França oferece bônus para atrair professores a áreas violentas

  • 27 agosto 2014
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Image caption Filme premiado em Cannes foi baseado em experiências do professor François Bégaudeau, que acabou estrelando a película

O filme francês Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2008, que retrata as dificuldades de um professor em um colégio de uma área carente, dá uma boa ideia do clima tenso enfrentado por muitos educadores do país.

O filme foi inspirado no livro homônimo de François Bégaudeau, que se baseou em suas experiências como professor em uma escola - e interpreta a si mesmo no longa-metragem.

Na França são frequentes nos noticiários casos de agressões contra professores; um foi esfaqueado por criticar o estado do caderno de um aluno, outro foi atacado com gás lacrimogênio.

O tema da violência em sala de aula foi apontado por internautas, via redes sociais, como um dos assuntos que eles acreditam que deveria ter mais destaque na campanha eleitoral brasileira. E o assunto gerou inúmeras discussões em nossas páginas de Facebook, Twitter e Google+.Participe da discussão você também.

Marie, uma jovem professora em uma periferia pobre de Paris, sofreu golpes com um soco americano em plena sala de aula.

O agressor era o amigo de um aluno,"contratado" para bater na professora e evitar que ela distribuísse os boletins de notas.

Em Lyon, um professor de educação física foi agredido com um cassetete pelo pai de uma aluna. Poucos instantes antes, ele havia expulsado a garota da aula porque ela estava atrapalhando as atividades.

Houve casos bem mais dramáticos: a professora de matemática Lise Bonnafous se imolou em frente aos alunos durante o recreio em um liceu em Béziers, no sul da França. A instituição possui 3 mil estudantes e tem reputação de ser "problemática", segundo a imprensa francesa.

Ela deixou um bilhete afirmando "é para vocês". Não se sabe se a mensagem era destinada aos estudantes, professores ou mesmo aos pais de alunos - mas seu gesto foi interpretado como um ato de desespero em relação ao trabalho.

A morte de Bonnafous chocou o liceu de Béziers. Alunos fizeram uma passeata para homenagear a professora.

A tensão nas escolas acabou deixando marcas profundas na categoria. Apenas 5% dos professores franceses acham que seu trabalho é valorizado pela sociedade, segundo um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que ouviu mais de 100 mil professores em 34 países; os franceses ficaram apenas à frente da Eslováquia nesse quesito.

Educação prioritária

Os casos expõem os desafios do governo francês, que apostou em um programa especial de educação destinado às áreas mais carentes das zonas urbanas como forma de combater a desigualdade.

O governo identificou "zonas de educação prioritárias" (ZEPs) nos anos 80 em áreas com populações desfavorecidas - muitas delas habitadas por imigrantes.

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Image caption 'Trabalhar em um colégio difícil pode ser gratificante', diz professora agredida.

As ZEPs recebem mais meios financeiros para tentar equilibrar o desempenho dos alunos de áreas pobres com os do restante do país. Também há menos estudantes por sala de aula.

Mas o sistema só atrai professores em início de carreira, sem experiência, e substitutos temporários.

Marie, a professora agredida com um soco americano para impedir a distribuição dos boletins, trabalhava em uma ZEP na região da Seine Saint-Denis, a periferia pobre de Paris onde, em 2005, eclodiu a onda de violência que acabou se espalhando por subúrbios de toda a França.

Apesar da agressão, ela defendeu o programa e ressaltou a importância da figura do professor.

"Trabalhar em um colégio difícil pode ser gratificante. Em uma ZEP somos mais úteis", disse ela após a agressão.

"Não acho que as ZEPs devam ser reservadas aos professores experientes. É preciso ser jovem e ter bastante energia porque é muito desgastante. Sofremos empurrões no corredor e temos de intervir em brigas", disse Marie, cujo sobrenome não foi divulgado.

Décadas após a criação do programa de educação prioritária, os resultados são considerados decepcionantes até mesmo pelas autoridades francesas.

Apenas a metade de estudantes das ZEPs consegue atingir o nível exigido em francês, por exemplo, contra 81% nas demais escolas.

Para tentar reverter a situação, o governo anunciou em janeiro mais uma reforma dessas redes prioritárias de ensino. Entre as medidas,"estímulos fortes para estabilizar as equipes de professores e reconhecer o investimento profissional", segundo o ministério da Educação.

O bônus salarial, de pouco mais de € 1,1 mil por ano (R$ 3,3 mil) recebido atualmente, será dobrado a partir de 2015 para os professores que trabalham nas escolas consideradas "mais difíceis", diz o governo, e aumentará 50% no restante das zonas prioritárias.

A reforma prevê ainda dois professores por sala nos cursos de ensino fundamental nas ZEPs até 2017 e a escolarização de crianças de menos de 3 anos nessas zonas.

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