#SalaSocial: Museu de comunidades preserva cotidiano do Orkut

Comunidade do Orkut | Foto: BBC
Image caption Fim do Orkut deixa registros de milhares de debates sérios e discussões nonsense de brasileiros

No auge da febre do Orkut no Brasil, entre 2005 e 2006, as comunidades reuniam milhares de brasileiros com amores, ódios e hábitos em comum - desde os mais corriqueiros, como ser fã de uma banda, até os mais excêntricos, como lamber a embalagem do iogurte. Mas do que eles tanto falavam nos grupos?

Encerrada após 10 anos no ar, a rede social do Google deixou para trás um arquivo de 120 milhões de tópicos em mais de 50 milhões de comunidades como Existe vida após o almoço?, Era uma vez meu fígado e Minhas mágoas usam bóias.

Desde terça-feira, quem acessa o site do Orkut se depara com um "Arquivo de Comunidades do Orkut".

"De janeiro de 2004 a setembro de 2014, milhões de pessoas, espalhadas pelo mundo todo, se reuniram para discutir interesses comuns em uma vasta coleção de comunidades do Orkut. Com o objetivo de preservar a história de conexões e conversas do Orkut, este arquivo traz todo o conteúdo público dessas comunidades", diz uma mensagem no site.

As comunidades estão organizadas por ordem alfabética. É possível acessar as descrições e os fóruns de discussão.

Na maior parte dos casos, a criação dos fóruns era, por si só, uma piada. Mas dentro delas ainda é possível encontrar debates sobre privacidade, confissões amorosas e a eterna procura por pessoas que partilhassem dos mesmos interesses, para amizade ou algo mais.

Graças a um tópico de contagem de membros criado em 2010, é possível saber que a comunidade A BORRACHA da VIDA é o TEMPO! chegou a ter mais de 840 mil participantes. O tópico ia rumo ao milhão, mas foi interrompido em junho de 2012.

Os arquivos do Orkut, no entanto, mostram que ali não se falou muito a respeito da vida, nem do tempo. Das nove postagens, seis eram jogos e brincadeiras com os perfis dos participantes. A borracha, no entanto, foi tema de um tópico: "escreva borracha sem ser enterrompido (sic)", que teve quase 4 mil respostas em cinco anos. Ele foi atualizado pela última vez no dia 21 de setembro de 2014, uma semana antes do fim da rede.

Leia mais na BBC Brasil: #Salasocial: 'Casais Orkut' lamentam fim de rede social

Image caption Ao ser encerrado, site virou museu de comunidades, com mais de 50 milhões de fóruns

'Maníacos por Danone'

Em Borboletas no estômago, os participantes compartilhavam seus casos de amor – e tópicos inteiros foram passados na discussão sobre paixões não correspondidas. Em 2009, o usuário Dan lamentava com desconhecidos o fim do seu namoro no tópico "as minhas borboletas se foram".

"Eu acabei o namoro hoje com a pessoa que eu mais amava na vida... infelizmente nosso relacionamento não deu certo e resolvemos terminar...". Três dias depois, Elisa o consola: "Ai, que triste... não fica assim... pode ser que daqui a um tempo as coisas melhorem pra vcs!!! Se não sentir borboletas com ela, sentirá com outra pessoa..."

No fórum Bom senso é fundamental, um tópico de dezembro de 2005 rebatia as críticas à falta de privacidade no Orkut, que geraram uma onda de perfis deletados e de scraps (recados postados em um mural público) "lidos e apagados" imediatamente.

"Orkut é que destrói vidas? Ou cada um destrói a sua própria por meio de incoerências e ironias diversas que indiretamente atacam os outros e ferem os verdadeiros amigos?", dizia Milena D., apoiada por outros membros do grupo.

Image caption Usuários protestaram até o último dia contra o fim do Orkut e voltaram para se despedir de comunidades

Os participantes Eu lambo a tampinha de danone mantiveram, entre 2005 e 2012, uma conversa sobre o tema. No primeiro tópico da comunidade, um funcionário de uma fábrica da empresa em Poços de Caldas (MG) comemorava o encontro com outros "maníacos por Danone". Nos anos seguintes, no entanto, começam a aparecer depoimentos sobre cortes na língua feitos com a tampa do iogurte. Um tópico entitulado "Isso pode ser perigoso" seria também o último post da comunidade, imortalizando o alerta.

A comunidade Absurdos que o povo fala foi palco de discussões sobre xingamentos estranhos e sobre a origem histórica de expressões como "Da pontinha da orelha" e "A porca torce o rabo". Mas em 2006, Luciene Silva pediu licença para buscar um homem chamado Pierre Mogly.

"Eu tinha um amigo que morava em São Paulo, que perdi o contato há uns 4 anos. Eu magoei muito essa pessoa e gostaria de pedir desculpas. As informações que tenho são super hiper escassas, pois tenho a memória horrível...", dizia, em um tópico criado para pedir ajuda.

Luciene teve apenas uma resposta, dizendo que o prefixo do telefone que ela compartilhou, que seria o de Pierre, era da zona leste de São Paulo. Não é possível saber se ela o encontrou.

Resistência

À medida em que a curva de crescimento do Orkut caía, muitas das comunidades foram dominadas por mensagens de propaganda e vírus. A partir de 2011, é difícil encontrar discussões na maioria das comunidades, para além do spam e dos jogos de paquera, em que os participantes tinham que dar opiniões sobre os perfis uns dos outros.

Em dezembro do mesmo ano, o Facebook ultrapassaria o Orkut em número de usuários brasileiros.

Alguns usuários do Orkut, no entanto, resistiam ao concorrente criado por Mark Zuckerberg. Só em 2010 o Facebook permitiu a criação de comunidades. Mesmo assim, muitos ainda preferiam a estrutura de fóruns do Orkut, que permitia a conversa por tópicos que poderiam ser retomados a qualquer momento pelos membros.

"Tentei usar o Facebook durante alguns meses. Ele é bom para postar fotos e um monte de outras coisinhas, mas não é nada prático para trocar ideias, expressar opiniões, etc.; para isso o Orkut é muito melhor!", disse Celso Gama, em março de 2013, em um tópico na comunidade Diga não ao fim do Orkut !!.

O grupo se manteve ativo até o último dia do Orkut. Um tópico que organizava um abaixo-assinado contra o fim da rede teve mais de 21 mil respostas.

Image caption Comunidades reuniam pessoas com interesses em comum, mas muitas eram criadas só pela piada

Algumas das comunidades mais populares também receberam visitas de despedida. Queria sorvete, mas era feijão, que começou relembrando os potes de sorvete que guardavam feijão congelado e chegou a ter mais de 210 mil membros, também foi dominada por spam a partir de 2010, mas em 29 de setembro de 2014, o participante Junior resumiu o sentimento do grupo, à guisa de despedida, em um tópico chamado Feijão no Freezer.

"Com essa as mães partem os corações dos filhos", disse.

Já a popular Anão vestido de palhaço mata 8, inspirada em títulos de notícias curiosas, teve atualização constante até o último dia. Ainda em julho, membros da comunidade voltaram a comentar nos tópicos mais populares para deixá-los no topo da lista para a posteridade.

No dia derradeiro, participantes davam adeus aos seus interlocutores no do site considerado a porta de entrada para os brasileiros na Internet. Um novo tópico deixava uma última mensagem: "Foi bom conhecer vocês, mas a vida segue". Ao lado, um link para a nova comunidade Anão vestido de palhaço mata 8. Dessa vez, no Facebook.

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