Presidente francês anuncia novo gabinete e agrava ‘briga’ com seu partido

Presidente francês Francois Hollande (Foto: AFP) Direito de imagem AFP
Image caption Presidente francês quer novo gabinete que não conteste decisões sobre cortes de gastos públicos

O novo gabinete de governo na França, anunciado nesta terça-feira após intensas negociações, assume a guinada social-liberal do presidente François Hollande. Ela vem sendo criticada por membros de seu próprio partido, o socialista, e provocou uma grave crise política no país.

Hollande havia solicitado na segunda-feira a criação de uma equipe de governo "em coerência com as orientações que ele definiu para o país".

Na prática, isso significa um gabinete que não conteste decisões como cortes de gastos públicos para diminuir o déficit ou concessões de benefícios fiscais às empresas.

A medida foi tomada após as severas críticas feitas contra a política econômica da França pelo próprio ministro da Economia, Arnaud Montebourg, diante das câmeras no final de semana e também pelo ministro da Educação, Benoît Hamon, personalidade da ala de esquerda do partido socialista.

"A redução forçada dos déficits públicos é uma aberração econômica, um absurdo financeiro e um desastre político", declarou o ex-ministro da Economia.

Há vários meses Hollande enfrenta oposição da ala de esquerda de seu partido, que defende medidas para estimular o consumo, como cortes de impostos e aumentos de benefícios sociais para permitir a retomada econômica.

Essa linha do partido critica os planos de austeridade e o chamado "pacto de responsabilidade", que irá reduzir em bilhões de euros os impostos e encargos sociais das empresas com o objetivo, segundo o governo, de aumentar a competitividade.

Para essa ala do partido socialista, o governo deveria deixar de lado as metas de redução do déficit público exigidas pelas autoridades europeias e consideradas fundamentais também pela Alemanha.

Surpresa

A decisão, na segunda-feira, de anunciar a demissão de todo gabinete de governo e formar uma equipe "em adequação com a linha econômica do Executivo", foi uma surpresa geral na França.

Normalmente, apenas o ministro envolvido em polêmicas deixa o cargo.

Foi uma surpresa inclusive para o próprio Montebourg, que na manhã de segunda-feira havia declarado não pensar em sair do cargo.

O primeiro-ministro, Manuel Valls, apresentou a demissão de todo o gabinete de governo e foi incumbido por Hollande de formar uma nova equipe apenas cinco meses após ter assumido o cargo e já ter realizado um remanejamento.

Essa não foi a primeira vez que ministros criticaram as políticas de governo de Hollande, mas até então o presidente havia adotado uma postura conciliadora.

Desta vez, talvez também por pressão do primeiro-ministro, considerado por muitos como o político mais à direita no partido socialista, Hollande deixou claro que só haverá lugar no governo para quem apoia suas decisões.

Desde então, foram intensas negociações para formar o novo gabinete, com 16 ministros, oito homens e oito mulheres. O partido ecologista se recusou a reintegrar o governo.

No final, a grande maioria do novo gabinete já integrava a equipe anterior e foi mantida no cargo.

Alguns anunciaram espontaneamente a saída do gabinete já na segunda-feira, como a ministra da Cultura e o da Educação.

O novo ministro da Economia, Emmanuel Macron, que atuava como conselheiro de Hollande, participou da criação do "pacto de responsabilidade" que concede benefícios fiscais às empresas.

"Macron é o homem-chave dos bancos e das finanças. A política do governo é cada vez mais de direita", afirmou Pierre Laurent, secretário-geral do partido comunista francês.

Pela primeira vez, uma mulher, Najat Vallaud-Belkacem, ficará a cargo da pasta da Educação, substituindo Benoit Hamon. Belckacem era a ministra dos Direitos da Mulher no último gabinete.

Em outra mudança importante, Fleur Pellerin foi nomeada ministra da Cultura, substituindo Aurelie Filippetti.

Riscos

O quarto remanejamento de governo desde que Hollande assumiu a Presidência, em 2012, ocorre semanas antes da votação do polêmico orçamento - que prevê 50 bilhões de euros de cortes nos gastos públicos até 2017.

Analistas estimam que ao clarificar sua linha econômica e se privar de representantes da ala mais à esquerda do partido, Hollande e Valls correm o risco de ter sua margem de manobra reduzida no Parlamento.

Um grupo de deputados socialistas, chamado "frondeurs" (críticos), têm demonstrado publicamente sua oposição às políticas do governo.

Por enquanto, eles não impediram a aprovação de medidas. Mas não se sabe ainda se a crise política poderá ampliar o número de descontentes e fazer com que socialistas votem contra projetos do governo.

A crise política ocorre em meio à crise econômica, com desemprego em alta, crescimento nulo e déficit público que deve superar 4% do PIB neste ano, no mesmo patamar do ano passado. Ou seja, as metas de redução não deverão ser cumpridas.

"Este novo governo é a última chance de Hollande para salvar o seu mandato", escreveu o jornal Le Monde em editorial.

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