'Mona Lisa' de 19 anos encantou Picasso com beleza e juventude

Sylvette David aos 19 anos. Foto: Edward Quinn Archive Direito de imagem Edward Quinn Archive
Image caption Sylvette David e seu penteado rabo-de-cavalo foram temas de várias pinturas de Picasso

Quando a tímida francesa Sylvette David tinha apenas 19 anos, conheceu um idoso no pequeno vilarejo onde morava que ficou completamente encantado com sua beleza e juventude.

O idoso em questão era o artista espanhol Pablo Picasso, que imortalizou a jovem em uma série de quadros.

Na época, Françoise Gilot, uma das mulheres que morou com Picasso por alguns anos durante as décadas de 1940 e 1950, descrevia o artista como uma espécie de Barbazul - o aristocrata folclórico que assassinava suas esposas toda vez que casava.

"Comecei a ter a sensação de que se procurasse no armário, eu encontraria dezenas de ex-mulheres penduradas pelo pescoço", escreveu Gilot em seu livro de memórias. "Ele tinha um complexo de Barbazul, que fazia com que ele quisesse decapitar suas mulheres para mantê-las em uma espécie de museu privado."

É conhecido que poucas companheiras de Picasso tiveram um final feliz. Sua amante Marie-Thérèse Walter e sua segunda esposa Jacqueline Roche cometeram suicídio.

Rabo-de-cavalo

Mas Sylvette David conseguiu evitar um envolvimento emocional desgastante com Picasso e nunca sofreu como as demais.

Picasso e Sylvette se conheceram na primavera de 1954 quando o artista - que na época já era um astro internacional com mais de 70 anos - vivia na Côte d'Azur. Picasso tinha um estúdio na Rue du Fournas na cidadezinha de Vallauris. Naquele ano, Sylvette era uma loira atraente de apenas 19 anos do vilarejo.

Ela havia recém se mudado com o noivo Toby Jellinek para morar com a sogra. Toby era designer de móveis avant garde e tinha uma oficina não muito longe do estúdio de Picasso.

A primeira vez que os dois se falaram foi quando Picasso comprou algumas cadeiras de Toby.

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Image caption Sylvette David foi musa que inspirou maior número de retratos de Picasso

Semanas depois, Sylvette estava tomando café com amigos no terraço de uma das casas do vilarejo quando avistou Picasso em seu estúdio. O artista mostrou a ela um quadro de uma jovem loira com um penteado rabo-de-cavalo - era Sylvette, que ele havia pintado de memória.

Sylvette lembra que sentiu que o gesto era um convite. Ela e seus amigos desceram à casa do artista e bateram em sua porta. Picasso abriu e imediatamente abraçou a jovem. "Quero pintá-la! Pintar Sylvette!", disse ele.

Vida pessoal abalada

Entre abril e junho, Picasso convenceu Sylvette a posar para ele. Foram criados 60 retratos em diversas formas: desenhos, esculturas e 28 pinturas. Foi a primeira vez que Sylvette trabalhou como modelo.

A jovem acabou se tornando a mulher que inspirou o maior número de quadros de Picasso.

As obras causaram um frisson em Paris no verão daquele ano, sobretudo os quadros cubistas em preto, branco e cinza. A revista Life chegou a anunciar uma nova fase na obra do artista: a "fase rabo-de-cavalo". Muitos ficaram fascinados também com a relação entre Picasso e sua jovem e estilosa musa.

Mas ao longo dos anos, os historiadores da arte passaram a desprezar os quadros de Picasso com Sylvette.

Quando o artista conheceu a jovem, sua vida pessoal estava muito abalada. Françoise Gilot, com quem ele tinha dois filhos, havia acabado de deixá-lo - ela foi a primeira mulher a abandoná-lo. Sentido-se vulnerável por estar sozinho e próximo da morte, Picasso achou consolo na juventude de Sylvette.

Críticos divididos

Mas eles nunca chegaram a ter relações sexuais. Sylvette era tímida demais até mesmo para posar nua. Os dois logo se distanciaram - quando Picasso casou com Jacqueline Roque em 1961.

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Image caption Ainda hoje as obras desta série de Picasso dividem os críticos de arte

Muitos historiadores passaram a ver a série com Sylvette como uma espécie de interlúdio superficial na obra de Picasso, já que o artista não teria estabelecido uma grande relação emocional com a jovem, como fizera com outras musas.

Alguns críticos também veem os temas das pinturas como modinhas efêmeras que envelheceram: como o rabo-de-cavalo e o casaco com capuz e botões grandes usados por Sylvette. Essas modas seriam pequenas demais para serem consideradas grande arte.

Mas há quem discorde. Cristoph Gruenberg, diretor da galeria Kunsthalle Bremen, na Alemanha, está exibindo metade da série Sylvette.

"A ideia de que não há engajamento emocional é um argumento psicológico superficial. Eu não acho que se possa reduzir Picasso a uma espécie de vampiro sanguessuga que se alimenta de mulheres como musas - é algo mais complexo que isso", diz ele.

"Talvez sua resistência a seus avanços o tenham seduzido. Por não ter conseguido conquistá-la na vida real, precisava conquistá-la nas telas, no papel e na escultura."

Mais de um século depois que a série foi feita, a musa de Picasso hoje é conhecida como Lydia Corbett e se tornou ela própria uma artista. Em Londres, no seu aniversário de 80 anos, ela ganhou uma retrospectiva na galeria Francis Kyle.

Ainda hoje ela se sente grata a Picasso. Recentemente ao olhar uma série de revistas antigas com reportagens sobre seus dias com o artista espanhol, a musa ficou comovida e disse a um crítico de arte: "Eu nunca o agradeci pelo que fez por mim. Ele me imortalizou. Eu sou como a Mona Lisa. Impressionante, não acha?"

Leia a reportagem original em inglês no site BBC Culture.

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