Iraquianos e curdos tentam conter avanço do Estado Islâmico

Combatente do Isis (foto: Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Avanço rápido da ofensiva de jihadistas no norte do Iraque faz 200.000 deixarem suas casas

Combatentes do Estado Islâmico (grupo anteriormente conhecido como Isis) tomaram duas cidades, dois campos de produção de petróleo e atacaram uma represa estratégica no norte do Iraque no fim de semana.

O avanço rápido dos insurgentes no norte do país fez o premiê Nouri Maliki oferecer apoio de sua força aérea para forças curdas – o que vem sendo interpretado como um possível primeiro passo para a reaproximação entre autoridades iraquianas e curdas.

Até então, as relações entre a região curda autônoma no norte do país e Bagdá era tensa, segundo analistas.

Os combatentes curdos, conhecidos como Peshmega, ainda não responderam à oferta, mas preparam um contra-ataque à ofensiva do Estado Islâmico.

Os curdos obtiveram autonomia desde 2005 e hoje são considerados umas das poucas forças disponíveis para enfrentar o Estado Islâmico na região.

Segundo as Nações Unidas, cerca de 200 mil pessoas tiveram que deixar suas casas no norte do Iraque devido à ofensiva dos militantes islâmicos.

No fim de semana, forças do Estado Islâmico tomaram as cidades de Sinjar e Zumar, além de dois campos de petróleo que estavam sob controle dos curdos.

Um canal de TV iraquiano afirmou que os militantes também tomaram a represa de Mosul no último domingo. Ela tem grande importância estratégica por ser uma das principais fontes de água e energia elétrica da região.

Analistas afirmaram também que, em teoria, a eventual destruição da represa poderia causar um alagamento de grandes proporções em Mosul que poderia causar muitas mortes.

'Táticas' do Estado Islâmico

Após a instalação unilateral de um "califado islâmico" no Oriente Médio, o Isis (sigla para Estado Islâmico no Iraque e no Levante) passou a se chamar simplesmente de 'o Estado Islâmico".

O programa de TV Panorama, da BBC, conversou no mês passado com um desertor do grupo jihadista. Ele contou que os combatentes criaram sua própria interpretação da sharia, a lei islâmica, e como passaram a adotar uma postura cada vez mais agressiva e "cruel" junto à população.

"A brutalidade do Isis aterroriza a todos. Minha família, meus primos, meus irmãos ainda estão lá. Eu temo por eles. Se o Isis não me alcançar, alcançará minha família".

O ex-combatente aceitou falar à BBC com a condição de não mostrar o rosto e não ter o nome revelado.

Ele resumiu as táticas dos jihadistas assim: "se você está contra mim será morto. Se você está contra mim então trabalhará para mim. Vai se submeter à minha vontade e me obedecer, sob o meu poder em todos os assuntos".

O correspondente Paul Wood se encontrou com o desertor na fronteira da Turquia com a Síria. O homem disse que se juntou inicialmente à brigada islâmica do Exército Livre da Síria para lutar contra o regime de Bashar al-Assad. Ele se juntou ao Isis porque toda a sua tribo se aliou ao grupo e porque acreditava na promessa de um Estado islâmico.

Suas primeiras ordens, como um combatente do Isis, foram de atender um curso sobre "sharia". "Não eram os princípios do Islã, eram os princípios do Estado Islâmico. Então eles te ensinavam o que queriam", disse ele.

Em um segundo estágio, os combatentes eram submetidos a um treinamento militar. Ele também explicou que o grupo aprendeu como combater no início da campanha de insurgência contra forças americanas no Iraque.

Ele disse também que o grupo passou a adotar uma estratégia diferente cada vez que conquistava uma nova cidade.

"No começo, o Isis usou a bondade com a população para a atraí-la. Eles forneceram tudo que o povo precisava para atraí-los rapidamente, porque tinham sofrido muito no regime de Bashar Assad".

"Quando o Isis conseguiu atrair as pessoas então mudaram dramaticamente, da bondade para a crueldade".

Sharia

Em todas as cidades e vilas controladas pelo grupo, o Isis implementou uma versão conservadora da sharia, obrigando os homens a usar barba e as mulheres a se cobrirem de véu completo.

"Qualquer coisa que contradiz sua crença é proibida. Qualquer uma que seguir o que eles rejeitam é um infiel e deve ser morto", disse o desertor.

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