Ebola: Europa pode expandir checagem em aeroportos, mas qual a eficácia?

Funcionário de máscara em aeroporto dos EUA Direito de imagem Reuters
Image caption Nos EUA, funcionários dos principais aeroportos do país já tomam medidas preventivas no desembarque de passageiros

Depois de Estados Unidos e Grã-Bretanha terem iniciado testes em aeroportos com passageiros provenientes dos países mais afetados pela epidemia do ebola, as operações de triagem de possíveis infectados poderão ser ampliadas na Europa.

Na quinta-feira, os ministros da área da Saúde dos países da União Europeia se reunirão em Bruxelas para discutir possíveis medidas especiais de controle de fronteiras.

O assunto ganhou força entre as autoridades da UE depois do anúncio da morte em Leipzig, na Alemanha, de um profissional de saúde sudanês que contraiu o ebola enquanto trabalhava para a ONU no atendimento a pacientes na Libéria, um dos países africanos mais afetados pela epidemia.

A reunião foi convocada na segunda-feira, dias depois da confirmação de casos de ebola na Espanha e nos Estados Unidos e da primeira suspeita (não confirmada) de contágio no Brasil, episódios que aumentaram a expectativa sobre a realização de testes em aeroportos para tentar evitar que o vírus se espalhe.

Cinco aeroportos nos EUA farão parte do esquema de triagem; em Nova York as operações começaram no sábado.

Em Londres, o esquema será também estendido para Gatwick, o segundo maior aeroporto do Reino Unido, e ao serviço ferroviário Eurostar. As autoridades britânicas, que anteriormente tinham dito que a triagem era desnecessária, mudaram de ideia e anunciaram a implantação na noite de quinta-feira, além de fazer lobby junto aos vizinhos europeus para um maior controle conjunto.

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Novos números de vítimas

A decisão, no entanto, é soberana de cada um dos 28 integrantes da UE.

No Brasil, onde houve um primeiro caso suspeito de ebola em Cascavel, no interior do Paraná, ainda não foram anunciadas medidas de controle nos aeroportos.

Especialistas dizem que os testes não detectam pessoas infectadas que ainda não desenvolveram os principais sintomas, como febre alta. A incubação do vírus dura de 2 a 21 dias - em teoria, um paciente pode ser infectado e só sentir febre 20 dias depois.

A Organização Mundial de Saúde prega atenção muito maior à triagem de saída em aeroportos nas regiões afetadas.

E, nesta terça-feira, o órgão divulgou números atualizados sobre o avanço da doença: 4.447 pessoas morreram vítimas na atual epidemia, e o número de possíveis casos de infecção é de 8.914.

Mas até que ponto os testes em aeroportos podem ajudar a conter a doença? Veja abaixo perguntas e respostas sobre o tema.

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Como são os testes?

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Image caption O mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde fala em 4.447 mortes e 8.914 casos de Ebola, a maioria deles na África

Os testes envolvem a medição da temperatura das pessoas para saber se elas têm febre. Este é um dos principais sintomas do ebola, mas também de muitas outras infecções.

As pessoas que passarem pela triagem também podem ter que responder a perguntas para avaliar o seu risco, incluindo:

- Para quais países você já viajou e quais são seus planos daqui para frente?

- Você esteve perto de alguém doente recentemente?

- Você esteve próximo ou cuidou de alguém que teve ebola?

- Você está com febre ou dor de cabeça?

- Você está vomitando ou está se sentindo mal?

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Image caption Passageiros terão temperatura medida e responderão questionário

- Você trabalha na área da saúde?

Na Grã-Bretanha, o governo diz que algumas pessoas vão passar por avaliação de uma equipe médica - os detalhes não foram divulgados. Os viajantes também receberão conselhos sobre o que fazer se se sentirem mal depois de voltarem.

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Quais testes já estão sendo feitos?

A OMS recomenda que as pessoas passem por avaliações ao sair dos países atingidos pelo ebola.

Os viajantes que embarcam nos três países mais afetados - Guiné, Serra Leoa e Libéria - têm suas temperaturas medidas e precisam responder a uma série de perguntas para avaliar o risco de estarem infectados.

Passageiros com suspeita de estarem contaminados não são autorizados a embarcar.

Existe um exame de sangue rápido para diagnosticar o vírus?

Exames de sangue podem ajudar a identificar o vírus, mas eles são analisados em laboratórios e o resultado pode levar horas.

Atualmente, os aeroportos não têm capacidade de fazer esses testes.

Além disso, como o vírus tem um período de incubação de dois a 21 dias, os testes podem não detectá-lo em pessoas que só apresentarem os sintomas depois.

A triagem nos aeroportos de chegada vai funcionar?

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Image caption Para especialistas, testes são mais efeitvos no país de saída

Alguns especialistas em saúde afirmam que, se os viajantes passaram por testes nos aeroportos de saída - nos países com casos de ebola - e não foi detectado nenhum sintoma, o teste no aeroporto de chegada dificilmente detectará um caso suspeito.

Eles dizem que é extremamente improvável que muitas pessoas desenvolvam os sintomas durante o voo, o que significa que a triagem adicional na chegada dificilmente pegaria muitos casos.

Mas as autoridades veem os testes como "cuidados adicionais".

É possível pegar ebola de outro passageiro no avião?

O ebola pode ser transmitido apenas pelo contato com fluidos corporais de alguém com a doença.

Durante esta epidemia não houve nenhuma evidência que sugerisse que alguém tenha contraído o vírus em um avião.

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Mesmo se alguém desenvolver sintomas no voo, para que outros passageiros peguem a doença eles teriam que estar em contato com fluidos corporais do passageiro com ebola.

Vômito, sangue e fezes contêm as partículas do vírus mais contagiosas. Assim, os riscos continuam a ser extremamente baixos, a menos que você esteja do lado de alguém doente no avião.

Os testes teriam detectado os casos dos EUA ou da Europa até agora?

Image caption Caso de Thomas Eric Duncan não teria sido detectado por testes

Mesmo se os testes já estivessem em vigor nos EUA, Thomas Eric Duncan, o primeiro homem a ser diagnosticado com ebola no país no surto atual, não teria sido identificado.

Ele só apresentou sintomas uma semana depois de voltar aos EUA.

O primeiro caso diagnosticado na Europa nesta epidemia, da enfermeira espanhola Teresa Romero, também não teria sido identificado pela triagem no aeroporto, porque a profissional de saúde já estava no país quando pegou a doença.

Ela integrava a equipe que tratou, na Espanha, de um padre que contraiu ebola em Serra Leoa e foi transferido para Madri.

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