Corintiano que denunciou o clube por ofensas da torcida promete novas ações

Torcedores do Corinthians (Getty) Direito de imagem Getty
Image caption Corinthians lançou manifesto para acabar com homofobia e outros tipos de preconceito na torcida

"É meu time do coração, mas as pessoas só vão parar se o clube começar a ser multado", diz o corintiano Paulo Iotti à BBC Brasil, um mês após ter sido rejeitada a terceira denúncia feita por ele pedindo punição ao Corinthians no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) pelos gritos de "bicha" entoados por sua torcida.

Advogado, homossexual assumido e membro de um grupo pela diversidade sexual, ele fica indignado sempre que ouve os gritos de "Ooooo Bicha!" da torcida corintiana cada vez que o goleiro adversário pega na bola.

"Sinto-me ofendido, indignado. O tribunal falou que eles entendem que o jogador não é homossexual, então, isso não seria uma ofensa. Só que você está imputando homossexualidade a ele como uma forma de menosprezá-lo, como se a homossexualidade implicasse em ser inferior", desabafa.

Ele não obteve sucesso das primeiras vezes, mas promete denunciar de novo se os gritos da torcida corintiana se repetirem no clássico contra o São Paulo, neste domingo, pelo Campeonato Brasileiro.

"Vou entrar na Justiça comum contra o clube se for o caso. O Corinthians é o time para o qual torço, mas não interessa. A torcida tem que evoluir nessa questão."

As denúncias de Iotti não levaram o Corinthians ao tribunal, mas o TJD sugeriu que o clube e a própria Federação Paulista de Futebol (FPF) tomassem providências, como campanhas anti-homofobia.

Manifesto

O Corinthians tomou conhecimento do caso e, na semana passada, faltando pouco mais de uma semana para o clássico contra o São Paulo, decidiu lançar um manifesto contra o preconceito.

"Aqui é o time do povo (...) E aqui não há e nem pode haver homofobia. Pelo fim do grito de 'bicha' no tiro de meta do goleiro adversário. Porque a homofobia, além de ir contra o princípio de igualdade que está no DNA corintiano, ainda pode prejudicar o Timão."

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Image caption Corinthians faz manifesto contra preconceito e homofobia

Por sua vez, a torcida do São Paulo chegou a lançar um novo grito de cunho homofóbico para atingir os corintianos.

"Gambá, me diz como se sente, por que você gosta de beijar. Ronaldo saiu com dois travecos, o Sheik selinho ele foi dar. Vampeta posou pra G, Dinei desmunhecou, na fazenda de calcinha ele dançou. Não adianta argumentar, todo mundo já falou, que o gavião virou um beija-flor."

Segundo Alexandre Ferreira, gerente de marketing do Corinthians, o lançamento do manifesto não é 'oportunista', já prevendo os possíveis gritos no clássico contra o São Paulo - era algo que estava sendo pensado há meses.

"Não é um manifesto contra a homofobia. É contra preconceito em geral. Já vínhamos trabalhando desde a época da Copa do Mundo em algo nesse sentido, pensando no racismo também, e lançamos campanha", disse Ferreira à BBC Brasil.

Denúncias

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Image caption Torcedor corintiano teve três denúncias sobre homofobia pela torcida do seu time rejeitadas

Assistindo ao jogo entre Corinthians e São Paulo pelo Campeonato Paulista, em março, Iotti ouviu pela primeira vez o coro de "bicha" entoado pela torcida corintiana quando o goleiro Rogério Ceni estava com a bola.

Isso o motivou a fazer a primeira denúncia, por meio do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual (GADS), do qual faz parte – além dele, a Coordenação de Políticas LGBT da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo e outro advogado (este, são-paulino) também entraram com representações no tribunal.

A decisão saiu quase um mês depois, dada pelo presidente do TJD–SP, Mauro Marcelo de Lima e Silva, que disse: "O que ocorreu com Rogério Ceni no mencionado jogo foi homofobia? Claro que não. Faltou ali o 'animus' da vontade positiva e dolosa de criticar a opção sexual do atleta, existindo uma distância muito grande entre o que aconteceu com ele e uma atitude realmente homofóbica. O que aconteceu foi mais um deboche público."

A segunda denúncia foi feita após um jogo contra o Flamengo, pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro, motivada pelos mesmos gritos de "bicha", desta vez direcionados ao goleiro Felipe, do time carioca.

A decisão do procurador que recebeu a representação foi de não seguir em frente com a denúncia sob justificativas similares às do presidente do TJD–SP.

"A afirmação do autor de que a homossexualidade foi atribuída ao goleiro de forma pejorativa merece prova contundente. (...) Na verdade, tudo indica uma espécie de manifestação de falta educação da torcida, um usual e reprovável xingamento, costumeiro no mundo do futebol."

Iotti ficou ainda mais indignado com a resposta. "Eles falaram que não dei provas. Como assim? O próprio grito é a prova de que estão usando o termo de forma pejorativa."

A última tentativa do corintiano foi apresentar um recurso à decisão do procurador. Ele foi à última instância e tentou denunciar o Corinthians no STJD. A resposta, dessa vez, foi mais curta.

"De ordem do Dr. Procurador Geral deste Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Paulo Marcos Schmitt (...) informo que através de despacho mantém despacho às fls. 58, estando integralmente de acordo com o parecer da Procuradoria."

Punição

Paulo Iotti não está disposto a desistir de cobrar punições para torcidas que utilizarem cantos ou expressões homofóbicas dentro dos estádios - seja ela a torcida corintiana ou a de qualquer outro time.

Ele acredita que, assim como foi com o racismo, somente quando um clube for punido haverá uma conscientização maior dos torcedores sobre a homofobia no futebol.

"Se o Corinthians estivesse disputando o título, denunciaria mesmo assim. Com dor no coração, mas denunciaria. Porque só assim que se aprende. Mas a campanha de conscientização também é importante. O próprio Corinthians me surpreendeu positivamente com este manifesto."

Segundo o Corinthians, a receptividade da primeira campanha lançada – o manifesto contra o preconceito – foi boa.

"A grande maioria das pessoas entendeu o recado. Alguns concordam, outros não, mas respeitam", disse Alexandre Ferreira.

"Nosso objetivo era botar o assunto para ser discutido. A gente tem de rever nosso comportamento. Toda mudança leva um tempo pra acontecer, mas acreditamos que eles vão respeitar, vai surtir efeito."

A BBC Brasil consultou o procurador geral do STJD, Paulo Schmmitt – que rejeitou a denúncia de Iotti – para saber se poderia haver punição ao Corinthians ou qualquer outro clube por gritos homofóbicos da torcida.

Segundo ele, "atos discriminatórios violam o Código Brasileiro de Justiça Desportiva e, como os clubes são responsáveis pelos atos praticados por seus torcedores, eles estão sujeitos a multas, perda de pontos, de mando de campo, entre outras penalidades".

Porém, o presidente do STJD, Caio Rocha, disse ao jornal Folha de S. Paulo que "o ato discriminatório tem que ser direcionado a pessoas com características diferentes às do autor da ofensa" e que, portanto, um grito homofóbico para atingir um heterossexual não poderia ser considerado discriminação.

A reportagem também procurou a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e a Federação Paulista para saber se algum tipo de campanha para combater a homofobia no futebol já havia sido pensada pelas entidades. A FPF disse que "não há nada programado agora, mas a entidade está aberta apoiar qualquer ação contra qualquer tipo de preconceito." A CBF não respondeu até o fechamento da matéria.

*Colaborou Jefferson Puff

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