Dunga volta e promete mudar postura dele e da seleção, mas não o futebol

Dunga em entrevista coletiva no retorno à seleção / Crédito: Reuters Direito de imagem Reuters
Image caption Dunga promete melhorar tratamento com a imprensa em sua segunda passagem na seleção

A partir desta terça-feira, 22 de julho de 2014, começa a quarta "Era Dunga" na história da seleção brasileira. O ex-volante, campeão do mundo em 94, foi anunciado como novo técnico do Brasil após a saída de Luiz Felipe Scolari, em coletiva na sede da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio de Janeiro.

Se chegar até 2018 no cargo, Dunga será o "líder" da seleção brasileira em um Mundial, seja dentro ou fora do campo, pela quinta vez em um período de 28 anos (oito Copas do Mundo). Na Copa de 90, quando o Brasil ficou marcado pelo futebol "feio" e defensivo, Dunga não carregava a braçadeira de capitão, mas virou o símbolo da derrota. Foi cunhada a expressão "Era Dunga" para simbolizar o que dera errado. A redenção veio com o tetra, quatro anos depois, e a taça erguida nos Estados Unidos. Dunga foi capitão também em 98, quando o Brasil perdeu a final para a França.

Como técnico, ele levou o Brasil a títulos da Copa América (2007) e da Copa das Confederações (2009), antes de perder nas quartas de final do Mundial-2010 para a Holanda. O discurso do retorno, em busca da segunda redenção, foi de mudança de postura, especialmente na desgastada relação com a imprensa.

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Image caption Marcação era o forte da seleção de 1990, que foi eliminada pela Argentina nas oitavas

"Dificilmente uma pessoa muda em seus princípios, os meus são a ética, comprometimento, lealdade, transparência, trabalho. Mas todos evoluímos, pensei muito nestes últimos quatro anos e avaliei o que aconteceu. Uma meta é fazer as pessoas mudarem o que pensam a meu respeito. Nelson Mandela tinha tudo contra, não mexeu em uma arma e conseguiu mudar (o que as pessoas pensavam sobre ele). Espero ter 1% da paciência dele para mudar isso", falou Dunga em sua coletiva de apresentação.

A BBC Brasil conversou, antes da entrevista desta terça-feira, com dois ex-companheiros e amigos de Dunga, que estiveram tanto no fracasso de 90 quanto na redenção de 94. Jorginho, ex-lateral e hoje treinador nos Emirados Árabes Unidos, foi o auxiliar técnico de Dunga no ciclo de 2007 a 2010. Ricardo Rocha, ex-zagueiro, hoje é comentarista. Nenhum dos dois acredita em mudanças importantes no jeito de ser do novo comandante da seleção, mas relatam que o amadurecimento ajudou o Dunga de 94 a ter sucesso e superar o fracasso de quatro anos antes.

"A gente aprendeu com os erros. Dunga teve liderança na hora de definir a premiação antes de viajar, que foi uma das grandes polêmicas em 90. A liderança dele aumentou, ele estava mais experiente", relata Jorginho. "Ele viveu a seleção 12 anos como jogador, mais 4 como treinador. É um cara fácil de lidar, ele respeita o jogador e, por isso, é respeitado. Está experiente em relação a isso, é um cara equilibrado e que consegue valorizar todo mundo. E o jeito dele é esse, ele não guarda nada, põe tudo pra fora, se ele não gostou de uma pergunta, vai falar na hora. É um cara muito autêntico."

"Esse caráter, a garra, a vontade de ganhar, essa atitude nunca mudou (de uma Copa a outra). Ninguém muda de uma hora para outra muita coisa", conta Ricardo Rocha. "Ele foi muito execrado (em 90), então ele foi trabalhando a cabeça dele, porque virou o símbolo do 'mau futebol' e era um momento difícil. A liderança ele sempre teve, nunca mudou o estilo, gosta de ganhar. Ele tem esse gênio mais forte, aquele jeito ranzinza, mas só quem conhece o Dunga sabe... é um cara gente boa."

'A arte de roubar bolas'

Depois de estrear como técnico de futebol justamente na seleção, Dunga teve outra experiência no clube que o revelou, o Internacional, em 2013. Mas ficou lá por apenas dez meses, conquistando o Campeonato Gaúcho. Foi dispensando durante o Brasileirão. Ele tem mais jogos na carreira como técnico da seleção do que no universo dos clubes.

No período em que teve Dunga no comando, a seleção brasileira apresentava um jogo compacto na defesa e que explorava muito a velocidade nos contra ataques. As primeiras declarações do novo técnico indicam que a tendência será essa para o próximo ciclo.

