Tim Vickery: Ah, como era boa a minha Copa

  • 3 julho 2014
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Jogadores argelinos celebram classificação para as oitavas / Crédito: AFP Image copyright AFP
Image caption Com 32 times, a Copa dá chance para equipes de todos os continentes e é mais 'inclusiva'

Um compatriota meu escreveu um artigo no jornal Lance! antes da Copa do Mundo de 2014 argumentando que os Mundiais antigos eram melhores. É uma opinião perfeitamente respeitável; os torneios anteriores tinham um charme ingênuo que jamais será retomado.

Mas a justificativa dele expõe uma falha comum no pensamento europeu. As velhas Copas do Mundo, ele disse, eram melhores porque menos países participavam e eles ficavam mais próximos das pessoas.

A contradição é impressionante, mas muitos dos meus compatriotas caem nessa. A questão óbvia é: as Copas do Mundo antigas eram mais próximas de que pessoas? Certamente não dos asiáticos ou africanos.

A Copa de 1966, sediada pela Inglaterra e organizada pela Fifa, que era presidida por um inglês, teve apenas uma sede e a participação praticamente de apenas duas regiões do mundo: Europa e América Latina. A justificativa era que o futebol em outras regiões não tinha alcançado uma qualidade suficiente para justificar mais vagas.

Mas a Coreia do Norte, único país 'de fora' a conquistar umo lugar no Mundial, criou um grande buraco nesse argumento ao vencer a Itália e abrir uma vantagem de três gols sobre Portugal antes de cair diante do gênio Eusébio.

De qualquer maneira, o argumento é falso – como melhorar o jogo dessas nações de futebol menos desenvolvido sem ao menos permitir que elas sejam testadas e aprendam com os melhores?

Cansado da prepotência eurocêntrica, o resto do mundo fez uma rebelião em 1974. O presidente inglês da Fifa, Stanley Rous, deu lugar ao brasileiro João Havelange, que recebeu votos pela inclusão dos países em desenvolvimento. A Copa do Mundo seria expandida, dando mais espaço para os países subdesenvolvidos, e Mundiais sub-17 e sub-20 seriam promovidos, para esses países poderem atuar.

Essa mudança foi em larga escala ditada pelas realidades eleitorais. Depois da Segunda Guerra Mundial, mais da metade dos membros da Fifa ainda eram nações europeias. Em 1974, com várias ex-colônias conquistando a independência, a Europa passou a ter menos de um terço dos representantes da entidade. Os membros da Fifa tinham mudado, mas sob o ‘governo’ de Rous o pensamento da organização continuou o mesmo.

Image copyright AP

Mas até que ponto as batalhas de 1974 continuam sendo travadas? A imprensa inglesa tem uma linha anti-Fifa, e tem trabalhado de forma incansável para divulgar a corrupção dentro da entidade. Não há nada de errado com isso – pelo contrário, esse trabalho é a parte mais nobre do jornalismo. Mas o que é surpreendente é a ausência de um olhar alternativo sobre o jogo global, que seja mais inclusivo e voltado para o futuro.

Muitas vezes meus compatriotas se prendem a um conto de fadas nostálgico da Fifa antes da queda, quando tudo eram rosas no jardim do futebol. A imprensa inglesa às vezes comete o absurdo ideológico de atacar o presidente atual da entidade, Joseph Blatter, por não ser duro o suficiente com o racismo, enquanto deixa de se dissociar de um presidente inglês da Fifa que lutou até o fim do seu reinado contra a exclusão do apartheid sul-africano da entidade.

É por essa razão que um de meus grandes momentos nesta Copa do Mundo se deu no estúdio da BBC durante um jogo do Chile. Os torcedores chilenos tomaram o estádio, com muito barulho. "Uau", disse um colega ao meu lado, "essa competição realmente pertence ao mundo".