Após 26 filhos, africano vira 'profeta' do controle de natalidade

Kouayou Kouayou  | Foto: BBC
Image caption Kouayou Kouayou teve 26 filhos, mas hoje ensina a outros homens que isso não é certo

O africano Kouayou Kouayou é conhecido no pequeno vilarejo de Sakassou, na Costa do Marfim, como "Profeta", por funcionar como uma espécie de líder espiritual.

Mas nos últimos anos ele também ficou famoso por outra função que desempenha em seu vilarejo. Pai de 26 filhos com quatro mulheres diferentes, ele ajuda a promover o controle de natalidade em uma sociedade em que as mulheres trabalham duro para que os homens possam descansar.

"Na nossa cultura, quanto mais crianças você tem, mais rico e cheio prestígio você fica, e eu tenho o número recorde [de filhos] aqui no vilarejo", diz Kouayou à BBC.

Na vida da sociedade rural da Costa do Marfim, as mulheres acordam cedo e trabalham duro até o fim da noite, enquanto os homens têm bastante tempo livre para relaxar.

Diante disso, uma funcionária do Fundo Populacional da ONU montou um "Cursinho de Maridos" no país, para que os homens aprendam a valorizar o papel da mulher no dia a dia. Na Costa do Marfim, Adiza Ba – ou Madame Ba, como é conhecida – tem o cargo de Autoridade do Programa Nacional de Mudança de Comportamento, e seu escritório administra os cursos.

Nas aulas, os homens recebem lições de como realizar tarefas domésticas ou de como instalar redes nas casas, para evitar mosquitos que transmitem malária.

Image caption 'Cursinhos de Maridos' estão diminuindo mortalidade no parto em vilarejo na Costa do Marfim

'Como uma mangueira'

Com seu uniforme laranja, Kouayou Kouayou se tornou um dos porta-vozes de uma mensagem central na campanha da Madame Ba: o controle de natalidade.

Sua tarefa é tentar convencer outros homens a não seguirem seu exemplo de alta fertilidade.

"Eu explico aos homens que a mulher é como uma magueira – ela dá frutos e depois passa por um período de descanso. Uma esposa precisa de tempo para cuidar do bebê novo e para ficar bela para seu marido. Se ela fica desgastada muito rapidamente, ele vai sair procurando outra mulher", diz o "Profeta".

"Se você dá um espaço entre os bebês, eles nascem com mais saúde e isso é melhor para a mulher."

Ele diz que sua tarefa é difícil, já que a mensagem nem sempre é bem recebida pelos homens do vilarejo.

"Outros maridos têm muito receio em relação ao controle de natalidade – eles acham que suas mulheres usarão isso como uma desculpa para se divertir com outros homens e como não ficarão grávidas depois, ninguém vai ficar sabendo. Nós explicamos que não é para isso que servem os contraceptivos."

Os Cursinhos de Maridos da Madame Ba começaram há dois anos, com quatro projetos-piloto. Até o fim deste ano, esse número chegará a 52.

"O engraçado é que eles não percebem que a mulher geralmente precisa fazer tudo", diz a Madame Ba.

"E quando eles percebem o que acontece, eles agem como se estivessem muito espantados. Então eu preciso lembrar que à noite são as esposas que saem para pegar água, que dão banho nos filhos, que fazem a comida e limpam a casa, enquanto os maridos se arrumam e saem para bater papo com seus amigos. Alguns estão começando a perceber que isso não é justo."

Mas o objetivo dos cursos vai além de ensinar aos maridos a serem menos egoístas, mais ativos no serviço doméstico e menos resistentes aos contraceptivos. A principal bandeira de Madame Ba é o cuidado com a saúde das mulheres grávidas.

Ela quer convencer os homens em vilarejos rurais do país de que consultas médicas antes do parto não são uma perda de tempo e de que é muito mais seguro para as mulheres darem à luz no hospital do que em casa.

A Costa do Marfim tem um dos maiores índices de mortalidade no parto do mundo. Por dia, 20 mulheres morrem durante o trabalho de parto, em média, em todo o país. O número é o mesmo da China, cuja população é 60 vezes maior do que a da Costa do Marfim.

As mulheres em Sakassou gostam da ideia de ter seus filhos no hospital, mas o orçamento familiar é controlado pelos homens, que precisam ser convencidos de que "vale a pena" gastar dinheiro para viajar até a cidade mais próxima que tenha um hospital.

Image caption Em Sakassou, poucas mulheres conseguem ser levadas a hospitais para dar à luz

Sakassou sequer tem água encanada ou eletricidade. Um táxi para o hospital da cidade de Toumodi, a alguns quilômetros do vilarejo, custa 10.000 francos CFA (cerca de R$ 40) – praticamente a renda mensal média do trabalhador local.

Agora, graças ao Cursinho de Maridos, muitas estão conseguindo ser levadas ao hospital. Quando uma mulher está prestes a ter seu filho, os maridos passam com alto-falante pela cidade coletando doações que custeiam o transporte até Toumodi.

O projeto-piloto de Madame Ba e os conselhos de Kouayou Kouayou estão surtindo efeito. De acordo com Bernard Konan, diretor de saúde do distrito, o número de mortes de mulheres em partos caiu de 12, em 2012, para oito, em 2013. Até agora, neste ano, foram apenas três.

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