No Rio da Copa, até polícia brinca com argentinos por derrota na final

  • 14 julho 2014
Torcedores antes do jogo no Maracança (AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Torcedores reunidos antes da partida no Maracanã: milhares de pessoas celebraram final no Rio de Janeiro

"Brasil decime que se siente" - o tradicional grito argentino na Copa do Mundo no Brasil estava entalado na garganta dos brasileiros, especialmente dos cariocas, que viram uma invasão dos hermanos no Rio de Janeiro nos últimos três dias.

Mas o apito final do juiz no domingo no Maracanã deu o alívio que os brasileiros precisavam e a melhor oportunidade de vingança: com a Argentina derrotada pela Alemanha por 1 a 0 e sem o tão sonhado tricampeonato, eles haviam retomado o controle da festa.

As provocações mudaram de lado, e brasileiros passaram a atazanar os hermanos com os "mil gols de Pelé". O clima dentro do estádio e na saída dele foi de festa – uma festa germano-brasileira – e permaneceu tranquilo, mas houve registros de brigas principalmente nos arredores da Fan Fest em Copacabana.

Discussões acaloradas começaram na orla onde milhares de pessoas se reuniam para ver os jogos da Copa e tornou-se acampamento para argentinos nos últimos dias, reunidos para a final. Uma troca de provocações na Avenida Atlântica entre brasileiros e hermanos acabou resultando em chutes e pontapés e policiais tiveram que intervir.

Na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, alguns hermanos chegaram a queimar a bandeira do Brasil, segundo o jornal carioca O Globo. Policiais da tropa de choque tentaram impedir o ato e usaram spray de pimenta para dispersar os torcedores.

Foram confusões isoladas, segundo a Polícia Militar, cuja forte presença conseguiu apartar rapidamente os conflitos.

Por volta de 23h, o clima já voltava a ser amistoso na orla de Copacabana, com argentinos, brasileiros e alemães confraternizando.

Até mesmo os policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) entraram na brincadeira e passaram pela Avenida Atlântica no caminhão gozando os hermanos pela derrota e cantando em coro "mil gols, mil gols, mil gols", numa referência aos mais de mil gols marcados por Pelé.

'Pula quem é pentacampeão'

Os brasileiros eram maioria no Maracanã no domingo e, logo na chegada para o jogo, já demonstravam quem apoiariam na final.

Muitos deles vieram com camisas do Flamengo – a Alemanha usou nesta Copa uma camiseta rubro-negra em homenagem ao clube carioca – e até criaram uma versão local para o grande hit dos hermanos neste Mundial.

"Argentina me diz como se sente, ver de longe cinco estrelas a brilhar. Te juro ainda que os anos passem, você nunca vai me alcançar. Cinco Copas só eu tenho, e sem trapacear, mi 'papa' não se dopou para jogar. Uma coisa a mais te digo, para nunca se esquecer: o Pelé tem mais Copas que você".

A versão até pegou no início com os torcedores que receberam a 'cola' com a letra da música na saída do metrô, mas dentro do estádio o grito predominante era "mil gols, mil gols, mil gols, mil gols, só Pelé, só Pelé, Maradona cheirador", numa alusão à fase em que Diego Maradona se tornou dependente de cocaína.

Cada tentativa dos argentinos de puxarem a música deles era abafada por vaias da torcida do Brasil. Enquanto isso, os alemães faziam a festa: "Deutschland! Deutschland!"

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Image caption Milhares de pessoas acompanharam final na Fan Fest da Fifa na praia de Copacabana, no Rio

Image caption Argentinos estiveram em peso no Rio de Janeiro para acompanhar a final contra a Alemanha

No intervalo do jogo, brasileiros e hermanos confraternizavam no hall do Maracanã. Argentinos questionavam os rivais e brincavam com os sete gols tomados pela seleção na semifinal contra a Alemanha. Brasileiros respondiam com criatividade.

"Pula, sai do chão quem é pentacampeão!", cantavam em ritmo de funk. "Sete pesos um real, sete pesos um real", era o grito ironizando a crise econômica dos vizinhos.

No fim do jogo, a vitória alemã com o gol de Mario Goetze veio para coroar a alegria dos brasileiros, que não queriam ver os rivais argentinos saírem do Maracanã com a taça na mão. Na arquibancada, eles "homenagearam" os hermanos com o grito de "vicecampeão! vicecampeão!"

Saída

Na saída do estádio, brasileiros fizeram questão de mostrar aos rivais quem eram os donos da casa.

"Os alemães não estão muito animados, né? Os brasileiros que estão precisando fazer a festa deles. Na verdade, eles estão muito contidos", brincou Julia, uma torcedora de Santa Catarina que foi ao Rio ver o jogo.

"Se fosse a Argentina, isso aqui ia estar fervendo", disse Joyce, a amiga dela, reconhecendo o talento dos vizinhos quando o assunto é festa.

Os argentinos, que estavam acostumados a permanecer no estádio por um bom tempo cantando e fazendo festa depois dos jogos da seleção de Messi, desta vez deixaram silenciosamente o Maracanã.

Com eles calados, brasileiros começavam as provocações com os mais diversos gritos – de "pentacampeão".

O forte policiamento nos arredores do estádio fez com que a saída dos torcedores fosse tranquila. Mesmo com as provocações entre brasileiros e argentinos, o clima se manteve amistoso no caminho para o metrô. Segundo os policiais do entorno, não houve registro de ocorrência.

Mas dentro do metrô, os ânimos esquentaram um pouco entre os rivais. Enquanto alemães faziam a festa até mesmo improvisando uma comemoração em 'portunhol' – "Tetracampeón, tetracampeón", eles gritavam – alguns brasileiros trocaram farpas com argentinos.

"Mil gols, mil gols, mil gols, mil gols...", começaram os brasileiros. "Uno, dós, trés...siete", respondiam os argentinos, na contagem dos gols levados pela seleção brasileira na semifinal contra a Alemanha. Da brincadeira das músicas, veio uma discussão entre um casal carioca e dois hermanos.

"Agora vocês calam a bola e vão embora", dizia repetidamente o brasileiro.

"Vocês deveriam ter vergonha. Somos todos da América Latina. Eu jamais vestiria a camisa de um europeu para torcer contra vocês" – a mulher estava com uma camiseta da seleção alemã.

O clima esquentou, com um apontando o dedo na cara do outro e gritando mais alto para o vagão todo ouvir. Até que outros argentinos que estavam por ali interferiram para evitar uma possível briga.

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