Putin quer discutir soberania do leste da Ucrânia; UE dá 'ultimato' a Moscou

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Image caption Tropas ucranianas têm sofrido derrotas com o avanço de rebeldes separatistas

O presidente russo, Vladimir Putin, pediu conversas para discutir "soberania" para o leste da Ucrânia, informou a imprensa local, após a União Europeia ter dado a Moscou um ultimato para reverter suas ações na Ucrânia ou enfrentar novas sanções.

Putin disse que a questão de soberania precisa ser discutida para garantir que os interesses da população local "sejam definitivamente apoiados". Segundo ele, é impossível prever o fim da crise.

"Isso depende muito da vontade política das atuais autoridades ucranianas", disse Putin, citado pela agência de notícias russa Itar Tass.

"A Rússia não pode ficar de fora quando pessoas estão sendo alvejadas quase à queima roupa", disse.

Os comentários de Putin ocorreram após a UE ter dado um prazo de uma semana à Rússia para reverter suas ações no país vizinho.

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, disse que o bloco estava trabalhando com urgência em novas medidas contra a Rússia, mas não detalhou quais áreas seriam atingidas pelas restrições adicionais.

"Todos estão conscientes que temos que agir rapidamente", disse ele, após reunião do bloco europeu em Bruxelas. As propostas deverão estar prontas em uma semana.

A medida foi apoiada pelos Estados Unidos. A UE e os EUA já impuseram congelamentos de bens e restrições de viagens a várias autoridades russas e líderes separatistas no leste da Ucrânia.

As sanções ocidentais também atingem empréstimos a bancos estatais russos e bloqueiam exportações de tecnologia na área da defesa e de produtos derivados do petróleo à Rússia.

Putin repudiou as ameaças da UE, acusando o bloco de "apoiar um golpe de Estado" na Ucrânia.

O Ocidente alega que tropas russas invadiram o território ucraniano para dar apoio e armamento a separatistas que atuam no país. Moscou nega estar ajudando os rebeldes, e acusa forças ucranianas de usarem força e atingirem civis deliberadamente.

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Image caption Confrontos na Ucrânia foram iniciados em abril e já mataram mais de 2.600 pessoas
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Image caption Rebeldes pró-Rússia dizem que a ofensiva deles irá continuar
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Image caption A Ucrânia alega que a Rússia envia armamento a separatistas que atuam no leste

Cerca de 2.600 pessoas já morreram no conflito, iniciado em abril após a anexação pela Rússia da península da Crimeia, no sul da Ucrânia, em março.

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, disse que seu país estava "perto de um ponto sem volta - uma guerra total" com a Rússia.

Tropas cercadas

Rebeldes pró-Rússia têm avançado contra tropas da Ucrânia nos últimos dias nas regições de Donetsk e Luhansk, no leste.

O porta-voz militar ucraniano Andriy Lysenko disse no sábado que tanques russos atacaram a cidade de Novosvitlivk, perto de Luhansk, e "destruíram praticamente todas as casas". Tropas do governo foram ordenadas a se retirar de Novosvitlivk, disse.

Soldados ucranianos também tentam deixar Ilovaisk, na região de Donetsk, cercada por rebeldes. Relatos dizem que diversos soldados foram mortos em ataques de separatistas.

O líder rebelde Alexander Zakharchenko disse a uma rádio russa que uma nova ofensiva está sendo planejada para criar um corredor entre Donetsk e Luhansk.

No sudeste da Ucrânia, pessoas estão abandonando a cidade portuária de Mariupol, após rebeldes terem capturado Novoazovsk.

Autoridades ocidentais e ucranianas dizem que essa ofensiva tem recebido grande apoio de tropas russas, abrindo uma nova frente. Rússia nega a acusação.

A imprensa russa informou no domingo que 10 paraquedistas russos voltaram para casa em troca de 63 soldados ucranianos capturados e detidos pela Rússia.

Mas como a situação chegou a este ponto? Veja algumas perguntas e respostas sobre a crise na Ucrânia.

Houve uma invasão russa?

