Da laje de sua casa no Morro da Mangueira, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a família do vigilante Marcelo Alves, de 34 anos, tem uma das vistas mais privilegiadas do Maracanã, mas nem sonha em acompanhar uma partida da Copa do Mundo no estádio.

Horas antes do jogo entre Colômbia e Uruguai, no Maracanã, a BBC Brasil esteve na casa de Marcelo para assistir pela TV ao jogo Brasil X Chile, disputado em Belo Horizonte, durante um churrasco com a presença de familiares, vizinhos e amigos do carioca.

Embora esteja tão perto do Maracanã a ponto de ouvir a torcida gritando gol antes mesmo de as emissoras de TV mostrarem o lance ao vivo, Marcelo diz que o alto preço dos ingressos durante o Mundial tornou impossível o sonho de ver um jogo de Copa do lado de dentro do famoso estádio.

"A única oportunidade que eu tive de assistir a um jogo no novo Maracanã foi quando o meu time, o Fluminense, fez promoções vendendo ingressos a R$ 10", conta.

Com um olho na tela da TV, que mostrava o duelo entre brasileiros e chilenos, e outro em tudo que ocorria ao vivo no entorno do Maracanã, Marcelo não se cansava de elogiar a vista.

"É mesmo um privilégio", ressaltava o carioca ao apontar ao fundo a chegada dos ônibus das delegações colombiana e uruguaia à entrada do estádio.

Transtornos e empregos

Para ele, a reforma do estádio trouxe transtornos como o intenso barulho durante as obras, mas entre os principais benefícios estão a nova estação Maracanã, que integra os trens metropolitanos e o metrô, localizada em frente à comunidade, além de ter gerado muitos empregos na região.

Vizinho de Marcelo, o pedreiro Rovane Simões, de 40 anos, trabalhou nas reformas do estádio e atualmente trabalha nas obras da estação.

"A Copa foi boa para termos estes empregos, e muita gente daqui da Mangueira trabalhou nas obras, mas quando tudo acabar vou ficar desempregado de novo", lamenta.

Ele aponta para a linha de trem que praticamente separa a favela do bairro do Maracanã e diz que os benefícios da reforma do estádio não passaram para o outro lado.

"É como se fosse um outro mundo, daqui pra lá e de lá pra cá. A gente ajudou nas obras, mas agora parece outra realidade, da qual não podemos participar", disse.

Apesar da reclamação, Rovane foi um dos agraciados com ingressos da Copa sorteados entre os operários que atuaram na reforma. A entrada para o jogo entre Espanha e Chile, no entanto, não durou muito em sua mão.

"Assim que eu peguei o ingresso na bilheteria, vendi quase imediatamente, por ali mesmo, por R$ 500", conta. "O que eu ia fazer ali no estádio sozinho, sem meus amigos e sem minha família?", observa.

Expectativas e futuro

A mulher de Marcelo, Ana Claudia Coutinho, de 28 anos, conta que muitos moradores da Mangueira tinham a esperança de que a Copa fosse trazer um fluxo de turistas em busca de hospedagem barata, e por conta disso chegaram a investir em reformas para atrair os potenciais clientes.

"Achávamos que haveria o interesse de muitos estrangeiros, mas depois vimos esse grande número de argentinos e chilenos dormindo no chão da rodoviária e na praia, e vimos que eles não queriam gastar muito", diz.

Mas as expectativas frustradas não vêm impedindo a família de vibrar a cada lance dos jogos do Brasil nesta Copa. A BBC Brasil esteve com Marcelo, Ana, os dois filhos pequenos do casal e mais dez pessoas na tarde deste sábado para assistir a vitória do Brasil sobre o Chile nos pênaltis.

Em meio a um churrasco regado a cerveja e pagode, o final da partida provocou uma explosão de alegria entre os presentes, depois de muita tensão entre o gol do Chile, que empatou a partida em 1 a 1, e o final da disputa de pênaltis que definiu a vitória brasileira.

"Foi muito sofrido", diz Marcelo. Sofrido também é como ele descreve o dia a dia de muitos dos moradores da Mangueira. Ainda assim, ele se diz satisfeito e feliz onde vive.

Com mais de 17 mil habitantes, a Mangueira foi pacificada e recebeu uma base da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), ainda em 2011. "Antes disso havia tiroteios constantes e cheguei a ver amigos morrerem. Hoje está muito melhor, apesar de ainda haver problemas, claro. Espero que meus filhos não tenham que ver o que eu vi quando era mais jovem", conta.

"A vida aqui é assim. Tudo é uma luta, mas basta reunir amigos e colocar um pagode. Com esta vista incrível, não posso negar que somos muito felizes", diz, apontando ao fundo para vários cartões postais da cidade, incluindo o Pão de Açúcar, o Corcovado, e, claro, o estádio que será palco da final da Copa do Mundo deste ano.