"É muito legal falar em futebol arte, mas um goleiro fazer uma boa defesa também é arte, um zagueiro roubar uma bola também é arte. O Brasil sempre vai ter jogador de grande talento, mas tem que aliar esse talento ao comprometimento, ao trabalho, organização e equilíbrio emocional", falou Dunga.

"Todos falam em futebol ofensivo e pensam que isso é colocar quatro ou cinco atacantes. Na Copa do Mundo, as equipes marcaram cinco, dez metros atrás da linha do meio de campo. A única equipe que jogou ofensivamente neste Mundial foi o Chile, as demais equipes jogavam atrás, fechadinhas, buscando o contra ataque. Todo treinador começa organizando a parte defensiva para depois pensar na parte ofensiva."

Nova era

Dunga chega para assumir o Brasil em um momento de clamor por "renovação" no futebol jogado aqui. Em 2006, a "exigência" era por mais comprometimento dos jogadores com a camisa da seleção.

Na Copa da Alemanha, a estrelada seleção que tinha Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e companhia havia perdido para a França nas quartas de final e Dunga substituiu o então técnico Carlos Alberto Parreira para dar uma "cara nova" ao time brasileiro. Agora, o vexame histórico vivido na Copa do Mundo em casa, com a derrota por 7 a 1 para a Alemanha em pleno Mineirão, abriu a discussão sobre uma possível "reformulação" no futebol.

"Nós gostamos de falar de talento, mas elogiamos e muito a organização e o planejamento da Alemanha. Então nós devemos buscar dentro dessa organização o futebol com características do futebol brasileiro dentro do campo, com talento e qualidade", disse Dunga.

O novo técnico deixou nas entrelinhas, no entanto, que, assim como fez no ciclo entre 2006 e 2010, exigirá uma postura diferente dos jogadores da seleção.

"Teve muita coisa boa dessa Copa, mas outras que teremos que modificar. Vimos quanto é importante talento, mas também quanto é importante o planejamento. O marketing é importante, mas tem que ter resultado dentro de campo também".

Image caption Dunga deu a volta por cima e levantou a taça em 1994, calando os críticos

"É uma nova forma de ver as coisas. Temos que avançar em algumas coisas que a comissão antiga não teve tempo de fazer. O momento é esse. Teremos a chance de fazer algo que muitos não tentaram fazer. Vamos priorizar o coletivo, e não o individual", discursou o ex-goleiro Gilmar Rinaldi, que foi apontado como novo coordenador técnico da seleção. Ele teve papel decisivo na escolha de Dunga para retornar ao comando do time.

Gilmar, assim como Jorginho e Ricardo Rocha, fazia parte do grupo tetracampeão mundial em 1994. Quando assumiu o cargo, na semana passada, o ex-empresário criticou o fato de os jogadores da seleção estarem usando bonés com a mensagem #forçaNeymar antes da partida contra a Alemanha.

"Acho que a experiência que o Dunga tem, três Copas como jogador e uma como treinador, essa experiência é fundamental, vai dar tranquilidade pra essa seleção cheia de atletas jovens", comentou Rocha.

"Ele já esteve no Inter, então acumulou experiência, já trabalhou com a seleção, sabe a importância do planejamento. Ele não vê o jogo como torcedor, tem um olhar tático muito bom, sabe exatamente o que fazer. E o mais importante é que ele já foi jogador de seleção brasileira e sabe o que é importante para o jogador", pontuou Jorginho.

O jornalista esportivo Antero Greco, que cobriu as três Copas que Dunga jogou (1990, 1994 e 1998) e a que ele foi como treinador (2010), analisa que o técnico entra na seleção para "ser mais do mesmo" e a mudança esperada para o futebol brasileiro não deve vir com ele. "Estamos dando voltas e ficando no mesmo lugar. Não surge por um projeto de renovação. Então por enquanto me parece mais do mesmo, uma ação entre amigos. Mas estarei aberto pra reconhecer se o trabalho for diferente", disse à BBC Brasil.

"Ele foi o único dos cinco capitães que, levantando a taça, em vez de chorar ou de sorrir, xingava os fotógrafos e jornalistas ali", acrescentou Greco. O rótulo da "Era Dunga" pode ter sido determinante para a relação conturbada do Dunga-treinador com a imprensa, segundo o jornalista.

"Ele nunca digeriu a coisa da 'Era Dunga', ele deveria ter tratado essa mágoa, esse trauma, porque de 1990 em diante muita coisa boa aconteceu na carreira dele, teve muito reconhecimento, mas parece que nunca esqueceu isso", pontuou.