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Image caption Há cinco meses, os grupos pró-Rússia lutam pela independência de parte do leste do país

Na quinta-feira, a Otan divulgou imagens de satélite que alegou mostrar forças russas dentro da Ucrânia. Seriam mais de 1.000 soldados.

Antes, Poroshenko havia declarado em Kiev que se reuniria com seu conselho de segurança para discutir o que chamou de "invasão russa" a seu país.

Nos Estados Unidos, onde muitos esperavam uma resposta às notícias de envio de tropas russas à Ucrânia, o presidente Barack Obama se recusou a chamar de "invasão" as últimas ações russas, mas responsabilizou Moscou pela violência na região.

Mas a Otan foi contundente na sexta-feira. O secretário-geral da organização, Anders Fogh Rasmussen, declarou que estava claro que a Rússia "havia cruzado ilegalmente" a fronteira da Ucrânia. E pediu que Moscou interrompesse o que chamou de "ações militares ilegais".

Os confrontos seguem?

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Image caption Cidades do leste ucraniano, como Novoazovsk, estão sob o bombardeio de rebeldes

No início desta semana, o Exército ucraniano conseguiu recuperar o que disse ser "grande parte" do território até então controlado por separatistas ao redor das cidades de Donetsk e Luhansk.

Mas, na quinta-feira, quando teve início a crise se agravou ainda mais, houve relatos de que rebeldes pró-russos haviam tomado a cidade costeira de Novoazovsk e ameaçavam capturar o estratégico porto de Mariupol, no sul do país.

Combates também estariam ocorrendo ao redor de Donetsk e Luhansk.

Este avanço dos rebeldes marcou o início de uma nova frente no conflito entre o governo da Ucrânia e separatistas pró-Rússia.

Posteriormente, em um discurso incomum dirigido aos separatistas pró-Rússia na Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, elogiou o que chamou de êxitos da ofensiva na região. Pediu também o estabelecimento de um "corredor humanitário" para permitir a retirada de unidades do Exército ucraniano cercadas.

Isso significa que a Rússia está ajudando os rebeldes?

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Image caption O governo russo é alvo de críticas dos líderes europeus e dos Estados Unidos por sua ação no conflito

A Ucrânia indicou que o fato dos rebeldes terem recebido um recado direto de Putin mostra que quem os controla é a Rússia.

E tanto Kiev quanto seus aliados têm reiterado que Moscou está por trás da ofensiva rebeldes no leste do país.

A pergunta que muitos se fazem é: qual o tamanho da ajuda que está sendo orquestrada pelos alto níveis do Kremlin?

Moscou nega que esteja ajudando ou armando rebeldes. Mas um dos líderes rebelde em Donetsk declarou na quinta-feira que entre 3 mil e 4 mil cidadãos russos estariam entre suas forças.

As imagens da Otan publicadas na quinta-feira mostram o que, segundo a organização, há comboios militares russos dentro de território ucraniano.

Por que esse conflito importa para a Europa e o resto do mundo?

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Image caption A violência do combate entre o Exército ucraniano e rebeldes já deixou mais de 300 mil refugiados

Esta é vista como a maior crise de segurança na região desde a Guerra Fria.

Há anos, a UE trabalha para estabelecer vínculos com a Ucrânia. Mas a Rússia também tem se esforçado para que a Ucrânia se una a seus tratados de comércio com outras ex-repúblicas soviéticas.

A Ucrânia está situada em uma importante área geopolítica: dividida entre o Ocidente e o Oriente e com tensões internas que não conseguiu resolver desde o colapso da União Soviética, em 1991.

A Otan, a UE e os EUA acusam a Rússia de intimidar a Ucrânia e dizem que as táticas que Moscou usa são inaceitáveis.

No entanto, nenhum dos aliados tem respondido às críticas às táticas que a Ucrânia usa contra separatistas, que incluem o bombardeio de áreas civis nos enclaves rebeldes.

Um relatório da ONU do início de agosto indica que 2.119 pessoas morreram no leste da Ucrânia desde o início do conflito.

Calcula-se que 115.800 pessoas partiram para outras partes da Ucrânia e cerca de 188.000 foram para a Rússia.

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