Ex-porta-voz de premiê britânico é condenado à prisão por grampos

  • 4 julho 2014
Coulson (Getty) Image copyright Getty
Image caption Coulson foi condenado por grampos telefônicos entre 2000 e 2006

Andy Coulson, ex-editor do tabloide News of the World e ex-diretor de comunicações do primeiro-ministro britânico, David Cameron, foi condenado nesta sexta-feira a 18 meses de prisão por conspiração para grampear telefones.

Coulson, 46, outros três jornalistas e um investigador particular foram considerados culpados na semana passada, após um longo processo judicial, que veio na rabeira do escândalo das denúncias de grampos que chocaram a Grã-Bretanha em 2011 - e acabaram resultando no fechamento do jornal.

Cinco réus, incluindo a ex-chefe do grupo News International Rebekah Brooks, foram inocentados de todas as acusações.

Questionado sobre a prisão de seu ex-chefe de comunicações, o premiê britânico, David Cameron, que pediu desculpas por contratá-lo, disse: "O que (a sentença) diz é que é certo de que a justiça será feita e que ninguém está acima da lei. Como eu sempre disse".

Coulson negou as acusações; mas o julgamento estabeleceu que ele conspirou para interceptar mensagens de voz de telefones celulares entre 2000 e 2006. Seu advogado argumentou que seu cliente não sabia que os grampos eram ilegais.

Também foram condenados o ex-repórter-chefe Neville Thurbeck, 52, e o ex-editor de notícias Greg Miskiw, 64, a seis meses de prisão cada. O ex-repórter James Weatherup, 58, e o detetive Mulcaire, 43, receberam penas de quatro e seis meses respectivamente, mas responderão em liberdade condicional.

Mulcaire - que enfrentou quatro acusações - e Weatherup também foram condenados a 200 horas de serviço comunitário.

Todos foram considerados culpados por interceptação ilegal de comunicações.

Investigações

As acusações de que funcionários do News of the World estariam envolvidos em interceptação ilegal de telefones começaram a pipocar em 2006. Em 2007, a Justiça condenou à prisão o correspondente do jornal para assuntos da Realeza Clive Goodman e o detetive particular Glenn Mulcaire por causa do grampo ilegal de telefones de membros família real.

A Polícia Metropolitana de Londres iniciou uma nova investigação em janeiro de 2011, após alegações de que milhares de pessoas, entre elas atores, políticos, jogadores de futebol, apresentadores de TV e outras celebridades, tiveram seus telefones grampeados.

Em abril de 2011, o tabloide admitiu pela primeira vez publicamente ter interceptado mensagens deixadas na caixa postal de celulares de pessoas envolvidas em casos cobertos pelo jornal.

O caso ganhou contornos de escândalo em julho daquele ano, com a denúncia de que um detetive que trabalhava para o jornal teria grampeado o telefone celular de Milly Dowler, uma menina de 13 anos que tinha desaparecido em 2002.

A manipulação das mensagens, ainda em 2002, fez a polícia e a família da adolescente de 13 anos acreditarem que ela ainda estaria viva, já que sua caixa postal continuava em atividade. O corpo foi encontrado depois.

Em julho de 2011, o grupo que controlava o News of the World, anunciou o fechamento do jornal, devido ao escândalo de escutas telefônicas ilegais.

O News of the World era o jornal dominical mais vendido da Grã-Bretanha, com tiragem de 2,8 milhões de exemplares.

'Intensamente pessoal'

Ao condenar Coulson, o juiz John Saunders disse que "a evidência é clara de que havia uma grande quantidade de escutas telefônicas enquanto Andy Coulson era editor".

As escutas interceptaram mensagens "intensamente pessoais", disse o juiz, causando "grande angústia aos envolvidos".

Ele se referiu ao grampo no telefone da estudante assassinada Milly Dowler, dizendo que a demora do News of the World em avisar a polícia sobre as mensagens de voz dela era "imperdoável".

Funcionários do jornal, segundo o juiz, "estavam usando seus recursos para tentar encontrar Milly Dowler".

"O fato de que eles demoraram em dizer à polícia o conteúdo do correio de voz (de Milly) demonstra que a real motivação não era agir no melhor interesse da criança, mas para obter crédito para encontrá-la e, assim, vender o número máximo de jornais".

O juiz disse não ter dúvida de que Coulson estava sob "pressão considerável" no trabalho de editor e que ele "claramente pensava que era necessário" usar grampos para manter a vantagem competitiva do papel.

Entre 2003 e 2006, o direito à privacidade "valia pouco" para o jornal, de acordo com o juiz.

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