Conflito força mais de um milhão a deixarem suas casas na Ucrânia

Tropas britânicas participam de exercício em Drawsko Pomorski, na Polônia (Foto: EPA) Direito de imagem EPA
Image caption Otan planeja força militar de pronta resposta para agir em caso de agressão russa no leste europeu

A ONU confirmou nesta terça-feira o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar suas casas por causa do conflito na Ucrânia disparou no último mês e que já há mais de um milhão delas nessa situação.

Levando em conta apenas as pessoas deslocadas internamente dentro da Ucrânia, o número teria dobrado nas últimas três semanas, chegando a pelo menos 260 mil.

De acordo com a Rússia mais de 800 mil pessoas buscaram abrigo em seu território em decorrência do conflito, que contrapõe forças ucranianas e rebeldes separatistas pró-Rússia. Apenas cerca de 150 mil dessas pessoas teriam se registrado como refugiadas, enquanto muitas outras estão sendo acomodadas com amigos e familiares.

Além de procurarem a Rússia, alguns ucranianos afetados pelo conflito também fugiram para a Polônia, para Belarus e para os países bálticos.

Cerca de 2,6 mil pessoas foram mortas desde que o conflito começou, em abril.

O alto-comissário da ONU para refugiados, Antonio Guterres, advertiu que se o conflito não acabar rapidamente, ele poderá ter consequências devastadoras para a população ucraniana e desestabilizar todo o leste da Europa.

Mudança de estratégia

Também nesta terça-feira, uma autoridade russa disse que o país está para modificar sua estratégia militar como resultado da crise na Ucrânia e da presença da Otan (aliança militar ocidental) no leste da Europa.

Na segunda-feira, a Otan afirmou que elevará sua presença no leste da Europa para proteger os membros dela. No mesmo dia, o Ministério da Defesa da Ucrânia acusou a Rússia de iniciar uma "grande guerra" que pode levar dezenas de milhares de vidas. A afirmação foi negada pela Rússia, que diz não estar apoiando os rebeldes.

Mikhail Popov, vice-secretário do Conselho Nacional de Defesa da Rússia, afirmou que a deterioração das relações com os Estados Unidos e a Otan refletirá em uma atualização da estratégia, mas não deu mais detalhes sobre quais serão as alterações na doutrina militar do país.

Ele disse à agência de notícias RIA Novosti que "a infraestrutura militar dos Estados-membros" estaria "chegando perto das fronteiras (russas), inclusive por ampliação".

As ações da Otan, avalia ele, seriam uma das "ameaças chave" contra a Rússia.

"A ação planejada da Otan é uma evidência do desejo dos líderes dos Estados Unidos e da Otan de continuar sua política de agravar as tensões com a Rússia", afirmou Popov.

Força de resposta

A Otan havia anunciado na segunda seus planos para criar uma força de resposta rápida para proteger seus membros do leste europeu contra uma possível agressão da Rússia.

A força, que seria composta por tropas enviadas por Estados-membros de forma rotativa, poderia de entrar em ação em 48 horas, segundo o secretário-geral da ONU, Anders Fogh Rasmussen.

Equipamentos militares e suprimentos serão posicionados nos Estados-membros do leste para que a força possa "viajar leve, mas atacar pesado se necessário".

Rasmussen insistiu que os planos não violam um tratado firmado entre a Otan e a Rússia em 1997, que proíbe a presença de bases permanentes na Europa central e oriental.

As novas medidas devem ser aprovadas na cúpula da Otan no País de Gales nesta semana. Por outro lado, a aliança também indicou que não instalará novas bases no leste europeu.

Mas isso não foi suficiente para amenizar os ânimos. Os comentários de Popov sinalizam que as novas ações da aliança influenciarão o plano de defesa da Rússia. Crescem cada vez mais, no entanto, há dúvidas sobre até onde o Kremlin está disposto a ir para influenciar a luta na Ucrânia.

A Otan tem 28 Estados-membros, inclusive países da Europa Oriental, como a Polônia e a República Tcheca. Mas não inclui a Ucrânia.

O premiê ucraniano, Arseny Yatsenyuk, afirmou que pretende colocar o país no caminho de se tornar membro da Otan.

Por sua vez, o chanceler russo, Sergei Lavrov, disse nesta terça-feira que esforços nesse sentido estão "minando" as tentativas de chegar à paz com os rebeldes.

"Em duas semanas"

Negociações de crise entre autoridades ucranianas, rebeldes e enviados da Rússia terminaram sem acordo na segunda-feira.

O exército ucraniano foi forçado a se retirar depois de uma série de avanços feitos por rebeldes pró-Rússia nas regiões de Luhansk e Donetsk e também mais ao sul, nos arredores do porto de Mariupol.

O porta-voz Andriy Lysenko afirmou que 15 militares foram mortos nas últimas 24 horas. Outros 49 foram feridos.

Na segunda-feira, o exército ucraniano se retirou do aeroporto de Luhansk após ser atacado por tanques russos.

A chefe de fato da administração regional e Luhansk, Irina Verihina, disse ao canal ucraniano 112 TV: "Nossas tropas se retiraram, mas a pista está completamente destruída. Não é possível que aviões pousem lá".

O presidente ucraniano, Petro Poroshenko, acusa a Rússia de "agressão direta e aberta contra a Ucrânia".

O Kremlin tem negado repetidamente acusações da Ucrânia e do Ocidente de estar fornecendo armas e equipamentos para os rebeldes.

Enquanto isso, um oficial russo reagiu às alegações de que o presidente russo Vladimir Putin teria dito que, “se quisesse”, poderia tomar Kiev em duas semanas.

A afirmação teria sido feita por Putin em um telefonema ao presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso e foi publicada no jornal italiano La Repubblica.

O conselheiro do Kremlin Yuri Ushakov disse a repórteres que as palavras "foram usadas fora de contexto e tinham um significado totalmente diferente".

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