'Efeito Guido' gera onda de ligações de argentinos que acham ser 'bebês sumidos' na ditadura

  • 12 agosto 2014
Guido e sua avó, Estella de Carlott | Foto: EPA Direito de imagem EPA
Image caption Ignacio Hurban, cujo nome era Guido, descobriu que é filho de prisioneira política morta pelos militares

A sede das Avós da Praça de Maio em Buenos Aires nunca esteve tão movimentada nos últimos anos.

Seus militantes estão recebendo um número recorde de ligações de pessoas que afirmam ter dúvidas sobre a sua própria identidade, suspeitando que podem ser um dos "bebês roubados" nos anos de regime militar.

Algumas avós estão chamando isso de "efeito Guido".

Na semana passada, a ativista de direitos humanos Estela de Carlotto reencontrou seu neto perdido, Guido, pela primeira vez desde que ele foi levado pela junta militar no final da década de 1970.

Ele procurou a organização no mês passado para fazer um teste de DNA, porque tinha dúvidas sobre sua identidade.

O professor de música de 36 anos, que foi criado por uma família de camponeses e foi batizado com o nome de Ignacio Hurban, descobriu a verdade sobre suas origens depois deste exames.

"Eu estava em casa, tocando piano, bebendo chá e comendo doces quando recebi a ligação. Eles me disseram que estavam com os resultados... Eu era o neto de Estela de Carlotto! Estou tão comovido, tudo aconteceu tão rápido, mas é maravilhoso e mágico", disse Guido sentado ao lado da avó em uma entrevista coletiva.

"Estou confortável com a verdade que chegou a mim, e estou feliz", acrescentou.

Impacto

Os militantes das Avós da Praça de Maio geralmente recebem entre dez e 40 ligações por dia de pessoas que têm dúvidas sobre as próprias identidades.

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Image caption Rosa Roisinblit (esq.) encontrou o neto graças a banco de dados genéticos criado por Avós da Praça de Maio

Mas, um dia depois de Ignacio Hurban ter descoberto que, na verdade, era Guido, neto de Estela de Carlotto, eles começaram a receber tantas ligações que tiveram que contratar mais funcionários.

"O impacto foi muito maior do que qualquer outra de nossas campanhas, nossos telefones continuam tocando", disse a ativista de 95 anos Rosa Roisinblit à BBC.

"Espero que mais jovens como Guido venham até a nós, acho que isto vai encorajá-los", acrescentou.

Rosa conseguiu encontrar o neto, Guillermo, em 2000.

Desde então ela se dedica a encontrar as crianças sequestradas durante a época da história argentina que ficou conhecida como "Guerra Suja".

"Estamos satisfeitas que Guido nos encontrou, ele veio até nós, foi uma missão cumprida. Mas ainda há trabalho a fazer."

A'Guerra Suja'

Em 1976 uma junta militar liderada pelo general Jorge Videla tomou o poder na Argentina. Os oposicionistas do regime foram perseguidos no que ficou conhecido como "Guerra Suja". Milhares de pessoas desapareceram.

Dois anos depois a Argentina venceu a Copa do Mundo que ocorreu no país em meio ao pouco conhecimento da comunidade internacional sobre as agressões do governo argentino.

Em 1981 o general Leopoldo Galtiere se transformaria no líder do regime militar e, no ano seguinte, a Argentina ocupava temporariamente as ilhas Malvinas, que eram mantidas pelos britânicos e chamadas por eles de Falklands.

Apenas em 1983 os civis voltaram ao governo da Argentina. No ano seguinte, a Comissão da Verdade relata as violações de direitos humanos durante o governo militar, registrando 9 mil casos de desaparecimento.

Durante os anos do regime militar cerca de 30 mil pessoas foram assassinadas, incluindo os pais de Guido.

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Image caption O ex-líder militar argentino Jorge Rafael Videla morreu na prisão em 2013

Mais de 100 crianças perdidas, filhas dos oposicionistas assassinados, foram encontradas, mas as Mães da Praça de Maio acreditam que ainda há outras 400 que não foram identificadas. O neto de Sonia Torres é uma destas crianças.

Ela é fundadora das Avós de Córdoba, uma organização que procura familiares perdidos na província argentina de Córdoba, que recebeu mais de 400 ligações apenas nesta semana.

Sonia contou que assistir à reunião de Estela de Carlotto com o neto deu esperanças. "Tenho confiança de que terei a alegria de abraçar meu neto antes de morrer."

A filha de Sonia, Silvia Parodi, foi sequestrada quando estava grávida e o parto aconteceu em uma instalação militar, como no caso da mãe de Guido e de muitas outras ativistas de esquerda na época.

Acredita-se que o filho de Silvia foi levado depois do parto e adotado.

"Ele deve estar com 38 anos agora, sei que ele está vivo e entre nós, bem escondido. Mas, um dia, ele vai bater na porta e dizer 'vovó, estou aqui'", disse.

Procura

Estas mulheres passaram metade da vida tentando resolver um enigma.

A maioria dos filhos e filhas delas teve as mortes presumidas porque a junta militar raramente deu aos familiares a permissão para enterrar os corpos.

Mas as Avós da Praça de Maio sabem que os bebês e crianças estão em algum lugar, vivendo com identidades diferentes.

É por isso que, nos últimos anos, elas lançaram campanhas na imprensa e em redes sociais para estimular homens e mulheres na faixa etária dos 30 anos, que tenham dúvidas sobre suas histórias pessoais, a fazer testes de DNA, que poderão ser comparados com os registros no banco nacional de dados genéticos.

Durante a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, jogadores como Lionel Messi e Javier Mascherano deram apoio à uma das campanhas de maior sucesso das avós até o momento.

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Image caption Estela de Carlotto (esq.) trabalhou durante décadas para reunir os bebês roubados com os pais biológicos

A campanha foi chamada de "Estamos Procurando Vocês Pelas Últimas Dez Copas do Mundo".

Muitas outras personalidades do esporte, atores e políticos apoiam as avós, incluindo alguns dos netos "recuperados", que agora são membros do Congresso ou ativistas de direitos humanos.

Longa espera

No entanto, estas mulheres sabem que não será fácil encontrar todos os desaparecidos.

"Não podemos esperar que todos estes jovens venham à nós qualquer dia destes. Sabemos que estes homens e mulheres não virão em massa para fazer exames de sangue", disse Rosa Roisinblit.

"Este caso (o de Guido) pode ajudar a espalhar a notícia, mas ainda precisamos ser pacientes."

As avós esperaram durante os últimos 40 anos e agora têm idades que variam entre 80 e 90 anos.

Elas sabem que o tempo está se esgotando, mas não estão resignadas.

"Levamos 36 anos para encontrar 114 netos. Imagine quanto tempo precisaremos para encontrar os 400 que ainda estão desaparecidos", acrescentou Rosa.

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