Repórter-mesário: Ameaça de tufão não espanta eleitores no Japão

Douglas Wakimoto (BBC) Direito de imagem Douglas Wakimoto
Image caption Fila se formou nesta seção em Tóquio antes mesmo do início da votação

Domingo, 5 horas da manhã. Antes de sair de casa, dou uma rápida olhada na previsão do tempo. A chegada do tufão de número 18 ao Japão promete chuvas fortes durante o dia e rajadas de ventos.

Ganho a rua e uma chuva fraca, porém insistente, embala minha caminhada de 15 minutos a pé até a estação.

Enquanto espero o trem que me levará para o centro de Tóquio, vejo um grupo de estudantes uniformizados animadíssimo e, mais uma vez, fico espantado de ver como a educação é levada à sério no Japão.

Hoje é dia de eleição presidencial no Brasil e eu, mais uma vez, atuarei como mesário na seção que fica no Consulado-Geral do Brasil em Tóquio

Chego ao consulado sob chuva forte e me surpreendo com uma fila gigante, que dobra a esquina. Dezenas de guarda-chuvas e capas de chuva colorem a rua cinzenta.

Os japoneses olham espantados, sem saber do que se trata a fila. Alguns tiram até fotos. Afinal, é raro ver uma grande quantidade de estrangeiros reunidos.

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Meu trabalho hoje foi como primeiro-mesário. Há exatos 20 anos, exerci a função de segundo-mesário nas eleições em que Fernando Henrique Cardoso superou Luiz Inácio Lula da Silva ainda no primeiro turno, com 54,27% dos votos, em 1994.

Semelhanças e diferenças

Desde então, muita coisa mudou no processo eleitoral. A principal foi a troca pelo sistema eletrônico de voto, que facilitou a vida dos eleitores e também dos cidadãos convocados para trabalhar nas eleições.

Entre as semelhanças, comparando as eleições de 1994 e 2014, para mim, além do mesmo sanduíche de pão com presunto e queijo, foi o entusiasmo dos voluntários, dispostos a contribuir com o Brasil, mesmo que à distância.

No Japão, era esperado um total de 30,6 mil eleitores nas 93 seções eleitorais espalhadas por dez cidades japonesas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Na seção onde trabalhei, havia 400 eleitores cadastrados e apenas 198 compareceram às urnas. Uma grande parte era de brasileiros que moram há muitos anos no Japão ou jovens que nasceram ou imigraram cedo para cá. A votação se encerrou às 5h da manhã, no horário de Brasília.

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Falar o idioma japonês foi essencial para orientar esses conterrâneos na hora de assinar a ata e explicar como funciona a urna eletrônica.

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Image caption Simone e a mãe, Ivone, citaram a importância do voto, mesmo dizendo que não pretendem voltar tão cedo ao Brasil
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Image caption O brasileiro Márcio Roberto Reis da Silva foi o primeiro a chegar ao local de votação em Tóquio, popr

Simone Emy Murai Takasaki, de 26 anos, votou pela segunda vez na vida para presidente. Apesar de falar somente o japonês, foi incentivada pela mãe, Ivone Takasaki, a cumprir a obrigação eleitoral.

"Tenho o passaporte brasileiro e acho que devemos fazer nossa parte como cidadãos, mesmo que não tenhamos mais intenção de morar lá", explicou a jovem, que recebeu orientações dos pais quantos aos candidatos.

Ivone levou ainda outras duas filhas para votar e, mesmo com chuva, estava empolgada com as eleições. "Temos de ter sempre esse sonho de construirmos um país cada vez melhor e esta é nossa chance de contribuir, escolhendo o melhor líder."

Márcio Roberto Reis da Silva concorda com Ivone. Ele foi o primeiro a chegar ao local de votação em Tóquio, por volta das 5 horas da manhã.

"Vim cedo para pegar um trânsito tranquilo e acabei sendo o primeiro da fila", disse.

Silva lembra que uma grande parte dos brasileiros que vive no exterior tem a vontade de voltar para o Brasil um dia. "Então esta é uma oportunidade de lutarmos por aquilo que acreditamos, que é nosso país natal", comentou o brasileiro. "Além disso, temos parentes e amigos que continuam morando lá", lembrou.

O que esperar do futuro presidente? "Quero que ele olhe para os brasileiros que vivem no exterior com mais carinho, pois nos preocupamos e contribuímos bastante com o Brasil", pediu.

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