Tensão com Rússia domina cúpula da Otan; entenda

Líderes da Otan se encontram com presidente ucraniano Petro Poroshenko neta quinta-feira (EPA) Direito de imagem Getty
Image caption Encontro deve ser fundamental para decidir novos rumos da aliança

Líderes da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) que reúne Estados Unidos, Canadá e países europeus, se encontram a partir desta quinta-feira na cidade de Newport, no País de Gales, para uma cúpula que deve ser fundamental para decidir os rumos que a aliança militar seguirá nas próximas décadas.

O encontro - que conta com a presença do presidente americano, Barack Obama, e do primeiro-ministro britânico, David Cameron, entre outros - deve ser dominado por temas que recentemente vêm afetando os países da aliança e de outras partes do mundo, entre eles a guerra no Afeganistão e o surgimento do Estado Islâmico (EI) no Oriente Médio.

Mas a questão que deve se sobrepor na agenda de discussões deve ser a relação da aliança com a Rússia, estremecida desde o início da crise na Ucrânia, onde conflitos entre tropas governistas e rebeldes separatistas já mataram cerca de 2,6 mil pessoas nos últimos cinco meses.

Segundo as Nações Unidas, mais de 1 milhão de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas no leste da Ucrânia devido aos confrontos.

De acordo com os líderes ocidentais, existem evidências de que os rebeldes separatistas na Ucrânia têm recebido treinamento e armas por parte da Rússia, o que é negado pelo governo de Vladimir Putin.

A tensões na Ucrânia fizeram com que as relações entre a Rússia e o Ocidente atingissem seu pior nível em anos, e há temores de que hostilidades similares às da Guerra Fria estejam retornando, em um momento em que outras ex-repúblicas soviéticas temem interferências por parte da Rússia.

Mas a crise no país do leste europeu não é o único ponto de atrito entre as duas partes. Veja as principais questões que tensionaram as relações entre a Rússia e os países ocidentais nos últimos anos.

Expansão da Otan para o leste

O fim do comunismo na União Soviética fez com que os governos de países do leste e do centro da Europa passassem a enxergar a adesão à Otan como uma espécie de proteção contra eventuais agressões por parte da Rússia e como um sinal de comprometimento com os valores ocidentais.

Em 1999, uma década após a queda do Muro de Berlim, a Otan admitiu como membros três antigos integrantes do Pacto de Varsóvia (a aliança militar liderada pela União Soviética, extinta em 1991): República Tcheca, Hungria e Polônia.

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Image caption Aliança ocidental iniciou expansão para o Oriente nos anos 1990

Outros ex-países do bloco comunista acabaram por aderir à aliança ocidental em 2004: os Estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), Bulgária, Romênia, Eslováquia e Eslovênia.

A expansão da Otan para os países bálticos irritou a Rússia de maneira particular, já que estes Estados faziam parte da antiga União Soviética e são tradicionalmente considerados por Moscou como "vizinhos próximos", expressão comumente utilizada por políticos russos para argumentar que estes países não deveriam agir contra os interesses estratégicos do Kremlin.

Durante a cúpula no País de Gales nesta semana, a Finlândia – que não é membro da aliança – irá assinar um tratado de "Nação Anfitriã" com a Otan. Isto vai fazer com que o país, que divide uma grande extensão de fronteira com a Rússia, passe a dar apoio logístico – embora não vá servir como base – às operações do consórcio.

A Suécia também planeja assinar um acordo semelhante, em data ainda não confirmada, o que vai abrir caminho para adesão formal dos dois países nórdicos ao bloco no futuro.

Em 2008 a Otan também sinalizou a possível adesão da Géorgia, no que foi visto pelo Kremlin como uma provocação direta, assim como aconteceu diante da possibilidade de uma aproximação da Ucrânia com a aliança ocidental.

Sistema de defesa antimísseis

O desenvolvimento de um sistema de defesa antimísseis balísticos por parte dos Estados Unidos, com infraestrutura em países do leste europeu, também é um dos pontos de atrito da aliança com a Rússia.

A Otan argumenta que o escudo de interceptação de mísseis será exclusivamente defensivo, sem oferecer nenhuma ameaça à Rússia, e que sua instalação teria o objetivo de evitar ataques de países como a Coreia do Norte e o Irã.

A Rússia expressou o desejo de participar do desenvolvimento do sistema, mas essa opção não foi levada à frente. Mesmo assim, a Otan iniciou a implantação de interceptores de mísseis e radares na Romênia, República Tcheca e Polônia.

Em dezembro de 2013, a Rússia instalou mísseis móveis táticos Iskander em seu enclave em Kaliningrado – que fica entre a Polônia e a Lituânia – em resposta ao projeto da Otan.

Guerra contra Geórgia

O breve conflito entre a Rússia e a Geórgia em agosto de 2008 também estremeceu as relações entre Moscou e a Otan.

Durante a guerra, os russos apoiaram os separatistas nas regiões georgianas da Ossétia do Sul e da Abecásia e enviaram tropas para o território da Geórgia, chegando a se aproximar inclusive da capital, Tbilisi. À época, os países ocidentais classificaram as ações da Rússia como desproporcionais, o que não impediu que – a despeito da posição da maior parte da comunidade internacional – Moscou ainda reconhecesse posteriormente as duas regiões como países independentes.

Como resultado, a Otan suspendeu o conselho formado pela aliança e a Rússia em 2002, e o Kremlin determinou o fim da cooperação militar com a Otan.

Guerra em Kosovo

A Rússia é um aliado histórico da Sérvia e ofereceu apoio a Belgrado durante as tensões relacionadas à independência de Kosovo.

A Sérvia nunca aceitou a secessão de Kosovo, conquistada com apoio da Otan em 1999. Muitos outros países também rejeitaram a declaração formal de independência do antigo território sérvio em 2008.

Logo após os bombardeios lançados pela Otan contra a Sérvia em 1999, Moscou também congelou a cooperação militar com a aliança.

Habitado majoritariamente por populações de etnia albanesa, Kosovo iniciou um processo de secessão em relação à Sérvia no final dos anos 1990, que foi respondido com violência por parte das forças de segurança sérvias. A Otan interveio no conflito depois que civis passaram a buscar refúgio em países vizinhos, fugindo em massa das tropas sérvias.

Disputa sobre Tratado

Em 2007, a Rússia suspendeu a observância do Tratado sobre Forças Convencionais na Europa, que limitava a quantidade de forças militares em determinadas regiões do continente. O acordo foi assinado por países ocidentais e antigos membros do Pacto de Varsóvia em 1990 e houve uma tentativa de revisá-lo em 1999.

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Image caption Proposta de criação de força de resposta rápida opôs Otan e Putin

A Otan, no entanto, se recusou a aprovar atualizações ao tratado alegando que a Rússia deveria antes retirar suas tropas remanescentes na Geórgia e na Moldávia.

Além disso, a Otan anunciou nos últimos dias planos para estabelecer uma força de resposta rápida composta por milhares de homens na Europa Oriental, próximo à fronteira russa.

A força poderia ser mobilizada em 48 horas, em uma medida que iria comprometer ainda mais o Tratado sobre Forças Convencionais, embora a Otan insista que a nova força não teria bases permanentes.

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