#SalaSocial: Moradores de rua do Rio ganham biografia em versão de projeto de NY

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Image caption Nestor foi parar nas ruas do Rio de Janeiro depois de fugir do regime militar argentino, nos anos 1970

Você cumprimenta o senhor que dorme todos os dias debaixo da marquise da esquina? Sabe seu nome? De onde veio? Como foi parar na rua? A resposta mais frequente para as quatro perguntas é "não" - e daí nasce o projeto Rio Invisível.

Na página, que em um mês no Facebook conseguiu mais de 7 mil seguidores, são publicadas fotos e minibiografias de pessoas que dormem em calçadas, praças e viadutos. A ideia, dizem os criadores, é reduzir a barreira existente entre quem tem casa e quem vive sob o relento.

Caso de José Carlos, cuja meta é "comprar uma caixa de isopor e bebidas pra poder vender e juntar um dinheiro". Ou a adolescente Estefany, cujo primeiro amor "morreu faz um ano... De tiro".

O formato segue o padrão popularizado pelo fenômeno norte americano Humans of New York. Criada pelo fotógrafo Brandon Stanton, a mais famosa coleção virtual de imagens e micro-histórias de desconhecidos acumula 10 milhões de seguidores no Facebook e virou um dos principais best-sellers de 2013, segundo o jornal The New York Times.

A diferença é sutil: em Rio Invisível, ao contrário da "matriz" novaiorquina, quem tem teto não têm vez.

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Image caption "Quando a gente gosta, fica abobalhada. Ele morreu faz um ano. De tiro", conta Estefany

Coragem

À parte da edição estrangeira, os autores cariocas contam que sua principal inspiração é um projeto quase homônimo - São Paulo Invisível - que há quase um ano retrata pessoas em situação de rua na capital paulista.

De lá para cá, a ideia original de trazer visibilidade aos sem-teto de São Paulo nas redes sociais se espalhou por mais cidades e deu origem a páginas como Curitiba Invisível, Fortaleza Invisível e Campo Grande Invisível.

A mais recente é a carioca. "Fiquei uma semana com a máquina fotográfica na bolsa, sem ter coragem. Queria fotografar o Amadeu - soube o nome dele depois -, mas não sabia por onde começar", conta a estudante de cinema Yzadora Monteiro, de 23 anos, que criou a página ao lado do publicitário Nelson Pinho. "Um dia, finalmente, pedi para sentar ali do lado. Ele deixou e o projeto começou".

Amadeu passa dias sentado na mesma calçada, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, em silêncio, ouvindo um radinho de pilha. Como ele, as 11 personagens entrevistadas até agora foram encontrados pelos autores no caminho de casa, do trabalho ou da faculdade.

"Nem todo mundo com quem a gente conversa topa tirar foto. O interesse pela história, pelo bate-papo, tem que vir antes da foto. Não dá para achar que aquela pessoa é como um produto, só mais um clique a se contabilizar", diz Monteiro.

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Image caption "Gosto daqui, tem a praia pra ver… Vou ficando. Estou sempre com o rádio para ouvir música, mas agora ele pifou", contou Amadeu

Hermano

Uma dessas conversas rendeu encontro com o argentino Nestor, de 56 anos.

"Sou da província de Buenos Aires, Argentina. Vim para cá refugiado, depois do golpe de 1976. 'Mi papá' era peronista e foi preso político – minha família começou a desaparecer. Eu tinha 25 anos, me perseguiram mesmo quando eu disse que não era a favor de Perón. 'Yo no'. No meu país, eu trabalhava com pintura de barcos, vivia bem e pagava meu quarto. Tive que vender um terreno para me refugiar", contou.

Em seu depoimento, Nestor diz que, ao fim do regime militar, teve chance de voltar para casa. "Fiquei", prosseguiu.

Por razões pouco explicadas, disse ter ficado preso por um tempo. Depois, foi para a rua - e lá dorme até hoje.

Para os autores, verossimilhança não é uma questão - eles não se preocupam em verificar se os fatos narrados correspondem à realidade.

"Muita gente pergunta se é verdade tudo o que colocamos ali", diz Monteiro. "Não temos garantia e o que importa não é a verdade em si, mas o que eles querem ser e dizer. Não cabe a ninguem duvidar. a mim cabe confiar nas histórias."

Nota da redação: Ao encontrar a página Rio Invisível, o autor desta reportagem descobriu nome e biografia de um antigo vizinho, com quem conviveu na praça ao lado de sua casa por cinco anos, sem trocar uma única palavra. Agora sabe que Haroldo tem 77 anos, vive nas ruas há 60, gosta de "uma cachacinha, jogar sueca e dominó valendo um salgado".