Médico boliviano usa técnicas militar e indígena para salvar crianças

Credito: Franz Freudenthal Direito de imagem Franz
Image caption Técnica já salvou vida de milhares de crianças

Para salvar a vida de crianças, o cardiologista boliviano Franz Freudenthal mistura tecnologia militar americana com técnicas artesanais de índios aimarás.

O médico usa em suas cirurgias cardíacas um metal inteligente originalmente desenvolvido pelos militares dos EUA, o nitinol, e faz implantes que medem milímetros, tão sofisticados e delicados que só podem ser feitos à mão, com técnicas artesanais antigas da comunidade indígena boliviana Aimará.

Os dispositivos criados por Freudenthal para tratar doenças cardíacas congênitas renderam a ele, recentemente, o Prêmio Inovadores da América na categoria ciência.

"Há o Oscars, Emmy e o Globo de Ouro. Mas não existia nenhum prêmio dedicado a projetos inovadores, que podem mudar o mundo, na América Latina", dizem os organizadores do prêmio, concedido anualmente pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina.

Segundo um dos jurados, César Cuello, cerca de 500 crianças são tratadas por mês com estes implantes em todo o mundo. Eles são exportados para Argentina, Peru, Alemanha, Estados Unidos, Iraque e Vietnã.

'Coisas essenciais'

Uma das grandes inspiradoras de Freudenthal foi sua avó alemã, Ruth Tichauer de Wrischinski. Ele a acompanhava em suas visitas médicas na Bolívia quando era criança.

"Ela era uma ativista, médica e pioneira em planejamento familiar e no tratamento ambulatorial da tuberculose na região", disse o cientista à BBC Mundo.

"Ela me ensinou que o sentido da vida está nas coisas essenciais, como valorizar o tempo e a beleza da natureza, incluindo os seres humanos. Não há esforço melhor do que ajudar o próximo quando ele mais precisa".

Quando era estudante de medicina em um hospital em La Paz, sua cidade natal, Freudenthal foi testemunha da morte "desnecessária" de um recém-nascido e sentiu necessidade de responder a este sofrimento de forma criativa.

Começou a desenhar seus primeiros implantes quando era estudante, e seu trabalhou lhe rendeu uma bolsa de pós-graduação na Alemanha. Lá, operou um menino pela primeira vez na década de 90.

Direito de imagem Franz Freudenthal
Image caption Inspiração de médico veio de sua avó

"Aos 29 anos tive meu primeiro paciente, um menino que não poderia ser operado com outro método. Agora os inventos são usados em quase todo o mundo."

Cardiopatias

As cardiopatias congênitas podem levar à morte. Há diferentes fatores de risco, segundo o médico Pablo Durán, assessor regional de saúde perinatal da Organização Panamericana de Saúde.

"Aproximadamente uma de cada oito cardiopatias congênitas são de causa genética ou cromosômica. Entre os fatores de risco já foram reconhecidos a diabetes materna, infecções e o contato com medicamentos específicos, tabagismo ou obesidade materna. A administração de vitaminas com ácido fólico demonstrou em vários estudos a redução das cardiopatias congênitas", acrescentou Durán.

Os dispositivos desenhados por Freudenthal corrigem uma grande variedade de doenças cardíacas, entre elas a chamada "persistência do canal arterial".

"Quando os bebês estão dentro do útero eles respiram através dos pulmões da mãe. Mas ao nascer temos que respirar com nossos próprios pulmões e há muitas mudanças", explicou o cientista boliviano.

Uma dessas mudanças é o fechamento da comunicação entre a aorta e a artéria pulmonar.

A comunicação, chamado canal arterial, deve ser fechada na hora do nascimento. Mas em algumas crianças ela permanece aberta, algo conhecido como "persistência do canal arterial", disse Freudenthal.

"O oxigênio é o maior estimulante para que essa artéria feche e tenha uma circulação normal. Mas aqui em La Paz falta oxigênio, porque estamos a 4.000 metros acima do nível do mar. O problema é dez vezes mais frequente do que a nível do mar."

Direito de imagem Frans Freudenthal
Image caption Desafio é popularizar técnica na Bolívia

O que acontece com as crianças quando essa comunicação não fecha?

"Em crianças com persistência do canal arterial o sangue oxigenado recircula para os pulmões e o coração trabalha três vezes mais do que o necessário."

"A criança não ganha peso, fica muito cansada ao mamar e morre de pneumonia. Equivocadamente, muitas vezes essa morte é registrada como morte por infecção respiratória."

Metal com memória

Os aparelhos inventados por Freudenthal permitem o fechamento ou a oclusão do canal arterial.

Os implantes, que têm formas muito diferentes, são feitos de arame de nitinol, uma liga de níquel e titânio descoberta nos EUA durante pesquisas para materiais para submarinos há 50 anos.

O nitinol não é apenas um metal que não corrói, mas também um que tem memória.

"Isso significa que configuramos o implante fora do paciente, o introduzimos por um catéter muito fino, o empurramos e quando chegamos ao local, graças à memória do metal, o dispositivo retorna ao seu tamanho original, recuperando a forma que lhe demos."

Não é necessário fazer uma operação para implantar os dispositivos, que podem ser posicionados com um catéter.

"As artérias e veias dos bebês medem apenas alguns milímetros, e usamos catéteres muito finos para chegar onde queremos fechar a artéria. Não é apenas um buraco, mas uma linha inteira, como um tubo que tem que fechar."

"Os implantes que fazemos andar por esses catéteres têm que ser comprimidos e se tornar muito, muito pequenos, e quando chegam a seu lugar precisam ficar grandes para preencher a lacuna. Por exemplo, as bobinas tem menos de 1mm de diâmetro mas podem medir até 20cm de comprimento. "

Técnica Aimará

Os implantes não têm soldas e são feitos com um único fio de nitinol. Não podem ser feitos de forma industrial e requerem muita destreza e habilidades motoras para serem feitos à mão.

É por isso que são usadas as técnicas têxteis Aimará.

"Eles têm a tradição de fazer tecidos incríveis, há tecidos que fazem com fios meçam 0,10 milímetro", afirma.

Freudenthal adquire o nitinol de uma empresa na Califórnia e produz os dispositivos em duas fábricas, uma na Alemanha e outra na Bolívia.

"Começamos na Bolívia e, em seguida, fomos para a Alemanha para ensinar."

'Catástrofe na Bolívia'

Entre os sonhos do cientista está que "um paciente cardíaco jogue no Mundial e mostre que graças ao tratamento precoce ele é completamente normal."

Mas ele diz que seu próximo desafio é fazer com que os implantes salvem a vida de mais crianças no seu próprio país.

"A mortalidade por doença cardíaca congênita aqui na Bolívia é uma catástrofe. Não há ou pelo menos eu não conheço um programa de governo para atender a essas crianças, não existe nenhum centro de cirurgia cardíaca com estes métodos."

Notícias relacionadas