Do pódio à cadeia: Relembre a trajetória de Oscar Pistorius

Oscar Pistorius no banco dos réus Direito de imagem AFP
Image caption Pistorius foi condenado a cinco anos de prisão pelo homicídio culposo de sua namorada, a modelo Reeva Steemkamp, em fevereiro de 2013

Nesta terça-feira, Oscar Pistorius recebeu uma sentença de cinco anos de prisão por homicídio culposo - ele também recebeu uma suspensão de cinco anos de eventos esportivos. Apenas dois anos depois de encantar o mundo ao se tornar o primeiro atleta deficiente físico a participar dos Jogos Olímpicos, o corredor sul-africano se transformou em vilão.

A vida de Pistorius tem elementos espetacularmente díspares. De um lado, há a incrível história de superação: o menino nascido em 1986 sem as fíbulas (ossos das pernas), o que forçou uma dupla amputação aos 18 meses de idade. Mas que, a partir dos 12 anos, sem nenhum talento aparente, transformou-se num prodígio das pistas.

Image caption Carregado pelos amigos de infância, Pistorius participa de uma corrida em Pretória

Do outro estão os relatos de um homem de temperamento volátil e com predileção por carros em alta velocidade e por armas de fogo. Sua infância foi marcada por relatos de encrencas a bordo de carros e mesmo de um kart.

Este espírito aventureiro foi estimulado pela família de Pistorius, que via nas estripulias um quê de normalidade e uma forma de não ser limitado por sua deficiência.

Da mãe, Sheila, recebia conselhos constantes, incluindo pequenos bilhetes em sua lancheira. Dela, recebeu uma carta com um recado claro. "O verdadeiro perdedor não é aquele que cruza a linha de chegada em último lugar, mas aquele que sequer tenta competir".

Ao pedir que Oscar e o irmão, Carl, se vestissem para a escola, Sheila pedia para que Carl vestisse os sapatos e Oscar, as pernas (as próteses).

Image caption A deficiência física nunca impediu Pistorius de se engajar em atividades radicais, como escaladas

Pistorius também não tinha medo. Misturava-se aos meninos normais inclusive para partidas de rúgbi.

Aos 15 anos, ele já competia em eventos de atletismo - embora fossem de longa distância, não as provas de velocidade que o fizeram famoso - quando a mãe morreu. O impacto na vida de Pistorius foi grande e o atleta tatuou as datas de nascimento e óbito de Sheila em seu braço.

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Para curar a dor, ele correu e treinou como nunca. Ao ponto de quase acabar com sua carreira com uma lesão no joelho, sofrida numa partida de rúgbi em 2003. Ironicamente, foi um episódio de renascimento: aconselhado a usar o treinamento de velocidade em sua recuperação, ele pegou gosto.

E, com o auxílio de um tipo revolucionário de prótese, Pistorius registrou, em apenas três semanas de competições, 11.72s nos 100m. Simplesmente o tempo mais rápido já corrido por um atleta de amputação dupla. Oito meses depois, Pistorius conquistou a medalha de ouro nos 200m dos Jogos Paralímpicos de Atenas (2004).

Pistorius não parecia querer olhar para trás e logo já desafiava as barreiras do esporte: em 2007, o sul-africano começou a participar de eventos enfrentando atletas convencionais.

Direito de imagem Reuters
Image caption Pistorius homenageou a mãe, que morrer em 2002, tatuando suas datas de nascimento e óbito no braço direito

Logo surgiram os argumentos de que as próteses poderiam dar a Pistorius vantagem nas corridas, e a Federação Internacional de Atletismo proibiu sua participação em provas "normais" por entender que os membros artificiais serviam como molas para o sul-africano.

Pistorius foi à justiça desportiva e conseguiu reverter a decisão, mas não se classificou para os Jogos de Pequim, em 2008. No entanto, sua história foi suficiente para que chovesse dinheiro sobre ele, com empresas fazendo fila para patrociná-lo.

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Quatro anos mais tarde, o sul-africano alinhou na pista do Estádio Olímpico de Londres para as eliminatórias dos 400m. Não chegou à final, mas fez história suficiente para se tornar um símbolo de superação e um herói na África do Sul.

Mas sua incrível façanha foi marcada pela maneira pouco elegante como reagiu a uma derrota para o brasileiro Alan Fontelles na final dos 200m dos Jogos Paralímpicos. Pistorius acusou o brasileiro de trapacear no uso das próteses.

Durante a competição, o colega de equipe paralímpica sul-africana Arnu Fourie disse à mídia do país que precisou trocar de quartos na Vila dos Atletas porque, segundo ele, Pistorius gritava constantemente ao telefone no aposento ao lado.

"Ele mostrou uma atitude de menino mimado e envergonhou a África do Sul com seu comportamento nos Jogos Paralímpicos de Londres", opina o jornalista esportivo Graeme Joffe, amigo de Pistorius.

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Image caption A reação intempestiva à derrota para o brasileiro Alan Fonteles nas Paralimpíadas de Londres, em 2012, mostrou um lado menos gracioso de Pistorius

Em janeiro de 2013, um lado mais preocupante da mudança de comportamento de Pistorius veio à tona: ele acidentalmente disparou um revólver num restaurante de Johannesburgo, pedindo que um amigo assumisse a culpa - um outro incidente, em que ele deu um tiro para o alto após uma discussão com um policial, viria à tona mais tarde.

Na época, Pistorius já estava namorando a modelo Reeva Steenkamp, estrela de programas de reality TV. Um relacionamento amplamente explorado pela mídia sul-africana.

Mas que teve um fim trágico mais tarde: na madrugada de 14 de fevereiro, Pistorius matou Steemkamp a tiros em sua mansão no bairro de Sandton, bairro de classe alta de Johannesburgo. Foi a julgamento em março do ano seguinte, sempre alegando ter sido um acidente - disse ter confundido Steemkamp com um invasor.

Depois de sete meses de deliberações, a juíza Thokozile Masipa decidiu pelo homicídio doloso e por uma pena que poderá resultar em Pistorius passando apenas 10 meses atrás das grades para cumprir o restante da pena em prisão domiciliar. Na teoria, ainda há tempo de Pistorius tentar voltar as pistas para as Olimpíadas e Paralimpíadas de 2020. Na prática, porém, sua carreira parece encerrada.

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