Será que a torcida brasileira empurrou a Argentina até a final?

Zabaleta comemora classificação argentina à final Direito de imagem AP
Image caption Zabaleta, um dos líderes da seleção argentina, aprova torcida contra: 'Isso nos empurra', garante

Pablo Zabaleta sabe o que é fazer a torcida brasileira sofrer. No dia 19 de agosto de 2008, ele era titular da seleção olímpica argentina que ganhou por 3 a 0 da brasileira na semifinal dos Jogos de Pequim. Neste domingo, seis anos depois, em condições diferentes, o plano é repetir a dose.

A Argentina fará a quinta final de Copa do Mundo de sua história, a terceira delas contra a Alemanha. O jogo será disputado no Maracanã. Como durante toda a competição, o estádio terá milhares de argentinos nas arquibancadas. Mas todos os outros milhares, em sua maioria brasileiros, estarão torcendo contra.

"Qual motivação maior que jogar no Maracanã, no Brasil? Vemos a euforia dos nossos torcedores. Tivemos muita gente contra nós em todas as partidas, pessoas que vieram torcer pelos rivais para ver a Argentina perder, qualquer que fosse a outra seleção. E isso nos empurra", disse Zabaleta à BBC Brasil, após a dramática classificação nos pênaltis contra a Holanda.

Os torcedores argentinos promoveram verdadeiras invasões às cidades brasileiras, com caravanas percorrendo milhares de quilômetros e cheias de pessoas sem ingressos para um jogo sequer. Tudo valia à pena para estar ao lado da seleção "albiceleste". A cada momento em que se juntavam, os argentinos começavam a cantar a música que virou o hit da Copa. A letra começa perguntando aos brasileiros "como se sentiam por ter o seu papai (no sentido de líder) em casa". Acaba, como em várias outras canções, afirmando que "Maradona é maior do que Pelé".

A torcida brasileira não foi rápida para levar aos jogos da própria seleção canções novas que empurrassem o time. Mas foi ágil para responder aos argentinos. Foi criada a dos "mil gols, mil gols" que "só Pelé" conseguiu fazer, concluindo no fim que Maradona era "cheirador". As brincadeiras futebolísticas viraram tensão e incidentes entre torcedores em diversos lugares, dentro e fora de estádios.

Nos jogos eliminatórios, milhares de brasileiros vestiram literalmente as camisas e cores de Suíça, Bélgica e Holanda, as três seleções vítimas da Argentina no caminho rumo à final. E este movimento não passou alheio aos jogadores.

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Image caption Argentina volta a decidir uma Copa e, segundo Zabaleta, bem motivada por estar no Maracanã

"É normal, é a rivalidade do futebol, mas muitas vezes isso te fortalece como grupo e aqui estamos", falou Zabaleta, olhar desafiador, sorriso no rosto.

De fato, desde o primeiro jogo os próprios jogadores argentinos foram vistos, em vídeos gravados após as vitórias na Copa, cantando a tal música "Brasil, decime qué se siente". Há uma conexão entre os atletas e a "hinchada" ainda mais forte por estarem sendo "secados" no país vizinho, onde não imaginavam encontrar tamanha animosidade nos estádios.

O lateral direito do Manchester City é um dos líderes do vestiário em seu clube, na Inglaterra, e também na seleção da Argentina. É adorado por todos. Durante a Copa do Mundo, foi um dos que mais deu atenção aos jornalistas de todo o mundo após as partidas, falando em castelhano, naturalmente, e também em inglês. Voz pausada, semblante tranquilo e com marcas de guerra. Levou pontos nas partes interna e externa do lábio inferior após um choque com um holandês. O tom de voz só muda mesmo ao falar da "hinchada".

"Vemos como nossos torcedores estão empolgados, é muito especial para nós jogar neste país. Os torcedores brasileiros estão torcendo contra nós e nós, como argentinos, nos sentimos mais fortes assim. As pessoas estão vindo sem nem ter ingressos! Isso acontece porque amamos o futebol e sabemos como seria especial para o país ganhar outra Copa. Estamos muito orgulhosos e jogando para dar o troféu a eles", falou Zabaleta.

Além dele, outros sete jogadores da seleção atual foram titulares daquela semifinal olímpica em Pequim: o goleiro Romero, o zagueiro Garay, os volantes Mascherano e Gago, o meia Di María e os atacantes Messi e Aguero. Aquela Argentina ganharia a medalha de ouro e viraria a base do time principal do país.

Já aquele Brasil de Dunga, derrotado em 2008, tinha apenas Marcelo entre os titulares de hoje. Thiago Silva, o atual capitão, era banco de uma zaga formada por Alex Silva e Breno. Hernanes, hoje reserva da principal, começou como titular aquela partida. Ramires e Jô estavam no banco em Pequim. Ou seja, longe de aquele time ter a mesma espinha dorsal do Brasil da Copa 2014.

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