'Professores reclamam mais do medo que do salário', diz psiquiatra

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À frente de sessões de terapia em grupo para professores da rede pública há mais de 25 anos, o psiquiatra Lenine da Costa Ribeiro diz que as agressões físicas e verbais vindas de alunos são os principais motivos de doenças psicológicas entre os educadores que recorrem ao divã.

Segundo o médico do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo, seis em cada dez professores não conseguem mais voltar às salas de aula após enfrentarem episódios de agressões graves - como humilhação, ameaças e ataques físicos.

O tema da violência em sala de aula contra professores também foi destacado em posts de Facebook e no Twitter por leitores em consultas promovidas pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais em busca de uma maior integração com o público.

A pedido da BBC Brasil, internautas, entre eles professores, compartilharam, via Facebook, diferentes relatos sobre violência cometida contra profissionais de ensino. Houve também depoimentos feitos via Google+ e Twitter.

De acordo com Ribeiro, assumindo cargos de "readaptação", como funções na secretaria ou na biblioteca escolar, esses educadores tendem a ser vistos como figuras menos importantes do que aqueles que seguem dando aulas.

Desinteresse pela vida, depressão, perda de memória e problemas de cognição são algumas das consequências da violência no cotidiano das escolas, diz o psiquiatra. Leia, a seguir, os principais trechos da conversa:

BBC Brasil - A violência na escola é um tema recorrente nas sessões de terapia?

Lenine da Costa Ribeiro - O medo dos alunos, as situações de agressão e humilhação e a sensação de impotência são as queixas mais comuns nas reuniões. Fala-se sempre sobre salário ou infraestrutura das escolas, mas a insegurança do professor em relação aos alunos é um tema bem mais frequente. Os professores reclamam mais do medo que do salário.

BBC Brasil - Quais são suas consequências para a saúde dos professores?

Ribeiro - Surgem transtornos de ansiedade generalizada. O estresse pós-traumático é um agravamento importante da saúde mental e leva a sintomas como pânico em diferentes níveis, falta de interesse pela vida, depressão, perdas de memória, dificuldades de cognição e fobias distintas. São sintomas que não respondem rápido aos tratamentos e que por isso costumam ser longos, assim como os períodos de afastamento, que chegam a durar mais de um ano.

BBC Brasil - Como é esse tratamento?

Ribeiro - Primeiro, com medicação. Antidepressivos e neuromoduladores. O tratamento medicamentoso tenta abreviar o sofrimento o mais rápido possível, mas também são necessários pelo menos dois anos de monitoramento. Neste período o professor participa de sessões de psicoterapia feitas em grupo, onde todos compartilham e discutem experiências. Muitos deles são afastados das escolas até que consigam se recuperar.

BBC Brasil - Quais são os principais relatos compartilhados nas sessões?

Ribeiro - Há pessoas que tinham grande capacidade de dar aulas, articulação didática, e que ficaram completamente apáticas. O mais frequente é a incapacidade do professor de dar aula porque está sendo impedido agressivamente. Ele não consegue mais se impor e perde toda a autoridade diante da turma. Ameaças também são frequentes, não são só ameaças contra a vida, mas contra o patrimônio da pessoa, como esvaziar os pneus do carro, por exemplo. O maior medo é sofrer reprimendas na rua, depois das aulas, fora da escola.

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BBC Brasil - Algum caso que o tenha marcado?

Ribeiro - Uma professora tinha advertido um aluno em sala. Na reunião de pais, a família, particularmente o pai, foi muito intensamente agressivo no auditório repleto de pessoas. Seu discurso era raivoso e acusador. Depois desse evento, ela nunca mais pode funcionar da mesma maneira. A maneira agressiva com que ele tentou tirar satisfações foi tão hostil e a estressou de tal forma que essa a professora nunca mais conseguiu dar aulas. A humilhação é tão dolorosa quanto a agressão física. São várias as formas de violência.

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Image caption O leitor Leo Gomes comentou o tema via Twitter

BBC Brasil - Pode falar sobre estas diferentes formas de agressão?

Ribeiro - A violência física não costuma ser tão explícita, ela é menos comum. Na rotina mesmo estão as agressões verbais, a desconsideração, um desrespeito profundo à condição do professor. O que acontece é uma descaracterização de seu papel. O educador, aquela pessoa que seria central e determinante na construção de um sujeito, de um indivíduo, de uma personalidade, é tirado de seu lugar. Isso é muito grave, tem consequencias muito importantes, porque cada agressão afeta não só a relação do professor com o agressor, mas também com todos os demais alunos.

BBC Brasil - É comum que os professores extravazem este estresse agressivamente sobre os alunos?

Ribeiro - Quem está limitado não costuma criar enfrentamentos. Essas pessoas costumam ter respostas mais apáticas, por conta da ansiedade, da depressão. Isso tudo acaba colocando o professor numa situação de limitação e quase sempre quem está limitado não consegue entrar em situações de enfrentamento.

BBC Brasil - Como é o retorno destes professores à sala de aula?

Ribeiro - O que vejo nesses casos é que o retorno acontece quase sempre de forma readaptada, e não à sala de aula. Uma porcentagem importante, em torno de 60% dos pacientes, volta para a escola ocupando funções administrativas, ou na biblioteca, na secretaria. A readaptação é às vezes a única maneira de dar continuidade ao cargo. Este retorno é muito difícil.

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BBC Brasil - Como as escolas costumam reagir aos pedidos de afastamento?

Ribeiro - Posso falar sobre o momento do retorno. Os readaptados dizem sempre sofrer algum tipo de prejuízo. Isso acaba se tornando parte da própria condição social deles. Acabam sendo vistos como uma posição de menos valia, o que causa baixa autoestima. É como se eles passassem a ter menos valor do que aqueles que estão lecionando.