Obama: Rússia tem ‘responsabilidade’ sobre rebeldes na área da queda do MH17

  • 21 julho 2014
Barack Obama | Foto: Getty Image copyright Getty
Image caption Obama disse que assegurar devolução de corpos é a prioridade dos EUA

O presidente americano, Barack Obama, endureceu nesta segunda-feira o discurso em relação ao governo da Rússia, afirmando que o presidente russo, Vladimir Putin, tem "a responsabilidade direta de obrigar os rebeldes pró-Rússia a cooperar" com a investigação e os esforços de recuperação dos corpos de passageiros do voo MH17 da Malaysia Airlines, que caiu na quinta-feira na Ucrânia.

O local onde o avião caiu, no leste ucraniano, é controlado por separatistas pró-Rússia, acusados pelos EUA de remover possíveis pistas da área antes da chegada de investigadores.

Em um pronunciamento na Casa Branca, Obama afirmou que "a Rússia tem grande influência sobre estes separatistas. Ninguém nega isso. A Rússia os incitou, os treinou e sabemos que a Rússia os armou com equipamento militar, incluindo escudos anti-aéreos. Alguns dos principais líderes separatistas são cidadãos russos."

A prioridade dos Estados Unidos, segundo o presidente, é recuperar os corpos dos passageiros. "Garantir que os corpos sejam recuperados e devolvidos a seus entes queridos é o mínimo que a decência exige", afirmou.

Em uma declaração, o próprio Putin reconheceu que é essencial que investigadores tenham segurança para investigar a tragédia no local onde ela ocorreu.

Pressão

Obama disse ainda ter falado com diversos líderes mundiais desde a queda do Boeing 777, que caiu quando viajava de Amsterdã a Kuala Lumpur com 298 pessoas a bordo. Os governantes estão "em estado de choque, mas, para dizer a verdade, também estão indignados", disse.

De acordo com o líder americano, os investigadores devem ter acesso imediato e irrestrito ao local da queda. "Separatistas estão removendo evidências do local. O que eles estão tentando esconder?", disse.

O caos no local onde o avião caiu, próximo à cidade de Donetsk, é um "insulto" às famílias dos mortos, de acordo com Obama. Para ele, Putin tem que provar que "apoia uma investigação completa e justa".

Horas antes, o Ministério da Defesa russo disse que um avião de guerra ucraniano voava próximo ao Boeing da Malaysia Airlines minutos antes de que ele fosse abatido e exigiu explicações de Kiev.

O ministério russo afirmou ainda que não detectou o lançamento de nenhum míssil próximo à trajetória da aeronave e negou ter transferido o sistema de mísseis BUK (que se acredita terem sido usados para abater o avião) aos rebeldes.

A afirmação contradiz os relatórios da inteligência americana, que dizem que um míssil foi lançado de uma região sob controle dos rebeldes pró-Rússia.

O secretário de Estado americano, John Kerry, disse que os EUA captaram movimento de equipamentos militares da Rússia para a Ucrânia no mês passado, incluindo um comboio de veículos blindados, tanques e lançadores de foguetes.

Promotores holandeses abriram uma investigação de crimes de guerra a respeito da queda do voo. O governo ucraniano afirmou estar disposto a ceder o controle do inquérito para o Tribunal Internacional de Haia.

ONU

Ainda nesta segunda-feira, o Conselho de Segurança da ONU deverá votar uma resolução condenando a derrubada do avião da Malaysia Airlines, após disputas com a Rússia a respeito das palavras usadas no documento.

Ministros de relações exteriores europeus se encontrarão na terça-feira para discutir sanções contra a Rússia.

Também nesta segunda, o rei Willem-Alexander, da Holanda, fez um pronunciamento nacional pela televisão após um encontro com parentes das vítimas. "Este desastre terrível deixou uma ferida profunda na nossa sociedade. A cicatriz será visível e tangível por muitos anos", disse.

Investigadores holandeses examinaram nesta segunda-feira os corpos das vítimas do avião da Malaysia Airlines que foram colocados em um trem, em meio à pressão crescente sobre rebeldes pró-Rússia para que ampliem o acesso à área.

Estes foram os primeiros especialistas estrangeiros a chegar na região onde o Boeing 777 caiu.

O trem, com 196 corpos, deixou a cidade de Torez, controlada pelos rebeldes, para iniciar o processo de identificação. Um segundo trem chegou no domingo para recolher mais corpos.

Monitores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) já haviam visitado o local, mas o acesso deles aos destroços foi limitado pelos rebeldes.

Dúvidas sobre investigação

Separatistas disseram que irão entregar as caixas-pretas do MH17 à Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), mas o Departamento de Estado dos EUA afirma que rebeldes modificaram outras potenciais pistas.

Equipamentos pesados foram vistos removendo destroços no local da queda do avião no domingo.

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Image caption Analistas holandeses disseram ter analisado três corpos em trem onde eles estão sendo mantidos

A investigação sobre as causas da queda da aeronave enfrenta diversas dificuldades.

Segundo a OACI, um órgão da ONU, a responsabilidade pela investigação é do Estado onde o acidente ocorreu.

No entanto, quase toda investigação de um grande incidente aéreo torna-se um caso internacional que reúne diversos países devido a especialistas técnicos, recursos ou - como neste caso - as ramificações políticas do desastre.

Diversos países ocidentais pediram uma investigação internacional completa e independente.

A autoridade de aviação russa - que inclui ex-Estados soviéticos, como a Ucrânia, como signatários de seu tratado - disse que qualquer investigação deveria ocorrer sob supervisão da OACI.

Correspondentes dizem que, se for confirmado que o Boeing foi derrubado por separatistas com armamento fornecido por Moscou, isto poderá mudar significativamente o debate sobre a crise na Ucrânia.

Confrontos entre rebeldes e forças do governo seguem na cidade de Donetsk, também no leste da Ucrânia, com relatos de armamento pesado sendo usado. Um prédio foi incendiado e correspondentes da BBC na região citaram um alto número de pessoas deixando a cidade.

Estima-se que o conflito iniciado em abril já tenha matado mais de mil pessoas.

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